quarta-feira, 8 de abril de 2020

Poema sem Páscoa

Doré, Gustave. O Lobo e o Cordeiro.


Seguir mar e terra adentro
nas águas frias, terras fundas
terras e findas
fundas



caminhar sem perder ser
grotesque
tal qual uma benção
sem dar rédea à besta favorita
com as fundas da alma
do corpo
além de concepções cristãs
humanitas.

O homem não peca: erra
comete crimes perante a humanidade
- e nem sempre paga por eles -
não perde a consciência e nem dorme: erra
sem sono profundo
sem desgraça satânica
sem Eterno.
Nada.

O absorve:
a água, a terra
o ar, o minério
todas as contradições humanas
em algum lugar
em qualquer lugar
ou em algum ponto
da sanha capitalista.

4 comentários:

Mario De Carli disse...

Poema sem Páscoa

O poeta condensa em tão pouco espaço o que outros escritores levariam várias horas para dizer. Falar de um “Poema sem Páscoa” é dizer que a vida vai tomar outro rumo, “adentro nas águas frias e terras fundas e findas fundas” que entrou em colapso. Pensávamos que éramos os donos de tudo. Um Poema que nos surpreende e nos causa impacto.

Então é preciso avançar, caminhar diante desse cenário descrito como “grotesque”, ou seja, nada agradável em que não podemos ficar, nem cativeiros e nem confinados num ambiente psicopata, para cortar as “rédeas dessa besta favorita” (gananciosa por dinheiro, ávida por lucros e manter-se no poder), que pode ser vencida muito mais pelas ciências do que pelas religiões. Terá uma benção pela fé num compromisso humano de responsabilidade humana, na qual, o ser humano é responsável pelos seus atos.

Porém, o poeta canta precisamente a inocência do “homem que não peca”, não comete crime, não paga por eles e que por isso mesmo, ainda vai dormir sem perder consciência dos erros que cometeu, sem sentir a “desgraça satânica, sem Eterno” vai cair no “Vazio”. Assim, é tido como leviandade total, é brincadeira desgostosa, pois o leva a não ter consciência da gravidade de seus males. Parece-me dançar sobre a desgraça que a Pandemia toma conta do universo. Não liga. É inconsequente ou louco. Por isso, o vazio o deixa satisfeito, o irresponsabiliza nem o culpabiliza pelas suas idiotices. Brinca com coisas sérias.
Concluiu dizendo que ao homem resta-lhe “absorver todas as contradições humanas”, em que os elementos da natureza: água, ar, terra, o minério, (deveriam constar os elementos da filosófica grega – princípio do Demiurgo), afirma que irão percorrer o pérfido caminho da “sanha capitalista”. Se de fato assim se constatar, depois dessa Pandemia voltarmos a viver a mesma vida, teremos um “Poema sem Páscoa”, uma denúncia grave de que não aprendemos nada ou quase nada diante dessa tragédia humana provocada pelo próprio homem irresponsável e egoísta.

Se de fato, deixamos de seguir a “sanha capitalista” poderemos alcançar a benção para vencer a “besta favorita” com a ajuda das ciências humanas. Dentro desse bojo, a dimensão da fé e de uma espiritualidade que vai revitalizar esse cenário desgastante, que estão inseridos implicitamente, serão primordiais para anunciar a Esperança e a vida ressurgir.
Então, o “Poema sem Páscoa” torna-se uma crítica sutil, muito fina e educada, mas uma crítica feroz, pois não podemos continuar assim: uma Páscoa voltada para o “coelhinho” ou dos “ovos da Páscoa” inicialmente tão belos, foram cedendo lugar à ganância desta “besta favorita” que engoliu a todos e nos revelou nossas fragilidades humanas e existenciais.

Para concluir, este “Poema sem Páscoa” torna-se um convite desafiador para que se sentem à mesa, as ciências humanas com as religiões e sobretudo com a fé cristã, para dialogar, partilhar seus conhecimentos para a vida de todas as pessoas. É um dizer não a uma economia concentradora de bens, ou então dizer que o papel da fé cristã é primordial nesse cenário.

Enfim, um “Poema sem Páscoa” para esta “besta feroz” acabou.
Difícil sempre interpretar o pensamento de um poeta que voa magnificamente em seu mundo interior/exterior, no infinito dos céus ou da terra, para re-significar a existência humana. Está vindo, para mim, a partir da leitura desse poema, uma Páscoa Nova.

(Mario De Carli – 10 de abril de 2020)

Filipe Peres disse...

Excelente leitura, Mario. Captou muito das referências utilizadas. Só acrescentando que este homem não é universal com H maiúscula, é uma representação de um tipo social cujo deus é o mercado, mesmo se dizendo cristão, e que utiliza Cristo como símbolo, meio discursivo, e não mensagem. Ele não peca porque não crê. Não é cegueira, é escolha consciente por crimes contra a humanidade. Seu bezerro é de ouro não por desespero mas por finalidade.

Mario De Carli disse...

Filipe, muito obrigado pela consideração acima. Não percebia ao longo do texto a individualidade desse H em virtude que fixei meu olhar para todos os continentes. O mercado o endeusou e ele é a encarnação desse "deus" maldoso (que é ele mesmo). Ele sabe muito bem o que está fazendo ao servir o mercado e desestabilizar tudo. Todos os meios que utiliza é ao seu favor. É escolha consciente pra fazer todo o tipo de maldades. Perigoso. Esse h tenebroso vai ter ainda estudos.

Filipe Peres disse...

Sou eu quem agradece pela análise. Boa Páscoa.

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