Páginas

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Fé, espetáculo e poder: quando o corpo caminha para esconder o projeto


Projeto de poder


O Brasil não vive uma explosão espontânea de fé. Vive a consolidação de um projeto de poder que aprendeu a usar símbolos religiosos, mobilização emocional e espetáculo público como ferramentas políticas. A chamada Caminhada de Nikolas Ferreira, assim como os megaeventos de mobilização juvenil evangélica descritos no discurso recente que circula nas redes, não são fatos isolados. São peças do mesmo tabuleiro.


É um erro tratar esses movimentos como manifestações individuais de crença ou liberdade religiosa. O que se observa é método, escala, repetição e objetivo. Quando centenas de milhares de jovens são mobilizados simultaneamente por horas em estádios; quando parlamentares transformam o próprio corpo em performance política; quando a fé deixa de ser experiência íntima e passa a reger educação, política, trabalho e moral, não estamos mais falando de religião. Estamos falando de poder.


A caminhada de Nikolas não aconteceu no vazio. Ela surgiu em meio a denúncias, investigações e vínculos políticos que aproximam lideranças religiosas, operadores financeiros e mandatos parlamentares. Em vez de respostas, documentos ou debate público, opta-se pelo gesto simbólico. Caminhar vira discurso. O silêncio sobre os fatos vira virtude. Questionar vira ataque à fé.


Essa estratégia não é nova. Ela opera pela vitimização permanente: o líder se apresenta como perseguido, o grupo como ameaçado, a crítica como blasfêmia. O resultado é eficiente: desloca-se o debate racional para o terreno emocional, onde qualquer confronto é interpretado como intolerância ou ódio religioso.


O discurso religioso imposto por neopentecostais ligados à teologia do poder não é neutro e revela sem pudor o núcleo do projeto: não coexistir, mas substituir. Não dialogar, mas dominar. Professores, ciência, pensamento crítico, diversidade moral e autonomia intelectual passam a ser vistos como obstáculos. A educação vira campo de batalha porque é ali que se formam sujeitos capazes de comparar fontes, questionar dogmas e resistir a verdades absolutas.


Chamar o cristianismo de “estilo de vida” e não de religião, como fez Malafaia, recentemente, não é ingenuidade teológica. É engenharia política. Quando deixa de ser religião, sai do foro íntimo e se transforma em dogma de vida que coloniza tudo. Quando não sobra espaço fora da doutrina, não há liberdade real. Há submissão travestida de escolha.


É nesse ponto que a caminhada parlamentar, a mobilização juvenil em massa e a retórica de guerra cultural fazem parte de um mesmo movimento: ocupar o espaço simbólico antes de ocupar definitivamente o espaço político. Criar maioria moral para justificar exclusão social. Converter fé em blindagem. Emoção em método.


Quem ainda insiste em tratar isso como exagero, ruído ou mero conflito de valores ignora uma lição elementar da história: projetos que se apresentam como verdade absoluta não param por persuasão. Projetos teocráticos e fascistas avançam enquanto não encontram resistência.


Questionar isso não é atacar a fé de ninguém. É defender a possibilidade concreta de pensar, ensinar, amar, existir e discordar fora de qualquer doutrina imposta. Não se trata de radicalismo. Trata-se de democracia.


Enquanto alguns caminham para produzir imagens, o país precisa parar para fazer perguntas. Porque quando o espetáculo substitui o debate, quem anda não é a fé, mas o autoritarismo.

Nenhum comentário:

Fé, espetáculo e poder: quando o corpo caminha para esconder o projeto

Projeto de poder O Brasil não vive uma explosão espontânea de fé. Vive a consolidação de um projeto de poder que aprendeu a usar símbolos re...