| Tabela fornecida pelo SAERP sobre os contratos firmados |
Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram evolução na redução de perdas, mas revelam um sistema de abastecimento vulnerável a interrupções elétricas e equipamentos sucateados. Investimentos previstos em 2025 foram executados em apenas 48,7%
A gestão do sistema de abastecimento de água de Ribeirão Preto apresenta avanços significativos na redução de perdas, mas ainda enfrenta gargalos críticos relacionados à falta de energia elétrica e à manutenção de equipamentos. É o que revela uma análise detalhual dos dados enviados pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAERP) em resposta a um pedido de informação com base na Lei de Acesso (Lei nº 12.527/2011).
O pedido, respondido oficialmente em março de 2026 pelo Subsecretário Técnico da pasta, Igor de Jucena Marques, incluiu planilhas com dados de 2023, 2024 e previsões para 2025. Embora a autarquia destaque a melhora dos índices de perdas, o levantamento aponta um sistema operacional frágil, com centenas de paralisações anuais e uma execução orçamentária aquém do previsto para a modernização.
Comparativo dos principais indicadores (2023–2025)
Para uma visão consolidada da evolução do sistema, a tabela abaixo reúne os principais números que mostram tanto os avanços na eficiência quanto os desafios operacionais enfrentados nos últimos três anos.
| Indicador | 2023 | 2024 | 2025 (Previsão/Realizado) | Variação (2023 → 2025) |
|---|---|---|---|---|
| Índice de Perdas na Distribuição (%) | 61,48% | 23,06% | 15,89% | -45,59 p.p. |
| Índice de Perdas por Ligação (l/dia/lig.) | 1.358,25 | 293,12 | 191,43 | -86,0% |
| Índice de Faturamento (%) | 33,49% | 63,01% | 76,47% | +42,98 p.p. |
| Volume Produzido (m³/ano) | 129,4 milhões | 134,0 milhões | 132,6 milhões | +2,5% |
| Volume Faturado (m³/ano) | 68,3 milhões | 67,6 milhões | 67,3 milhões | -1,5% |
| Volume de Perdas (m³/ano) | 53,9 milhões | 49,3 milhões | 48,4 milhões | -10,2% |
| Paralisações (total) | 350 | 482 | 414 | +18,3% |
| Tempo Médio de Interrupção (h/ano) | 1.400 | 930 | 1.656 | +18,3% |
| Interrupções Sistemáticas | 50 | 31 | 70 | +40,0% |
| Tempo Médio – Interrupções Sistemáticas (h/ano) | 600 | 1.260 | 840 | +40,0% |
| Execução Orçamentária Total (%) | 62,4% | 99,99% | 48,68%* | -13,7 p.p.* |
| Investimento em Redução de Perdas (R$) | 1,05 milhão | 38,34 milhões | 11,48 milhões* | +993% (2023→2024) |
| Contratos Vigentes (valor total) | — | — | R$ 111,9 milhões | — |
*Os valores de 2025 referem-se ao realizado até o momento da resposta (março de 2026) em comparação ao previsto no orçamento anual.
A tabela evidencia que, embora o índice de perdas na distribuição tenha caído expressivamente de 61,48% em 2023 para 15,89% em 2025 o sistema segue enfrentando dificuldades na continuidade do serviço. O número de paralisações cresceu 18,3% no período, e o tempo médio de interrupção disparou para 1.656 horas por ano em 2025, revertendo a melhora observada em 2024.
Redução histórica de perdas, mas com desafios
O principal indicador de eficiência do sistema, o Índice de Perdas na Distribuição, caiu drasticamente nos últimos três anos. Em 2023, o índice era de 61,48%, ou seja, mais da metade da água produzida era perdida antes de chegar aos consumidores. Em 2024, o percentual caiu para 23,06%, e a previsão para 2025 é de uma redução ainda maior, chegando a 15,89%.
A melhora é ainda mais expressiva no indicador de perdas por ligação, que caiu de 1.358 litros/dia em 2023 para apenas 191 litros/dia em 2025.
"Os dados refletem o esforço concentrado no combate às perdas, especialmente reais, com a modernização da rede e controle de pressão", justificou a autarquia nos documentos, citando a metodologia do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento) como base para os cálculos
Apesar da evolução, o volume de água perdida em 2025 ainda é expressivo. A previsão é que, dos 132,6 milhões de m³ produzidos, cerca de 48,4 milhões de m³ sejam desperdiçados, enquanto o volume faturado deve ficar em 67,2 milhões de m³.
Apagões e bombas: as interrupções de 2025
Se a gestão das perdas apresentou melhoras, a estabilidade operacional do sistema preocupa. O ano de 2025 foi marcado por um alto número de interrupções no abastecimento, com 414 paralisações registradas até o momento. O tempo médio de duração dessas interrupções foi de 1.656 horas por ano, equivalente a cerca de 69 dias sem água considerando o somatório de todas as paradas.
A análise detalhada da planilha “Interrupções 2025”, fornecida pelo SAERP, aponta dois vilões principais:
- Substituição de bombas submersas: Foram 73 ocorrências ao longo do ano, espalhadas por diversos bairros e poços, como Jardim Recreio, Bonfim Paulista, Quinta do Golfe e CDHU. A constante troca desse equipamento indica um ciclo de manutenção corretiva intensa.
- Falta de energia elétrica: Foi a causa de mais de 200 interrupções, revelando uma forte dependência de um sistema elétrico instável. Inúmeras paralisações foram registradas com os números de ocorrência da concessionária (CPFL), afetando unidades estratégicas como os poços do Jardim Botânico, Santa Martha e Pompolo Antena.
As interrupções sistemáticas, embora em menor número (70 em 2025), tiveram um tempo médio de duração elevado (840 horas/ano), sugerindo problemas recorrentes e de difícil solução em pontos específicos da rede.
Execução orçamentária fica aquém do planejado
Outro ponto de atenção revelado pelos documentos é a execução dos investimentos. Embora tenha havido um grande volume de recursos previstos para 2025, o realizado ficou aquém.
No consolidado geral, a autarquia previu um orçamento de R$ 384,1 milhões para 2025, mas executou apenas R$ 187 milhões até o momento, um percentual de 48,68%. A situação é ainda mais crítica em itens específicos:
- Controle e Redução de Perdas (CT 520.525-58): Previsto R$ 65,08 milhões, realizado R$ 11,48 milhões (apenas 17,6%).
- Substituição de Redes: Embora a planilha de "Previsto-realizado 2023-2024" aponte uma previsão de R$ 15 milhões para substituição de 150 km de redes antigas (via CAF), o valor realizado em 2023 e 2024 foi zero. Em 2025, não há registro de execução nessa rubrica específica.
- Serviços de Terceiros (Manutenção em Poços, etc.): Foram executados menos de 10% do previsto para o ano.
Por outro lado, houve superexecução em rubricas como Recapeamento Asfáltico/Reposição de Calçadas (101,6% do previsto) e Monitoramento de Áreas Operacionais (197,8%), indicando que as prioridades de execução não necessariamente acompanharam o planejamento inicial.
Contratos de alto valor expõem desafios estruturais
A análise dos contratos terceirizados vigentes mostra o porte dos investimentos planejados. Destacam-se:
- Implantação de 6 reservatórios: Contrato de R$ 29,6 milhões com a SM7 Engenharia, cujo prazo já foi prorrogado.
- Perfuração de poços: Contrato de R$ 19,6 milhões com a Uniper Hidrologia para perfuração de poços profundos.
- Estudo do Aquífero Guarani: Contrato de R$ 2,1 milhões com a Tritium Geologia, com vigência até abril de 2026, visando estudar a capacidade máxima de exploração do aquífero.
Esses contratos, muitos com vigência estendida, indicam a complexidade das obras de infraestrutura e os atrasos recorrentes nos cronogramas, o que impacta diretamente a capacidade da autarquia de executar o orçamento e entregar as melhorias para a população.
Nota do SAERP
Em sua resposta oficial, a autarquia limitou-se a informar que as informações foram "devidamente compiladas e organizadas" e disponibilizadas em formato aberto, conforme a lei. O Subsecretário Igor de Jucena Marques colocou-se à disposição para esclarecimentos adicionais, mas não comentou os resultados específicos.
Esta matéria foi produzida com base em dados oficiais obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, protocolo nº 4327, abrangendo os períodos de 2023, 2024 e 2025 (até a data de envio).
Veja os documentos
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