(ou poema de duas formas)
| Jogos de terra. Flor Garduño |
1
entro
quando a água
já desaprendeu
a separar
céu e terra
não sei
se caminho
sobre a praia
ou sobre
uma lembrança
que ainda respira
as traves
continuam ali
quatro linhas de madeira
erguidas
contra o esquecimento
não, poeta
as traves
não esperam
o jogo
as traves
esperam
o tempo
2
a água
sabe
sem apagar
a água recua
sem devolver
muda
o lugar
onde as coisas
continuam existindo
3
olho a água
e descubro
que o vazio
não está vazio
recolho o silêncio aquático
o silêncio
como uma rede
recolhe a luz
e aprendo
a enxergar
a maré
afasta-me lentamente
do espelho
o espelho…
e o chão reaparece
com ele
a infância
não a minha
toda infância
principalmente as perdidas
as infâncias esquecidas
crianças
erguem um campo
com aquilo
que o mundo
abandonou:
dois pneus
uma rede
um pedaço de horizonte
e auto-suficientes
fundam
fundamentam um universo
perdidos
corrompidos
permanecemos
à margem
distantes…
4
existo em jogos
aos quais
só se assisto
em silêncio
as crianças
correm
e os pneus
deixam de ser borracha
e a rede
esquece os peixes
e a praia
abandona
a condição
de praia
continuam ali
quatro linhas de madeira
erguidas
contra o esquecimento
não, poeta
as traves
não esperam
o jogo
as traves
esperam
o tempo
2
a água
sabe
sem apagar
a água recua
sem devolver
muda
o lugar
onde as coisas
continuam existindo
3
olho a água
e descubro
que o vazio
não está vazio
recolho o silêncio aquático
o silêncio
como uma rede
recolhe a luz
e aprendo
a enxergar
a maré
afasta-me lentamente
do espelho
o espelho…
e o chão reaparece
com ele
a infância
não a minha
toda infância
principalmente as perdidas
as infâncias esquecidas
crianças
erguem um campo
com aquilo
que o mundo
abandonou:
dois pneus
uma rede
um pedaço de horizonte
e auto-suficientes
fundam
fundamentam um universo
perdidos
corrompidos
permanecemos
à margem
distantes…
4
existo em jogos
aos quais
só se assisto
em silêncio
as crianças
correm
e os pneus
deixam de ser borracha
e a rede
esquece os peixes
e a praia
abandona
a condição
de praia
como um olhar de amor
tudo muda
de nome
sem dizer
uma palavra
como um olhar de amor
5
venho passando
a vida inteira
tentando construir
alguma coisa
com aquilo
que o tempo
deixou para trás
minhas traves
me reconhecem
continuam de pé
mesmo quando
já não existe
campo
mesmo quando acho que não existe tempo
mesmo quando
o mar
decide jogar
outra partida
volto
antes que a água
retorne
6
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