1
o homem da cabana de fibra
vive na margem do mapa,
entre olhos secos pela luz de LED,
com as mãos desacostumadas à escrita
e o polegar que não larga feed
feed conservador, antifeminista,
rústico e esquivo
porque o algoritmo aprendeu a desconfiar
não sorri por gentileza: economiza calor
para o inverno nos dedos, onde desliza o feed
na vizinhança, eco ralo, like, share,
like share silêncio...
madrugadas e vida dupla
convive com sombras pixeladas,
amigos de fibra ótica que nunca trouxeram pão
e vê o mundo por retângulos: revolta em 280 caracteres,
memes como bandeiras, raiva em alta definição
red pill
sua cabana tem wi‑fi
e reconta a si mesmo histórias antigas,
história de montanhas e antigos legendários
mescladas a notificações que tocam como sinos de mercado
2
o homem da cabana de fibra
sabe de desfiles e motins pela tela,
tem opinião pronta como pedra de moinho,
mas não sabe o nome do menino que pediu água
teve raiva do menino que pediu água
na tarde que passou em frente à sua porta
porque passou em frente à sua porta naquela tarde
se o mundo real late, vai embora e responde
com reposts e discursos prontos,
contrarrevolução em pausa
sem poesia, aldeão em quarto fechado, espectador
coleciona indignações digitais como quem junta fósseis
diz em rede que iniciará o seu processo de áudio livros...
quando a noite acende seu fogo real,
o homem desliga a luz,
anti- heroico
os olhos doem de tanta claridade falsa
entre o cheiro do limpa telas e o brilho residual,
pensa ser fácil derrubar impérios com um teclado
e construir uma casa que não caiba num perfil...
3
a salvação já não pode ser simples: levantar da cadeira,
ir até a porta, abrir o mundo em duas mãos sujas
e aprender de novo o som dos nomes das coisas.
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