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domingo, 5 de julho de 2026

As árvores sustentam o céu

 

Árvores. Filipe Augusto Peres

1


as árvores

não interrompem

a paisagem

as árvores são


e a paisagem

aprende

a nos respirar

como se o rosto

encontrasse no peito

o mesmo repouso

com que a manhã

se demora nas folhas


as árvores

não caminham

as árvores

esperam

e anunciam

as estações


e erguem

a sombra

sombras que não pesam

em nossos ombros,

como quem oferece

um lugar

ao silêncio,


como um ombro

que não pergunta,

apenas acolhe

e diz:

“vem,

encosta tua cabeça

como o pássaro

que escolhe

o galho

não por ser o mais alto,

mas por reconhecer

nele

o descanso”


2


acima

o céu

não conhece

repouso


e as nuvens

ensaiam

formas

que desistem

de si mesmas

antes de serem

memória


e o vento

reescreve

o que a luz acabou

de dizer


3


as árvores

não discutem

com o tempo

amorais

sabem

que toda permanência

se faz

de pequenas mudanças,

pequenos atos

de coragem

invisíveis,

enquanto o céu

experimenta

o instante


talvez amar

seja isto:

mudar sem deixar

de reconhecer

a mesma mão

quando ela procura

a nossa


4


as árvores cultivam

a duração

o diálogo

que ninguém

ouve

ou vê


subterrânea,

a raiz

fala

com a terra

entrelaça as mãos

com outra raiz

como quem descobre

que permanecer

também é

confiar


dando a mão

não para conduzir

mas para que se aprenda

lado a lado,

o caminho

que nenhuma raiz

faz sozinha


5


as folhas

respondem

ao vento

traduzindo,

no tronco,

o idioma

das horas


nenhuma árvore

pretende

ser maior

que a outra


crescem

partilhando

a mesma luz

dividindo

o mesmo vento

sem disputar

o lugar

do horizonte


assim se deveria desejar

o amor:

que nenhum de nós

seja sombra

sobre o outro

mas ambos

abrigo


que as vozes

não sumam

na outra

mas como a sombra com contra o sol,


sem anulação 

fale

a floresta


6


no corpo 

quando juntas

as árvores 

fazem

da sombra

uma única

respiração

como dois corpos amantes

esquecendo

onde termina

a pele

e começa

o mundo


7


talvez o mundo

não seja

este movimento imponente

das nuvens


talvez

seja

o escuro

que permanece

sob elas

o mistério

guardando o tempo

como quem

nunca precisou

contá-lo

porque

às vezes

a luz

não revela


às vezes

a sombra

do não dito

ensina o olhar

a permanecer

como as árvores

amando sem partir

sustentando o céu sem Atlas

sem castigo ou peso do mundo

sem nunca

lhe pedir

que desça


mundo mundo vasto mundo

mais vasto

são os corações

de árvores!

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