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segunda-feira, 30 de março de 2026

"1964 não acabou": Lançamento do livro "Nunca Mais" abre evento de memória e resistência em Ribeirão Preto

 

Sônia Wright e Camilo Vannuchi 
Fotos: @filipeaugustoperes

Primeiro dia reuniu público no Lar Santana para resgatar história do projeto Brasil: Nunca Mais e a luta contra a ditadura


O evento "1964 não acabou" teve início na noite desta segunda-feira(30) no Lar Santana, em Ribeirão Preto, com o lançamento do livro "Nunca Mais", do jornalista e escritor Camilo Vannuchi. A programação, que segue até terça-feira (1º de abril), marca a fundação do Comitê de Preservação, Memória, Verdade, Justiça e Reparação da Região Metropolitana de Ribeirão Preto.


Diante de uma plateia atenta, Vannuchi contou detalhes da gestação do projeto Brasil: Nunca Mais, que entre 1979 e 1985 conseguiu reproduzir e analisar clandestinamente mais de um milhão de páginas de processos da Justiça Militar. 


"Eles vão destruir todos os processos, como destruíram com todos os processos políticos na ditadura Vargas", relatou o autor, reconstituindo o temor que movia a advogada Eny Raimundo Moreira, advogada e defensora dos direitos humanos brasileira, presidenta-fundadora do Comitê Brasileiro pela Anistia, e uma das idealizadoras do Brasil: Nunca Mais.


O livro resgata a história de como um pequeno grupo, sob o guarda-chuva do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e do pastor presbiteriano Jaime Wright, salvou do esquecimento 707 processos que listaram 242 centros de tortura e 444 torturadores nominalmente citados. 


"O Dom Paulo olha praquilo ali e fala: 'O resultado do trabalho de vocês é um relatório de seis mil páginas? Quem vai ler seis mil páginas? Vocês tratem de reduzir isso aí a um livro de trezentas páginas'", contou Vannuchi, arrancando risos da plateia.


O livro vermelho Brasil: Nunca Mais acabou se tornando um fenômeno editorial em 1985, com quase dois anos na lista dos mais vendidos. 


"A sede que se tinha nesse país da verdade, da justiça, da democracia estava ali, expresso", afirmou, em discurso indireto, a educadora Sônia Wright, filha de Jaime Wright, presente no evento.


Sônia Wright é educadora e militante da memória, verdade e justiça 

Sônia, que também participará da roda de conversa no encerramento do evento, lembrou o envolvimento do pai com o projeto. 


"Ele conhecia aqueles 17 volumes, seis mil páginas, na palma da mão", disse ela, em discurso direto. "Ele tinha um orgulho tremendo desse livro que ele ajudou a divulgar, a criar, traduziu para o inglês, Torture in Brazil." 


O livro, teve dezenas de edições e ficou quase dois anos entre os mais vendidos no país.


Vannucchi também trouxe à tona a dimensão quase romanesca da logística do projeto: os microfilmes eram levados para a Suíça pelo Reverendo Charles Harper, do Conselho Mundial de Igrejas, que retornava com dinheiro vivo escondido em roupas e sapatos. 


"Chegaram os chocolates", era o código usado por Jaime Wright para avisar que os recursos haviam chegado. "Suíça é boa de quê? Relógio e chocolate", brincou o autor.


O autor ainda emocionou ao contar a passagem da advogada Entre Raimundo Moreira, que, em plena ditadura, atravessou do Rio de Janeiro para Presidente Wenceslau na noite de Natal e abraçou um a um os 400 presos comuns e políticos do presídio. 


"Ela fica duas horas abraçando e beijando todos os quatrocentos e tantos presos", relatou. 


"Eram duzentos e tantos homens chorando no dia 24 de dezembro por terem tido aquele abraço."


Ao final do lançamento, o público pôde conversar com o autor e adquirir exemplares do livro, Nunca Mais, que reconstrói com detalhes inéditos uma das maiores operações de resgate da memória já realizadas no país.


A mesa e lançamento do livro “Nunca Mais” aconteceu no Lar Santana”


Nesta segunda-feira (31), a programação continua no Lar Santana, com exibição do documentário "Maurina, O Outono Que Não Acabou", que narra a história da única freira presa e torturada durante a ditadura militar, Madre Maurina Borges da Silveira, às 19h30. 


Em seguida, às 20h30, o militante Leopoldo Paulino apresenta o projeto "Tempo de Resistência", mesclando música, memórias e relatos de sua atuação na ALN (Ação Libertadora Nacional). 


Às 21h, ocorre um Sarau Cultural com discotecagem e palco aberto, e à meia-noite, a Caminhada do Silêncio parte do Lar Santana em direção à Praça José Mortari.


Organização e apoios


O evento é organizado pela UP (Unidade Popular pelo Socialismo), pelo MST, pelo Memorial da Resistência Madre Maurina Borges e pelo PCBR. Conta com o apoio da Antifa Botafogo Resistência Caipira, Comitê Permanente da Causa Humanitária Palestina, PT, UGT, Frente Recultura e PSOL, reafirmando o compromisso com a preservação da memória, a verdade, a justiça e a reparação na região metropolitana de Ribeirão Preto.


O Lar Santana está localizado na rua Conselheiro Dantas, 964, Vila Tibério. A entrada é gratuita.

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