Páginas

terça-feira, 5 de maio de 2026

O adoecimento que o poder público não quer ver: servidores de Ribeirão Preto acumulam 182 mil afastamentos em cinco anos

Dados obtidos via Leia de Acesso à Informação

Mulheres são afastadas 3,7 vezes mais que homens, e servidores de 41 a 50 anos lideram licenças; gestão admite não ter programa de reabilitação profissional nem convênios para atendimento psicossocial

Enquanto o discurso oficial foca em “coibir o uso indevido de atestados”, os números obtidos pelo Blog O Calçadão por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) revelam uma realidade muito mais grave e estrutural: o servidor público municipal de Ribeirão Preto adoece em escala crescente, e a própria administração não dispõe de políticas básicas para prevenir, acolher ou reabilitar esses trabalhadores, especialmente as mulheres e os trabalhadores de meia-idade, que são os mais afetados. 

Os documentos, obtidos sob o processo PMRP 2026/058139 e assinados digitalmente pela gerente de Medicina e Segurança do Trabalho, Flávia Araújo Guedes, entre 28 e 30 de abril de 2026, escancaram um quadro preocupante. Entre janeiro de 2021 e março de 2026, foram registrados 182.009 afastamentos por motivo de saúde, envolvendo 12.269 servidores, um contingente que, sozinho, equivale a mais de um terço do funcionalismo municipal efetivo, considerando que a cidade tem cerca de 32 mil servidores ativos.

O crescimento dos afastamentos é constante. Em 2021, foram 18.805 registros. Em 2024, o número saltou para 42.190, um aumento de 124% em apenas três anos.

A máquina de adoecer: o que revelam os números

Os dados fornecidos pela Prefeitura permitem uma radiografia detalhada do adoecimento dos servidores municipais. A tabela abaixo, transcrita dos documentos oficiais, mostra a evolução mensal dos afastamentos entre janeiro de 2024 e março de 2026, período mais detalhado disponível.


Mês/Ano Quantidade de Servidores Afastados
jan/241.112
fev/242.242
mar/242.603
abr/242.942
mai/242.914
jun/242.737
jul/242.095
ago/242.700
set/242.730
out/242.425
nov/242.251
dez/241.642
jan/251.050
fev/252.086
mar/252.294
abr/252.326
mai/252.514
jun/252.327
jul/251.915
ago/252.558
set/252.704
out/252.788
nov/252.497
dez/251.949
jan/261.106
fev/261.914
mar/262.783
Somatória61.211

Fonte: Resposta ao e-SIC nº 4375, Tabela 1 (período de 01/01/2024 a 31/03/2026). O mês de abril de 2026 não foi incluído pois os dados ainda se encontravam em processamento, conforme informado no próprio documento.

Os números mostram um padrão de adoecimento que não respeita sazonalidade nem trégua. Em todos os meses, com exceção de janeiro e dezembro (períodos de férias coletivas em muitas pastas), o número de servidores afastados supera a casa dos dois mil. Em abril de 2024, chegou a 2.942.

Quem adoece: o perfil do servidor afastado

Os documentos também discriminam os afastamentos por natureza do vínculo. A tabela abaixo consolida os totais do período:

Vínculo Quantidade
Comissionado153
Efetivo / Estágio Probatório53.102
Reg. Adm - Temporário7.978
Total61.211

Fonte: Resposta ao e-SIC nº 4375, Tabela 1.

Os servidores efetivos (concursados) respondem por 86,7% dos afastamentos. Os temporários, por sua vez, representam 13%.

Mulheres são afastadas 3,7 vezes mais que homens

Os dados discriminam os afastamentos por sexo. 

Sexo Quantidade de servidores afastados (jan/2024 a mar/2026)
Feminino48.321
Masculino12.890

Fonte: Resposta ao e-SIC nº 4375, Tabela 1.

As mulheres servidoras são afastadas 3,7 vezes mais que os homens. Esse dado, por si só, já indicaria a necessidade de políticas específicas de saúde da mulher trabalhadora, algo que não consta das respostas oficiais. A disparidade pode ser explicada por múltiplos fatores estruturais: a dupla ou tripla jornada (trabalho fora + cuidados domésticos e familiares), a maior exposição a transtornos mentais (as mulheres respondem por quase 70% dos afastamentos por essa causa), a precarização de ocupações feminizadas (professoras, auxiliares de enfermagem, agentes de saúde) e a ausência de políticas de prevenção direcionadas.

Servidores de 41 a 50 anos lideram os afastamentos

A mesma tabela discrimina os afastamentos por faixa etária:

Faixa etária Quantidade de servidores afastados (jan/2024 a mar/2026)
Até 30 anos1.825
De 31 a 40 anos15.131
De 41 a 50 anos22.310
De 51 a 60 anos14.775
Acima de 60 anos7.170

Fonte: Resposta ao e-SIC nº 4375, Tabela 1.

A faixa etária mais afetada é a de 41 a 50 anos (22.310 servidores), seguida pela de 51 a 60 anos (14.775). São trabalhadores no meio de suas carreiras, frequentemente sobrecarregados, que acumulam funções e lidam com o desgaste físico e mental de décadas de serviço público precarizado. A faixa de 31 a 40 anos também é expressiva (15.131), indicando que o adoecimento não é um fenômeno tardio, ele começa cedo e se agrava com o tempo.

Chama a atenção, ainda, o número de servidores acima de 60 anos afastados (7.170). Muitos já poderiam estar aposentados, mas seguem trabalhando, seja por necessidade financeira, seja por falta de reposição de quadros, e pagam o preço com a própria saúde.

Os números indicam que o adoecimento no serviço público municipal não é aleatório. Ele atinge preferencialmente quem está há mais tempo no trabalho (41 a 60 anos) e quem já carrega a sobrecarga adicional do trabalho doméstico e de cuidado não remunerado (as mulheres). Ignorar esses recortes é, na prática, naturalizar a desigualdade.

As doenças que mais afastam: osteomusculares, respiratórias e mentais

A resposta  trouxe a consolidação das causas de afastamento por classe da Classificação Internacional de Doenças (CID). Os números totais para o período de 2021 a março de 2026 são:

Classe CID Descrição Quantidade
ZFatores que influenciam o estado de saúde e contato com serviços de saúde24.884
MDoenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo18.286
JDoenças do aparelho respiratório16.290
FTranstornos mentais e comportamentais10.925
AAlgumas doenças infecciosas e parasitárias9.583
KDoenças do aparelho digestivo8.366
RSintomas, sinais e achados anormais7.647
-Registros sem CID informado48.818

Fonte: Resposta ao e-SIC nº 4383.

Chama a atenção o contingente de afastamentos sem registro de diagnóstico: 48.818 ocorrências, mais de um quarto do total. O quadro revela uma fragilidade no próprio sistema de registro da Prefeitura, ou uma omissão que impede a identificação precisa das causas reais do adoecimento.

Entre os diagnósticos informados, três grupos se destacam:

  • Doenças osteomusculares (18.286) – LER/DORT, dores nas costas, problemas nos membros superiores. São doenças diretamente relacionadas às condições de trabalho: repetição, esforço físico, mobiliário inadequado, falta de ginástica laboral ou pausas.
  • Doenças respiratórias (16.290) – gripes, pneumonias, bronquites. Em parte, fruto da exposição a ambientes fechados, falta de ventilação e, no caso de servidores da linha de frente, contato com o público doente.
  • Transtornos mentais e comportamentais (10.925) – depressão, ansiedade, burnout, estresse pós-traumático. São doenças que têm aumentado vertiginosamente no serviço público em todo o país, resultado de sobrecarga, assédio moral, metas inalcançáveis e ausência de acolhimento institucional.

A epidemia silenciosa dos transtornos mentais

Os documentos detalham exclusivamente os afastamentos por transtornos mentais (Capítulo V da CID-10). Os números mostram uma progressão preocupante:

Mês/Ano Quantidade de servidores afastados por transtornos mentais
jan/24116
fev/24187
mar/24230
abr/24279
mai/24257
jun/24265
jul/24244
ago/24310
set/24292
out/24305
nov/24258
dez/24189
jan/25123
fev/25202
mar/25247
abr/25265
mai/25248
jun/25230
jul/25229
ago/25287
set/25296
out/25366
nov/25282
dez/25220
jan/26141
fev/26232
mar/26293
Total6.644

Fonte: Resposta ao e-SIC nº 4376, Tabela 1.

Apenas entre janeiro de 2024 e março de 2026, 6.644 servidores se afastaram por transtornos mentais. A Secretaria de Educação lidera isoladamente esse ranking, seguida pela Saúde. Em outubro de 2025, o pico foi de 366 afastamentos em um único mês.

A duração dos afastamentos: quando o problema se cronifica

Outro dado é o tempo de duração dos afastamentos. A resposta apresenta a seguinte distribuição para o período de janeiro de 2024 a março de 2026:


Tempo de afastamento Quantidade de licenças
Até 15 dias56.380
De 16 a 30 dias2.175
De 31 a 90 dias3.309
De 91 a 180 dias788
Acima de 180 dias45
Total geral61.211

Fonte: Resposta ao e-SIC nº 4378, Tabela 1.

A grande maioria dos afastamentos (92%) dura até 15 dias. No entanto, os afastamentos de longa duração, aqueles que superam 30 dias somam mais de 4 mil ocorrências. São servidores que ficam fora do trabalho por meses, com impacto direto na prestação dos serviços públicos e na sobrecarga dos colegas que permanecem.

Por vínculo, os servidores efetivos são os que mais sofrem com afastamentos prolongados:

Tempo de afastamento Efetivo/Probatório
De 31 a 90 dias1.345
De 91 a 180 dias245
Acima de 180 dias38

Fonte: Resposta ao e-SIC nº 4378, Tabela 2.

Dos 38 afastamentos acima de 180 dias, todos são de efetivos. Isso mostra que o concurso público, ao contrário do que diz o senso comum, não é sinônimo de estabilidade tranquila. Muitas vezes, a garantia de um vínculo que se mantém mesmo quando o trabalhador já não tem condições plenas de exercer sua função, por absoluta falta de políticas de prevenção e reabilitação.

A Prefeitura não tem programa de reabilitação profissional

A resposta revela a fragilidade estrutural da política de saúde ocupacional do município. Em relação ao programa de reabilitação profissional ou retorno ao trabalho após afastamento prolongado, o documento afirma, textualmente:

“Embora não haja, até o momento, informação de programa formal autônomo denominado ‘Reabilitação Profissional’, existem ações administrativas e médico-ocupacionais voltadas ao retorno seguro ao trabalho”

Na prática, a Prefeitura admite a inexistência de uma política estruturada para reinserir o servidor que adoece e se afasta. As “ações” mencionadas são genéricas: avaliação médico-pericial, análise da capacidade laborativa e comunicação com as unidades de lotação, ou seja, o básico do básico.

O próprio documento reconhece a insuficiência ao afirmar que essas ações “tendem a ser fortalecidas” com a consolidação do PCMSO (Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional). Mas, como a própria resposta indica, o PCMSO começou apenas em abril de 2026, com atendimento inicial em apenas 6 secretarias, ou seja, a grande maioria dos servidores segue sem qualquer acompanhamento ocupacional sistemático.

Sem convênios para atendimento psicossocial

A mesma resposta é taxativa quanto à inexistência de políticas específicas para saúde mental:

“Até o presente momento, não há informação formalizada nesta unidade acerca de convênios ou parcerias específicas destinadas exclusivamente ao atendimento psicossocial dos servidores municipais.”

O documento informa que os casos identificados “podem ser orientados e encaminhados conforme a necessidade” para a rede pública de saúde e assistência. Ou seja: o servidor com depressão, ansiedade ou burnout é tratado como um cidadão comum, sem qualquer prioridade ou protocolo específico, o que ignora que seu adoecimento está diretamente relacionado ao ambiente de trabalho.

Acidente de trabalho: a ponta do iceberg subnotificada

O documento diferencia os afastamentos por licença médica comum daqueles decorrentes de acidente de trabalho. No período analisado (janeiro de 2024 a março de 2026):

Natureza do afastamento Quantidade
Licença médica (exceto acidente de trabalho)60.765
Acidente de trabalho606

Fonte: Resposta ao e-SIC nº 4379, Tabela 1.

Os 606 acidentes de trabalho registrados podem parecer pequenos diante do total de afastamentos. Mas há razões para subnotificação: muitos acidentes são classificados como doença comum para evitar a burocracia; outros, simplesmente, não são comunicados à Previdência.
As secretarias com maior incidência de acidentes de trabalho são a Educação (309), a Saúde (199) e a Sec. de Água e Esgoto (66). Curiosamente, a Secretaria de Infraestrutura e Zeladoria, que abriga os trabalhadores da coleta de lixo, capinação e varrição (os mais expostos a acidentes) aparece com apenas 4 registros. Ou há subnotificação, ou a terceirização desses serviços (que a Gerência afirma não acompanhar) retirou esses trabalhadores da base de dados.

Serviço de perícia próprio e 28,3 mil atendimentos

A resposta informa que o município possui serviço próprio de perícia médica, realizado pela Junta Médica/Perícia Médica Oficial. No período compreendido entre janeiro de 2024 e abril de 2026, foram realizados 28.359 atendimentos periciais.

O número mostra a sobrecarga do sistema de perícia e, indiretamente, a magnitude do adoecimento que precisa ser avaliado para fins de concessão de licença, readaptação ou aposentadoria por invalidez.

Os números que ainda não vieram

Um dos pedidos formulados pelo Blog O Calçadão ainda não foi atendido. Com fundamento no art. 5º, inciso XXXIII, da Constituição Federal, e na Lei nº 12.527/2011, foi solicitado, para o período de 1º de janeiro de 2024 a 30 de abril de 2026, o valor total gasto pelo município com:

a) Salários de servidores afastados (período em que permaneceram afastados);
b) Contratações temporárias para substituição de servidores afastados;
c) Indenizações ou benefícios previdenciários decorrentes de afastamentos.

O pedido, que permitiria dimensionar o impacto financeiro do adoecimento nos cofres públicos, ainda não foi respondido pela administração municipal. A expectativa é que os dados sejam fornecidos nos próximos dias, e os valores serão incorporados a esta reportagem em atualização.

A ausência que revela o problema

Os documentos obtidos pelo Blog O Calçadão via Lei de Acesso à Informação comprovam o que os trabalhadores já sabem na pele: a Prefeitura de Ribeirão Preto não tem uma política estruturada de saúde ocupacional. O PCMSO começou tardiamente (apenas em abril de 2026) e com cobertura restrita. Não há programa de reabilitação profissional. Não há convênios para atendimento psicossocial. Os acidentes de trabalho são subnotificados. E os registros de diagnóstico são incompletos, com 48.818 ocorrências sem CID informado.

O quadro que emerge é o de uma administração que trata o adoecimento como um problema individual a ser “coibido” e investigado, como preconiza o discurso do prefeito Ricardo Silva , e não como uma questão estrutural, derivada da precarização do trabalho, da sobrecarga de funções, da falta de equipamentos adequados, do assédio moral institucionalizado e da absoluta ausência de políticas preventivas.

Enquanto isso, os números seguem sua trajetória ascendente. Em março de 2026, foram 2.783 servidores afastados, o maior número da série histórica para um mês de março. E o ano ainda não acabou.

Fontes

Informações da Gerência de Medicina e Segurança do Trabalho da Prefeitura de Ribeirão Preto, obtidas via Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011) sob o processo PMRP 2026/058139, em respostas assinadas digitalmente entre 28 e 30 de abril de 2026.


Nenhum comentário:

O adoecimento que o poder público não quer ver: servidores de Ribeirão Preto acumulam 182 mil afastamentos em cinco anos

Dados obtidos via Leia de Acesso à Informação Mulheres são afastadas 3,7 vezes mais que homens, e servidores de 41 a 50 anos lideram licen...