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sábado, 21 de março de 2026

meus ofícios do poema

 


meu poema nasce do rumor de uma porta mal fechada

do lençol sacudido pela ventania

da colher esquecida sobre a mesa

e do relâmpago que apodrece na memória


nasce do pó agarrado às cortinas

à garganta

do suor das palavras perseguidas

das sílabas que dormem sob o musgo

e da unha escura do tempo riscando a cal dos muros


há em meu poema ferragens de sonho

ferrugens

um sal de lágrimas

uma caixa de mariposas queimadas

e um resto de tarde preso na engrenagem do peito

escrevo

como quem  se inclina sobre esse poço de ferrugem e astros

e escuto no fundo

não a água

mas o baque de um rosto perdido

a respiração de uma infância perdida

o ruído de um país desmoronando dentro de uma vogal


Oh estes trabalhos da poesia


separo a cinza do clarão

arranco do limo uma faísca

dou ao silêncio uma dentadura de ouro sombria

e ao grito visto uma névoa

para que atravesse minha noite sem ser degolado


minha palavra não vem pura

monstro amoroso e metamorfo

vem coberta de pólen e ferrugem

de saliva

de jornais mortos

de retratos quebrados

de passos ouvidos atrás da parede

de barcos afundados no leite da madrugada


sou poeta e trabalho com sobras

minhas sobras:

fio de minha voz que resta no travesseiro

mancha de café em torno de um nome

frio de uma cadeira vazia

rumor de facas dentro do armário do mundo

dentro de meu murmúrio 

a lenta combustão do que não pôde ser dito


e cada verso meu

antes de ser asa

foi pedra

antes de ser música

foi ferida mastigada em segredo

antes de ser clarão no papel

foi bicho cego procurando saída entre costelas


desço aos depósitos do espanto

aos porões onde apodrecem minhas metáforas prematuras

às caves do idioma

onde as palavras dormem juntas

como animais doentes

ou como ferramentas cobertas por meus panos de sangue


ali

entre pronomes mutilados

verbos com cheiro de mofo

substantivos atravessados por agulhas de chuva

escolho

não o ornamento

mas a brasa

não a  flor intacta

mas a flor já tocada pela fuligem

não o espelho

mas o caco

onde a face do mundo ainda vacila


para mim escrever é isso


lavo um osso com a língua

acendo uma lâmpada dentro de um pântano

peço a uma sombra que permaneça

e a um clarão que não minta

(mas mente - e dói)


faço do ar

matéria suportável

do caos

uma arquitetura de ecos

do sofrimento

não consolo

mas forma


para que meu horror tenha contorno

para que a beleza externa não se perca

para que minha morte não reine sozinha

nos armários do idioma


Oh labor escuro!


movo com as mãos nuas

essas roldanas de febre

esses trilhos de seiva e ferrugem

essas colmeias subterrâneas

onde o sentido fabrica seu mel envenenado


quantas vezes meu verso falha

quantas vezes me despedaço 

e vejo as pessoas partirem


e eu, copo na pia da madrugada,

empobreço mais


quantas vezes meu poema é apenas

uma escada encostada no nada

ou um pássaro batendo inutilmente

contra a vidraça de meu próprio nome


mas às vezes

por entre destroços de sintaxe

por entre sedas rasgadas de lembrança

por entre móveis cobertos do abandono

surge em mim uma linha viva


uma linha apenas

e nela tremem:

o mar

o pão

o desejo

a ferrugem dos portões

a cadeira do morto

o riso de quem partiu

minha mão que escreve

e a outra mão invisível

que me guia ou me condena


então 

meu poema respira


respira como um animal saído da lama

respira como uma janela aberta dentro do incêndio

como uma ave de carvão e neve

erguendo-se do papel

com seus olhos de água escura


e já não me pertence

já não é meu


pertence ao ar

ao povo 

à ferrugem

ao ouvido alheio

ao susto de uma mulher na varanda

ao susto da mulher que não me quer mais

ao companheiro que caminha entre ruínas

à criança que recolhe do chão

um vocábulo ainda quente


escrevo

e perco a posse do clarão

e dou à língua

aquilo que a língua pediu em segredo

e deixo sobre a mesa

não uma resposta

mas um objeto ardendo


objeto feito de sombra e cal

de mel e faca

de chama e músculo

de esquecimento e regresso


trabalho a poesia


com seus andaimes de névoa

suas enxadas de música

seus martelos de pranto

suas agulhas de incêndio

seus espelhos rachados por minha respiração dos séculos


trabalho sobre o nada

como se o nada fosse madeira

trabalho sobre a perda

como se a perda pudesse cantar

trabalho sobre a matéria instável

de lama sonora de meu desejo


e do fundo da página

surge

não a paz

mas uma centelha


não a verdade inteira

mas um animal luminoso


não a eternidade

mas este instante

salvo da queda

por uma palavra


que me salva da queda

por uma palavra

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