| Árvores. Filipe Augusto Peres |
1
as árvores
não interrompem
a paisagem
as árvores são
e a paisagem
aprende
a nos respirar
como se o rosto
encontrasse no peito
o mesmo repouso
com que a manhã
se demora nas folhas
as árvores
não caminham
as árvores
esperam
e anunciam
as estações
e erguem
a sombra
sombras que não pesam
em nossos ombros,
como quem oferece
um lugar
ao silêncio,
como um ombro
que não pergunta,
apenas acolhe
e diz:
“vem,
encosta tua cabeça
como o pássaro
que escolhe
o galho
não por ser o mais alto,
mas por reconhecer
nele
o descanso”
2
acima
o céu
não conhece
repouso
e as nuvens
ensaiam
formas
que desistem
de si mesmas
antes de serem
memória
e o vento
reescreve
o que a luz acabou
de dizer
3
as árvores
não discutem
com o tempo
amorais
sabem
que toda permanência
se faz
de pequenas mudanças,
pequenos atos
de coragem
invisíveis,
enquanto o céu
experimenta
o instante
talvez amar
seja isto:
mudar sem deixar
de reconhecer
a mesma mão
quando ela procura
a nossa
4
as árvores cultivam
a duração
o diálogo
que ninguém
ouve
ou vê
subterrânea,
a raiz
fala
com a terra
entrelaça as mãos
com outra raiz
como quem descobre
que permanecer
também é
confiar
dando a mão
não para conduzir
mas para que se aprenda
lado a lado,
o caminho
que nenhuma raiz
faz sozinha
5
as folhas
respondem
ao vento
traduzindo,
no tronco,
o idioma
das horas
nenhuma árvore
pretende
ser maior
que a outra
crescem
partilhando
a mesma luz
dividindo
o mesmo vento
sem disputar
o lugar
do horizonte
assim se deveria desejar
o amor:
que nenhum de nós
seja sombra
sobre o outro
mas ambos
abrigo
que as vozes
não sumam
na outra
mas como a sombra com contra o sol,
sem anulação
fale
a floresta
6
no corpo
quando juntas
as árvores
fazem
da sombra
uma única
respiração
como dois corpos amantes
esquecendo
onde termina
a pele
e começa
o mundo
7
talvez o mundo
não seja
este movimento imponente
das nuvens
talvez
seja
o escuro
que permanece
sob elas
o mistério
guardando o tempo
como quem
nunca precisou
contá-lo
porque
às vezes
a luz
não revela
às vezes
a sombra
do não dito
ensina o olhar
a permanecer
como as árvores
amando sem partir
sustentando o céu sem Atlas
sem castigo ou peso do mundo
sem nunca
lhe pedir
que desça
mundo mundo vasto mundo
mais vasto
são os corações
de árvores!
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