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sábado, 4 de julho de 2026

Jogos de terra

                                                                                                 (ou poema de duas formas)


Jogos de terra. Flor Garduño

1

entro
quando a água
já desaprendeu
a separar
céu e terra


não sei
se caminho
sobre a praia
ou sobre
uma lembrança
que ainda respira

as traves
continuam ali
quatro linhas de madeira
erguidas
contra o esquecimento

não, poeta
as traves
não esperam
o jogo

as traves
esperam
                                                o tempo

2

a água
sabe
sem apagar

a água recua
sem devolver
                                   muda
o lugar
onde as coisas
continuam existindo

3

olho a água 
e descubro
que                             o vazio
não está vazio

recolho o silêncio aquático 
                                                o silêncio
como uma rede
recolhe a luz
e aprendo
a enxergar

                                        a maré
afasta-me lentamente
do espelho

o espelho…
e o chão reaparece

com ele
a infância
não a minha
toda infância
principalmente as perdidas
as infâncias esquecidas 

crianças
erguem um campo
com aquilo
que o mundo
abandonou:
dois pneus
uma rede
um pedaço de horizonte

e auto-suficientes
fundam
fundamentam um universo

perdidos
corrompidos
permanecemos
à margem

distantes…

4

existo em jogos
aos quais
só se assisto
em silêncio

as crianças
correm

e os pneus
deixam de ser borracha

e a rede
esquece os peixes

e a praia
abandona
a condição
de praia

como um olhar de amor
tudo muda
de nome
sem dizer
uma palavra
como um olhar de amor

5

venho passando
a vida inteira
tentando construir
alguma coisa
com aquilo
que o tempo
deixou para trás

minhas traves
me reconhecem
continuam de pé
mesmo quando
já não existe
campo
mesmo quando acho que não existe tempo

mesmo quando
                        o mar
decide jogar
    outra partida

volto
antes que a água
retorne

6

levo comigo
a estranha certeza
de que existem lugares
que não permanecem
porque resistem

permanecem
porque aceitam
desaparecer
sempre que o mundo
precisa
aprender de novo
a inventar

o que ama

Jogos de terra. Flor Garduño


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