Não foi surpresa para ninguém que Eduardo Cunha esteja despencando da posição de homem mais forte do governo golpista de Temer para abismos que ninguém sabe onde pode parar. Surpresa foi que tudo isso não tivesse se dado ainda no ano passado, quando todos os elementos para sua cassação e prisão já estavam dados.
Não se deu porque tudo faz parte do plano golpista de
desalojar, da forma que seja, o PT do governo. Pelo impeachment sem fundamento
da Dilma e pela perseguição política, também sem qualquer fundamento, ao Lula.
Não importa agora à direita que Eduardo Cunha e mesmo Aécio, sejam cadáveres
políticos. Se prestaram para o plano golpista, que terminou desembocando em
Temer.
A história tem vários casos em que personagens medíocres, de
repente, são projetados ao centro do cenário político, sem que eles mesmos entendam
por que, nem para que. Marx falava de Luis Bonaparte como um desses casos. É
preciso que exista um processo de crise e deslegitimação geral das lideranças,
forças e do próprio sistema político, para que nesse vazio penetrem personagens
sinistros, medíocres, dispostos a qualquer coisa. Porque não significam nada,
podem se prestar a qualquer coisa.
A crise de deslegitimação vem de longe, desde Collor,
aproveitando-se do frustrado governo da transição democrática, que também caiu
no colo de um outro personagem medíocre – José Sarney. E, depois do próprio
Collor. A direita foi buscar em FHC e nos tucanos o que já não dispunha mais,
depois do fracasso de Collor. Atribui-se a Roberto Marinho, momento da queda de
Collor, a afirmação de que já não poderiam eleger a ninguém mais da direita –
esgotada a ditadura, Sarney, Collor -, teriam que buscar alguém em outro campo.
Para o que se prestou FHC.
Mas essa crise ganhou novos impulsos com a
instrumentalização das mobilizações de 2013 que, como disse Lula, ganharam um
sentido imposto pela direita, a ponto que a Globo chegou a suspender uma
telenovela para transmitir o que lhe parecia a maior manifestação popular
contra os governo do PT.
A nova derrota eleitoral levou à retomada desse processo,
que tem sempre na desqualificação da política e do PT, como partido que dirige
o Estado desde 2003, seu alvo preferido. Foi desmontada a imagem pública da
Dilma como presidente capaz de enfrentar a crise econômica e de dirigir o
processo político brasileiro. Foi a partir dessa ideia de ingovernabilidade que
se tornou possível o impeachment, para o qual se buscou qualquer pretexto.
Descartada a possibilidade de anulação das eleições ou
qualquer outra via que fizesse recair em outro personagem medíocre, Aécio
Neves, a presidência, o projeto desembocou em Temer. Um personagem
suficientemente vazio, para que pudesse ser preenchido com os conteúdos que
interessam à direita: desmontagem do Estado, retomada do modelo neoliberal,
destruição da imagem do PT.
Esse projeto se choca com alguns problemas. O primeiro, seu
caráter golpista e mafioso, indispensável, para poder se concretizar. Daí o
papel central de Eduardo Cunha, o verdadeiro articulador político do golpe e da
chegada de Temer à presidência. A farsa do impeachment teria sido impossível
sem ele. Agora o projeto tem que se ver às voltas com que o mafioso mor cai e
cobra seu preço, colocando em risco todo o projeto. Os próximos dias
demonstrarão os efeitos negativos reais que essa queda e ruptura de aliança
produz no governo e em todo o projeto golpista.
Mas há um outro obstáculo ao projeto da direita brasileira.
Nem todos foram alvo eficiente da campanha de destruição de reputações. Lula
paira como um fantasma na cabeça da direita. Sem tirá-lo da vida política, tudo
o que a direita faça se parecerá ao mito de Sisifo, que Lula recomporá.
Daí o segundo movimento sinistro – o primeiro o golpe
travestido de impeachment: o da perseguição ao Lula, sem nenhum fundamento. Já
se deram conta que a reiteração de suspeitas nunca comprovadas na mídia são
insuficientes para tirar de Lula o caráter de maior e hoje único grande líder
popular do país. Então é necessário privá-lo da possibilidade de se candidatar
e ser eleito novamente presidente o Brasil.
A prisão é uma operação temerária. Pode tirá-lo de
circulação e tirar sua voz por algum tempo, não se sabe por quanto tempo, e a
experiência daquela sexta-feira em que tentaram prendê-lo, se reverteu muito
negativamente para a direita. Agora o movimento popular está muito mais forte,
a direita mais fraca, sem mobilizações de rua e com um governo cambaleante.
Resta encontrar um pretexto para tentar destruir o político
que mais contribuiu para fortalecer a democracia no Brasil. O único que
sobrevive à devastação de políticos, de partidos, de instituições. O único que
pode ser o eixo da reconstrução do momento mais virtuoso da história
brasileira, quando pela primeira vez a desigualdade, a pobreza, a miséria, a
exclusão social diminuíram.
Caso consigam, a democracia estará definitivamente sepultada
no Brasil. O mercado e as grandes corporações – mediáticas, financeiras,
jurídicas – governarão o pais, com autoritarismo, com repressão, com lavagem
cerebral. Para isso contam com o que a montanha pariu: o Temer.
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