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domingo, 27 de setembro de 2026

O poema que nos faz

 


1

há um poema dentro de nós,
como uma criança 
que chuta a parede do ventre
e exige nascer

o poema diz: — te amo.
dizemos: — nos amamos
o “amamos” não é o mesmo
existe o meu, o teu, o nosso, 
como todos que já disseram “eu te amo” ao mundo
e o mundo decidiu diversamente
se respondia
lemos o poema em voz alta
o poema nos lê em voz baixa
ninguém sabe quem lê primeiro
e a palavra não devolve imagem:
devolve posição
devolve tarefa
devolve o que ainda não somos, 
mas já queremos ser

não nos enganemos
fruto de expiração
o poema não reflete nossa vida
e nem a resolve 
mas traça o plano da manhã seguinte
organiza a luta 
o amor construído todo dia
o amor da semana que vem

sem idealizações
não nos vemos no poema como quem se vê no lago
ou em uma floresta erma
nem em promessas românticas pequeno burguesas
essa volta à saudosa infância
recriada em nossas memórias reconstruídas

antes vemo-nos como quem se vê na barricada
ou em um ato sexual:
rosto suado, mãos ativas, grito espesso

e nos reconhecemos 
nos emocionamos não no que somos
mas no que o poema 
naquele instante juntos 
em êxtase
nos leva a ser

2

sob suas mil faces neutras
a palavra nos aguarda em estado de dicionário
não, ela não é espelho
projeto pela forma que damos a ela
quando entrelaçamos nossos corpos
mesmo que em breve instante
nossas vidas
a palavra 
a ação 
não descreve o amor
funda-o

ela não canta o amor
arma-o

longe das musas gregas
da epifania de Goethe
o poeta não está aqui
nestes versos
porque o poeta somos nós juntos
o poeta é o terceiro que falta:
aquele que lê por cima do ombro,
aquele que escuta atrás da porta,
aquele que o poema pressupõe
e que ainda não chegou, mas quer nos julgar

o poema é uma assembleia de três:
o que escreve, o que lê, o que é lido.
e o que é lido somos nós
e o que lê somos nós
e quem escreve somos nós
e nós somos o mundo
e o mundo, o poema

3

a forma do poema 
seu ritmo 
se dá em nossa respiração
às vezes ofegante
descompassada

sem rima
somos o encontro das mãos no fim de tarde
a metáfora pelo desejo de um filho que virá
o dia a dia
a entonação de nossas vozes
o tempo
o reencontro

— presente!
— presente!
em qualquer circunferência 
o poema se faz
— presente!

não se preocupe
cantaremos através do tempo que ainda não veio
mas que, em algum momento,
quando tudo parecer distante
difícil
virá

e perceberás
que poderás voltar a entoar a voz novamente
porque nunca houve distância

4

o poema não tem conteúdo separado da forma
conteúdo como forma de amar
escuta
desejo
compreensão
e a forma como conteúdo de lutar

não sabemos onde termina o poema
e onde começa a vida
porque o poema é a vida
porque a vida é o poema
porque amar é o ato
e o ato
 amar-poema
poema-amar
poema-mar
verbo conjunto
poemar

5

dentro do poema
habitam inúmeros ouvintes desconhecidos
não é o patrão
nem quem se julga dono
tampouco o juiz
nem o público que tenta interromper nossas vozes
nossos desejos

aquilo que ainda não conhecemos
mas que construíremos 
o que ainda não nasceu habita o poema
o povo que ainda não acordou habita o poema

o poema não se escreve sozinho
dialógico, fruto de nossas paixões
nos lemos, tornamo-nos ele
e ao tornarmo-nos ele, tornamo-nos muitos
e ao tornarmo-nos muitos, tornamo-nos invencíveis
extasiados

na sociedade capitalista
patriarcal
o patrão diz: — o amor é privado
o poema diz: — o amor é público
o patrão diz: — a poesia é inútil
o poema diz: — a poesia é uma arma
uma arma carregada de futuro

nos lemos e sabemos que o patrão mente
nos lemos e sabemos que o poema diz verdades
porque tornamo-lo verdadeiro
juntos

6

como o amor
o poema não se faz verdadeiro sozinho
precisamos nos reconhecer no poema
e sair às lutas de mãos dadas

a ironia capitalista nos promete “felizes para sempre”
e nos aprisiona

nos comovemos
porque sabemos que muitas vezes
a vida de antes não dá
e a palavra não basta
e queremos aquilo que ainda não se inventou
porque já não somos como antes

em desespero
buscamos o poema
a lírica nos olha
e sabemos que não estamos sós

a forma do poema é a forma da pergunta:

— quem constrói o amor? quem o habita?
— quem constrói o mundo? quem o transforma?
e nós respondemos com nossos corpos
porque nossos corpos são o poema
e nossa poesia, a resposta

7

recíprocos nos transformamos
e ao transformarmo-nos, transformamos

não nos falem de arte pura
e nem de amor puro
fruto das contradições
da água turva
de gente, de história, de suor
nos escrevemos 

e se um dia o poema for perfeito,
será porque nós já não precisaremos dele:
será porque o mundo já foi mudado
por dois que disseram: — te amo
e saíram para a rua de mãos dadas
sem julgamentos alheios

e a rua será o poema
e o poema a rua
e a rua o mundo
e o mundo nosso quintal


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