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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Teimosia dos cansados

 


1

perguntaram-me se estou cansado
claro que estou
com a voz rouca
de quem sente

mas meu cansaço não é covardia,
nem desistência 
apenas
a prova de que luto

perguntaram se estou desanimado

não
a segunda foi difícil 
mas o desânimo desaparece na terça
não é tempo de silenciar
não há tempo para silenciar
ao ver tanta injustiça 
violência repetida

o desânimo não me paralisa,
apenas me faz mais lúcido
para saber onde golpear a mentira

fiquei frustrado? 
como uma ferida aberta
encontrei o inferno na no início da noite 
espiando-me

mas como adubo
minha frustração se tornou raiva
onde cresceu o ódio-amor que me salva
e dá a poucos uma esperança mínima 

triste? quem não está?
a tristeza é a herança dos que amam
do povo que ainda sangra

mas não estou sozinho
de mãos dadas, não me rendo
ainda não chegou a era do luto necessário
lutemos pela alegria verdadeira
as mobilizações se avolumam

bravo? demais.

rio caudaloso
minha raiva corre 
e como chama aquece
serve aos que dormem na intempérie
me ilumina na noite escura da opressão

desistir?
jamais
nem quando a noite parecer eterna,
nem quando o medo sussurrar no ouvido

se morte, que valha a pena
que nos encontre de pé,
não abdiquemos de nosso direito à existência
o amor nos torna vivos 
temos o corpo pleno de desejos
tesão
e estamos bem com isso 
temos o punho erguido
e o coração cheio de esperança

2

o amor que sinto
não é um sentimento pequeno de posse,
mas força que me levanta da cama
mesmo quando tudo dói
e todas as palavras me são negadas

àqueles que cantam vitória 
enterrem meu corpo 
enterrem mil vezes o meu corpo
até que me desfaça na terra

sou desejo
e na terra
como semente
de minha metamorfose 
mil outros desejosos e desejosas brotarão 

para a  luta social
para a matéria
e tudo o que movimenta amor:
o grito que não se cala,
a mão pequena de uma criança 
a mata ciliar
a surpresa dos amantes 
o beijo lúdico na barriga da cadela golden
o cachorro a mais
a força revolucionária 
o porvir além do fetiche da mercadoria
a vida
a luta socialista

3

levanta
o capítulo definitivo não veio
vamos vencer
vamos juntos

a noite eterna ainda não veio
discursivos 
tentam nos impor rio sem margem
oceano de abismos

levanta
o silêncio 
a comida silenciosa
o pós-jantar silencioso da família de bem ainda não veio
não sejamos carcereiros de nossa própria solidão

porque a solidão imposta por eles vai além de um quarto vazio
a polícia secreta impõe a ausência do mundo
a delação da esposa pelo esposo
do filho pelo pai
do irmão contra o irmão 
como um deserto de espelhos quebrados,
em que a mentira se torna a lógica,
o absurdo se torna a ordem,
e a massa, com medo do abismo da verdade,
prefere a consistência do pesadelo
levanta

4

levanta porque eu te amo

levanta porque você gosta de amar

levanta porque precisamos nos amar

nada está perdido

levanta 


mentiram pra você

a infância não está perdida

lúdicos, ainda festejamos


mentiram pra você

a mocidade não está perdida

estamos mais vivos do que nunca

a vida não se perdeu


se primeiro amor passou

se o segundo amor passou

tens direito a um terceiro amor

tens direito a amar quantas vezes quiseres


levanta

o coração continua

estamos à sombra de um mundo errado

é verdade

como é verdade que não somos perfeitos


mas quem exige uma perfeição discursiva são eles

equânimes, nos aceitamos em nossas incoerências


não se preocupe se o teu protesto parece tímido

virão outros

tudo somado

vamos precipitá-los de vez nas águas


fiquemos nus na areia, no vento…

e eles não poderão fazer nada a respeito disso

lutemos por isso

levanta


…

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