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segunda-feira, 9 de março de 2026

Mulheres do MST realizam ocupações em sete estados durante Jornada de Lutas do 8 de Março

 

Carta manifesto

Mais de 3 mil mulheres participaram de ações contra mineração, grilagem de terras, trabalho análogo à escravidão e paralisação da reforma agrária nesta segunda-feira

Nesta segunda-feira 9 de março, mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) realizaram ocupações, bloqueios e protestos em diferentes regiões do país durante a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra. As mobilizações reuniram mais de 3 mil participantes e tiveram como eixo político o lema “Reforma Agrária Popular: enfrentar as violências, ocupar e organizar!”.

As ações ocorreram em sete estados, Alagoas, São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo, Tocantins e Rio Grande do Sul, e tiveram como alvo mineradoras, latifúndios, empreendimentos do agronegócio e áreas públicas reivindicadas para a reforma agrária. Além de denunciar crimes ambientais, grilagem de terras e violações trabalhistas, as mobilizações também cobraram políticas públicas para assentamentos, combate à violência contra mulheres e reparação de danos socioambientais.

Ocupações simultâneas

A jornada teve início na madrugada de 9 de março, quando centenas de mulheres Sem Terra realizaram ações simultâneas em diferentes estados, transformando o 8 de Março em um momento de mobilização política nacional.

No município de Craíbas, no Agreste de Alagoas, cerca de 500 mulheres ocuparam as instalações da Mineração Vale Verde, empresa responsável pelo Projeto Serrote, voltado à exploração de cobre. As manifestantes denunciaram impactos socioambientais associados à mineração, como contaminação de rios, morte de animais, tremores de terra e rachaduras em casas de moradores da região.

Durante a mobilização, as mulheres também reivindicaram do governo estadual uma audiência para discutir a destinação de terras pertencentes à massa falida do Grupo João Lyra para assentamentos rurais e exigiram a suspensão de despejos de famílias acampadas no estado.

Disputa pela terra em São Paulo

No interior de São Paulo, cerca de 400 mulheres ocuparam  a Fazenda Santo Antônio, em Presidente Epitácio,no Pontal do Paranapanema. A área possui 1.675 hectares de terras devolutas pertencentes ao Estado que deveriam ser destinadas à reforma agrária, mas permanecem sob posse privada para exploração de pecuária extensiva.

Durante o ato, o movimento também criticou a Lei nº 17.557/2022, sancionada pelo governador Tarcísio de Freitas e conhecida por movimentos sociais como “Lei da Grilagem”. De acordo com o MST, a legislação permite a regularização de terras públicas ocupadas irregularmente por grandes proprietários rurais. O movimento afirma que a medida já possibilitou a regularização de cerca de 55 mil hectares em favor de 150 latifundiários, com descontos de até 90% sobre o valor real das áreas.

Denúncia de trabalho escravo em Goiás

Em Vila Boa de Goiás, cerca de 500 mulheres do Distrito Federal e de estados do Centro-Oeste ocuparam uma área de 8 mil hectares pertencente à Companhia Bioenergética Brasileira (CBB). A empresa acumula dívidas superiores a R$ 300 milhões e é alvo de denúncias de trabalho análogo à escravidão, crimes ambientais e desmatamento ilegal.

De acordo com o movimento, trabalhadores recebiam diárias de cerca de R$ 27, situação considerada degradante e irregular. Durante a mobilização, as manifestantes defenderam a desapropriação da área para a reforma agrária, argumentando que o imóvel já está em processo de adjudicação para pagamento de dívidas com o Estado

Protestos contra a mineração

Outra mobilização de grande repercussão aconteceu em Minas Gerais, em que cerca de 700 mulheres bloquearam os trilhos da Estrada de Ferro Vitória-Minas, no município de Tumiritinga. A ação interrompeu simbolicamente o transporte de minério ligado à mineradora Samarco.

Ao mesmo tempo, cerca de 300 famílias ocuparam terras da empresa em Anchieta, no Espírito Santo. As ações denunciaram a impunidade pelos crimes decorrentes do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (2015), considerado o maior desastre socioambiental da história do país.

Entre as reivindicações apresentadas pelas manifestantes estão a condenação das empresas responsáveis, indenização para cerca de dois mil trabalhadores rurais atingidos, restauração ambiental nos assentamentos impactados e garantia de acesso à água potável às comunidades afetadas.

Ocupação no Rio Grande do Sul

No município de São Gabriel, no Rio Grande do Sul, cerca de 500 mulheres ocuparam uma área de 400 hectares pertencente à Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro). A mobilização pressionou o governo estadual e o Incra a avançarem nas negociações para criação de novos assentamentos.

De acordo com lideranças do MST, a área poderá abrigar famílias acampadas e também um centro de acolhimento e geração de renda para mulheres vítimas de violência, articulando reforma agrária e políticas de cuidado.

Ocupação no Tocantins denuncia grilagem e histórico de violência

Cerca de 400 mulheres, incluindo militantes Sem Terra da região amazônica, ocuparam a Fazenda Santo Hilário, no município de Araguatins, no Tocantins.

A área possui 2.462 hectares e é reivindicada para fins de reforma agrária desde 2002. O imóvel possui um histórico marcado por assassinatos, violência no campo e denúncias de trabalho escravo.

A desapropriação da fazenda foi determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por meio da Ação Civil Ordinária nº 847, julgada em 2016. Em fevereiro de 2020, o tribunal confirmou o cancelamento da matrícula do imóvel, atendendo decisão assinada pelo ministro Alexandre de Moraes, o que fez com que a área retornasse ao domínio da União.

Mesmo assim, segundo o MST, o fazendeiro permanece na área de forma irregular, configurando um caso de grilagem de terra pública.

Durante a mobilização, as mulheres denunciaram o avanço da grilagem na Amazônia e prestaram solidariedade às famílias do acampamento Carlos Marighella, onde cerca de 200 famílias vivem desde 2013 em uma área próxima à fazenda, localizada em um antigo lixão municipal às margens da rodovia TO-404.

A região do Bico do Papagaio, onde ocorreu a ocupação, possui forte simbolismo histórico para os movimentos camponeses. Foi ali que atuou o padre Josimo Tavares, assassinado em 1986 por sua defesa da reforma agrária e dos trabalhadores rurais.

Para Divina Lopes, da direção nacional do MST, a mobilização também denuncia o avanço do agronegócio e da exploração econômica sobre territórios amazônicos.

“Este é um território emblemático, no Bico do Papagaio, terra de Padre Josimo, mas também região do avanço destrutivo do capital e do agronegócio. Nossa luta é em defesa da terra e do território, mas também para denunciar todas as formas de violência que nós mulheres sofremos nos corpos e territórios.”

As manifestantes também cobraram urgência na vistoria da área por parte do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Segundo o movimento, desde setembro de 2025 o órgão designou dois servidores para realizar o procedimento, mas o prazo de 60 dias para a vistoria não foi cumprido, o que, na avaliação das mulheres, aumenta o risco de conflitos e violência na região.

Carta Manifesto orienta mobilizações

As ações realizadas durante a jornada foram acompanhadas pelo lançamento da CartaManifesto das Mulheres Sem Terra, documento político que orientou as mobilizações.

No texto, as mulheres denunciam a persistência da concentração fundiária no país e afirmam que cerca de 1% dos proprietários rurais controla quase metade das terras agricultáveis do Brasil, enquanto mais de 100 mil famílias continuam acampadas aguardando assentamento.

Entre as reivindicações apresentadas estão o assentamento emergencial das famílias acampadas, democratização do acesso à terra, fortalecimento da produção de alimentos saudáveis, combate à violência contra mulheres e enfrentamento ao modelo de exploração ambiental baseado no latifúndio e na mineração.

O documento também relembra os 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás, reafirmando a reforma agrária como tarefa histórica necessária para enfrentar a fome, a pobreza e a crise ambiental no país.

Entre os dias 8 e 12 de março, são esperadas a participação de 14 mil mulheres nas lutas realizadas pelo MST.


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