| BERNI, António. Manifestación (1934) |
entre copos meio cheios de cuspe e cerveja,
o balcão de zinco guarda o mapa
daqueles que o mundo esqueceu de matar
mas na arpillera, eles são um mar de cabeças erguidas,
primeiros planos poderosos de uma greve que não cessa
alguém pergunta ao garçom a hora do apocalipse,
mas o rádio chia...
não, é o orador fora da tela,
bigodes e calvície avançada, bradando "abaixo a guerra!"
(foi na Argentina
mas poderiam ser operários bradando
"abaixo o genocídio do povo palestino!"
em uma greve geral na Itália)
há rostos pensativos de olhar perdido
melancolia
e há os que expressam rebeldia
a raiva dos anos de entreguerras
dois sentimentos que habitam o mesmo operário em luta.
o mais velho
o que já viu vinte ditaduras
morrerem de indigestão nos mesmos jornais
bate o copo de vidro contra a madeira gasta
e, com a mirada perdida no alto, profetiza:
"O inimigo não tem a cara que nos vendem,
a luta não é essa farsa de cartolina.
A luta é abrir a boca e gritar nosso nome
quando eles decretam o nosso silêncio perpétuo."
e a multidão em manifestação ecoa
carne e têmpera,
pintura mural transportável
que circula por fábricas e sindicatos
ativando a esperança
onde ela parece morta
no canto do quadro
o fumo é um lençol cinzento
onde a esperança fuma seu último cigarro
...
mas ela não se apaga na fumaça da Refinaria:
espalha-se na coluna oblíqua de cabeças humanas,
melancólicas e furiosas
unidas pelo mesmo motim.
fazer o impossível acontecer
sem precisar tocar as estrelas com a ponta dos dedos
sem a pura especulação sobre formas e materiais
e sentar-se nesta mesa de botequim
dividir o pão duro com os fantasmas
reconhecer-se naquela massa heterogênea
que ouve, resiste, e avança
e, mesmo com o carrasco a postos,
rir bem alto na cara dele,
como quem carrega um mural de 1,80 metros por 2,5
sobre os ombros
pronto para a próxima batalha.
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