65,1% das vítimas de feminicídio em 2025 eram mulheres negras
Por Filipe Augusto Peres
O Brasil registrou em 2025 a menor taxa de mortes violentas intencionais desde 2012, um feito celebrado pelo governo e especialistas. No entanto, por trás da estatística geral, um dado persistente e cruel escapa à comemoração: a violência contra a mulher não apenas se manteve, como se agravou. E, dentro dela, o recorte racial desenha um quadro de brutalidade ainda mais profundo.
As mulheres negras são as principais vítimas da violência que o Estado insiste em não ver. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado neste mês de julho, oferece um retrato inequívoco dessa realidade. A publicação, que completa duas décadas de existência, é a mais abrangente radiografia da violência no país e, pela primeira vez, dedica análises aprofundadas à interseccionalidade entre raça e gênero.
O resultado é um documento que escancara uma verdade incômoda: a segurança pública no Brasil tem cor e gênero. E a cor é preta.
O PARADOXO DOS NÚMEROS: ENQUANTO A VIOLÊNCIA CAI, O FEMINICÍDIO CRESCE
O dado mais celebrado do Anuário é a queda de 8,2% nas Mortes Violentas Intencionais (MVI) entre 2024 e 2025, com a taxa nacional atingindo 19,1 mortes por 100 mil habitantes, a menor da série histórica iniciada em 2012. O Brasil antecipou em dois anos a meta de redução de homicídios prevista para 2027.
Em números absolutos, o país saiu de 44.220 mortes violentas intencionais em 2024 para 40.775 em 2025, uma redução de 3.445 vidas perdidas. É um avanço que merece ser comemorado, mas que não pode ser celebrado sem ressalvas.
"A nível nacional, com exceção das mortes por intervenção policial e dos feminicídios, todas as demais subcategorias das Mortes Violentas Intencionais caem, reforçando uma tendência iniciada em 2018", afirma Raquel Sousa, Doutora em Ciências Sociais e Pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, autora do capítulo sobre Mortes Violentas Intencionais.
No entanto, essa conquista não é compartilhada por todas as brasileiras. Em 2025, foram registrados 1.571 feminicídios, um aumento de 4% em relação ao ano anterior, quando foram contabilizados 1.504 casos. A taxa nacional de feminicídios é de 1,4 vítimas por 100 mil mulheres.
O movimento é ainda mais preocupante quando analisado em série histórica. Desde 2015, quando o feminicídio entrou para o Código Penal brasileiro, a proporção de mulheres assassinadas por razões de gênero só aumentou. Em 2025, 44,4% das mulheres assassinadas no Brasil foram mortas por serem mulheres, o maior percentual da série.
A análise, extraída do capítulo "A violência que permanece: feminicídio e outros crimes contra mulheres no Brasil", revela que o fenômeno é estrutural. As mulheres continuam morrendo dentro de suas próprias casas, vítimas de homens com quem dividiam a vida. Enquanto a violência das ruas recua, a violência dos lares avança.
"A redução geral dos homicídios não atingiu a violência de gênero. O que cai são as mortes de mulheres em contextos de criminalidade urbana, mas a violência que acontece dentro de casa, perpetrada por parceiros ou ex-parceiros, não recua. Ela é a violência que permanece", explica Isabella Matosinhos, Pesquisadora da Rede Feminina de Estudos de Violência, Justiça e Prisões (Rede Femjusp), Consultora do FBSP e Mestre em Sociologia pela UFMG, que assina a análise sobre violência doméstica e sexual ao lado de Juliana Brandão, Coordenadora de Gênero e Raça no FBSP, Doutora e Mestra em Direitos Humanos pela USP.
A COR DO FEMINICÍDIO: 65,1% DAS VÍTIMAS SÃO NEGRAS
Quando o recorte é racial, o cenário se torna ainda mais alarmante. 65,1% das vítimas de feminicídio em 2025 eram mulheres negras (soma de pretas e pardas), contra 34,0% de brancas. Essa sobrerrepresentação é um eco do racismo estrutural que atravessa a sociedade brasileira.
O dado fica ainda mais grave quando analisadas as demais mortes violentas intencionais de mulheres. Nesses casos, a concentração entre vítimas negras é ainda maior: 74,6% das vítimas eram negras, enquanto mulheres brancas correspondiam a 24,6%.
"Ainda que a violência letal de gênero atinja todos os grupos sociais, ela continua incidindo de forma desproporcional sobre mulheres negras", afirma Isabella Matosinhos.
O perfil da violência também é específico. O feminicídio não é um crime de rua. Diferentemente de grande parte da violência letal que atinge mulheres no Brasil, o feminicídio é, sobretudo, uma violência doméstica, relacional e privada.
Os números de 2025 são claros:
- 62,5% dos casos ocorrem dentro da residência da vítima ou do agressor.
- 79,8% dos autores identificados são companheiros ou ex-companheiros.
- 50,8% dos crimes são cometidos com arma branca (facas, canivetes), contrastando com as demais mortes violentas de mulheres, onde a arma de fogo é o principal instrumento (63,6%).
"O feminicídio é, sobretudo, uma violência doméstica, relacional e privada. Acontece majoritariamente dentro dos espaços destinados à proteção, à intimidade e à convivência familiar, justamente os espaços onde a intervenção do Estado costuma ser mais difícil e onde a violência frequentemente permanece invisível até alcançar seu desfecho mais extremo", destaca Isabella Matosinhos.
A faixa etária também revela padrões específicos. As principais vítimas de feminicídio em 2025 foram mulheres de 25 a 29 anos (17,2% do total). A taxa de feminicídio entre mulheres de 18 a 24 anos é quatro vezes mais alta do que entre adolescentes de 12 a 17 anos. O risco permanece elevado ao longo de aproximadamente duas décadas do ciclo de vida feminino, abrangendo relações estáveis, casamentos duradouros e processos de separação.
A VIOLÊNCIA QUE NÃO MATA, MAS CONTROLA: A ESCALADA DO ABUSO
O Anuário mostra que o feminicídio é a ponta de um iceberg. Para cada feminicídio registrado, há dezenas ou centenas de outros crimes que o antecedem e sinalizam a escalada da violência.
Em 2025, foram registrados:
- 788.531 ameaças contra mulheres, o crime mais frequente entre todos os indicadores analisados, com uma taxa de 720,9 registros por 100 mil mulheres.
- 286.270 lesões corporais dolosas em contexto de violência doméstica, o equivalente a uma agressão a cada 2 minutos.
- 132.025 descumprimentos de medidas protetivas de urgência,crescimento de 16,7% em relação a 2024, o único indicador que cresceu em todas as 27 unidades da federação.
- 123.871 registros de perseguição (stalking), crescimento de 30,1% em relação ao ano anterior.
- 60.830 registros de violência psicológica, crescimento de 16,9%.
O dado mais alarmante é o descumprimento de medidas protetivas. Em termos concretos, são 362 descumprimentos por dia, 15 a cada hora. Ou seja, o instrumento que deveria garantir a proteção das mulheres é violado, em média, a cada quatro minutos.
"Os limites da proteção estatal estão falhando em garantir a eficácia da ordem judicial que ele mesmo emitiu. O descumprimento de uma medida protetiva é, com frequência, um sinal claro de alarme antes da morte", alerta Isabella Matosinhos.
A gravidade desse cenário fica evidente quando cruzado com outro dado: 70 mulheres foram assassinadas com medida protetiva ativa no momento do óbito. Isso significa que o Estado havia se comprometido formalmente a protegê-las, mas falhou.
O dado é ainda mais grave considerando que nove estados, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, os quais juntos respondem por mais de 40% dos feminicídios do país, não informaram quantas mulheres foram mortas com medida protetiva ativa. Ou seja, nove estados não sabem ou não informam quantas mulheres foram assassinadas depois de o Estado ter formalmente se comprometido a protegê-las.
Entre as 18 unidades da federação que informaram, a proporção é de uma em cada nove mulheres.
O Paraná é o caso mais emblemático. O estado reúne a maior taxa de descumprimento do país (195,3 por 100 mil habitantes) e, entre as UFs que informam, a maior proporção de feminicídios com medida ativa no momento do óbito: 14,9%, ou 13 mulheres em 2025.
O RETRATO RACIAL DA VIOLÊNCIA: MUITO ALÉM DO FEMINICÍDIO
A violência contra a mulher negra no Brasil não se limita ao feminicídio. Ela se expressa em múltiplas formas, algumas mais visíveis, outras profundamente invisibilizadas.
Violência Sexual
Os crimes de estupro e estupro de vulnerável, embora tenham apresentado uma ligeira queda de 5,4% em 2025, continuam a ter um perfil de vítima bem definido:
- 87,3% das vítimas são do sexo feminino.
- 57,1% são negras (ante 41,4% brancas).
A pesquisa alerta para a alta subnotificação do crime e para um problema técnico grave: 31,8% dos registros de estupro não informam a raça/cor da vítima. Isso significa que a real magnitude da violência sexual contra mulheres negras pode ser ainda maior.
"A análise do perfil étnico-racial das vítimas de estupro, em conjunto com os demais indicadores, evidencia como a interseccionalidade entre distintos marcadores sociais, como raça, gênero e idade, interage para ampliar a vulnerabilidade", afirma Beatriz Schroeder, Pesquisadora do FBSP e Graduada em Administração Pública pela FGV-SP, que assina a análise sobre estupro ao lado de Deise Nunes, Pesquisadora do FBSP e Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo.
A maior vulnerabilidade da população negra à violência sexual, sobretudo de mulheres negras, está profundamente enraizada em processos históricos de subalternização e desumanização que remontam ao período colonial, quando seus corpos eram tratados como "não humanos" e submetidos a violações sistemáticas.
"Um cenário alimentado até hoje por representações sociais que hipersexualizam a mulher negra", complementa Beatriz Schroeder.
Injúria Racial e Racismo
Os crimes de injúria racial e racismo também apresentam crescimento expressivo, indicando que a violência racial está longe de ser um fenômeno residual.
Em 2025, foram registrados:
- 21.443 casos de injúria racial (crescimento de 9,2%).
- 30.743 casos de racismo (crescimento de 13,0%).
Apesar do avanço legislativo, com a inclusão da injúria racial na Lei do Racismo em 2023, a falta de padronização nos registros e a subnotificação ainda são desafios. Estados como Santa Catarina (32,8 registros de racismo por 100 mil habitantes) e Distrito Federal (30,3) lideram as taxas, o que pode indicar tanto maior incidência quanto maior capacidade de denúncia.
"O reconhecimento jurídico avançou, no entanto, não eliminou a prática social da desqualificação racial. Mais pessoas têm conseguido denunciar a violência racial, mas a estrutura de desrespeito segue firme no cotidiano", analisa Juliana Brandão, Coordenadora de Gênero e Raça no FBSP e Doutora e Mestra em Direitos Humanos pela USP, que assina o capítulo sobre injúria racial e violência contra a população LGBTQIAPN+ ao lado de Gabriela Oliveira, Estagiária de pesquisa no FBSP.
MÃES NEGRAS E O LUTO QUE NÃO CESSA: A VIOLÊNCIA POLICIAL QUE AS ATRAVESSA
A tragédia não se limita à violência direta contra as mulheres. A letalidade policial no Brasil atingiu o maior patamar da série histórica em 2025: 6.602 mortes decorrentes de intervenção policial, um aumento de 5,4% em relação a 2024.
O perfil dessas vítimas é brutalmente específico:
- 99,3% são homens.
- 82,0% são negros.
- A taxa de letalidade policial entre negros é 3,5 vezes maior do que entre brancos.
Entre adolescentes de 12 a 17 anos, 86,3% das vítimas de mortes violentas intencionais são negros. Entre crianças de 0 a 11 anos, o percentual é de 62,6%.
"Cerca de nove em cada dez adolescentes assassinados no Brasil são negros", afirma Cauê Martins, Coordenador de Infância e Juventude do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) , autor da seção sobre violência contra crianças e adolescentes.
Por trás de cada um desses números, há uma família, e na maioria das vezes, uma mãe negra em luto. A violência policial, ao matar jovens negros, atinge indiretamente as mulheres negras, que se tornam as principais cuidadoras do trauma, do luto e da luta por justiça.
"A violência letal se distribui de maneira racialmente desigual no Brasil. A sobrerrepresentação da população negra está presente em todas as categorias, mas alcança seu maior patamar nas mortes decorrentes de intervenção policial", destaca Raquel Sousa.
O caso de Rondônia é emblemático. O estado concentrou o terceiro maior crescimento no número de registros de armas de fogo no Sinarm, a maior taxa de apreensão de armas pelas polícias estaduais e uma das maiores taxas de mortes violentas intencionais do país. A violência policial no estado saltou de 8 mortes em 2024 para 47 em 2025, um aumento de 485,6%.
A PERSISTÊNCIA DO RACISMO: DENÚNCIAS EM ALTA, RESPOSTAS INSUFICIENTES
O Anuário também revela a persistência do racismo estrutural na forma como o sistema de justiça e segurança pública opera. A falta de padronização nos registros de crimes raciais e contra a população LGBTQIAPN+ é um problema recorrente.
"A falta de uniformidade nos enquadramentos jurídicos da injúria racial, do racismo e dos crimes contra LGBTs não é um detalhe técnico neutro: ela produz opacidade estatística, fragiliza a comparabilidade entre UFs e enfraquece a capacidade do Estado de reconhecer, nomear e responder adequadamente às violências."
O relatório aponta que a "neurose cultural brasileira", conceito cunhado por Lélia Gonzalez, ajuda a explicar por que a violência contra pessoas negras e LGBTQIAPN+ persiste.
"A leitura sob a chave da 'neurose cultural brasileira' ajuda a mostrar que a desordem classificatória não é apenas um problema administrativo, mas a expressão de uma estrutura social que normaliza a negação da violência contra pessoas negras e contra pessoas LGBTs, ao mesmo tempo em que minimiza a responsabilidade institucional", conclui Juliana Brandão.
O SISTEMA PRISIONAL QUE ENCARCERA MULHERES NEGRAS
O sistema prisional brasileiro é outro retrato da violência racial e de gênero. Em 2025, o Brasil chegou a uma população prisional de 964.668 pessoas, com um déficit de 281.213 vagas.
O perfil da população prisional é majoritariamente negro:
- 69,6% das pessoas privadas de liberdade são negras, o maior percentual da série histórica.
- 29,2% são brancas, o menor percentual da série.
Entre as mulheres, a situação também é grave. O Brasil registrou em 2025 um total de 57.222 mulheres privadas de liberdade, o número mais alto de toda a série histórica iniciada em 2016. O crescimento da população prisional feminina no período de 2016 a 2025 foi de 43,7%, contra 36,4% entre os homens.
"Os dados revelam uma das diversas expressões do racismo estrutural na sociedade brasileira: a manutenção, ano após ano, do mesmo padrão de sobrerrepresentação racial no cárcere indica que essa seletividade racial não é um desvio pontual, mas um traço persistente do funcionamento do sistema de justiça criminal", afirma David Marques, Gerente de Programas do FBSP e Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) , que assina a análise do sistema prisional ao lado de Ana Clara Coelho, Internacionalista pela PUC-SP e Pesquisadora do FBSP, e Leonardo de Carvalho Silva, Doutor em Planejamento Urbano pela UFRJ e Coordenador de Estado e Crime Organizado do FBSP.
A VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES: O FUTURO EM RISCO
O Anuário dedica uma seção inteira à violência contra crianças e adolescentes, e o recorte racial é igualmente brutal.
Em 2025, foram registradas 2.079 mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes de até 17 anos. O perfil das vítimas é claro:
- Entre os adolescentes de 12 a 17 anos, 86,3% são negros.
- Entre crianças de 0 a 11 anos, 62,6% são negras.
A violência sexual também tem um recorte racial claro. Crianças e adolescentes negras são as principais vítimas de estupro e estupro de vulnerável, correspondendo a 57,1% dos casos.
"A transição da infância para a adolescência modifica profundamente o perfil da vitimização letal. Entre crianças de 0 a 11 anos, a distribuição por sexo ainda é relativamente equilibrada. A partir dos 12 anos, 90,9% das vítimas passam a ser do sexo masculino. Isso evidencia que a violência letal na adolescência está fortemente associada a contextos de violência urbana, conflitos armados, mercados ilícitos e intervenções policiais", explica Cauê Martins.
O QUE OS DADOS NOS DIZEM SOBRE A DIMENSÃO DA VIOLÊNCIA
O conjunto dos dados apresentados no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública permite uma síntese alarmante:
- A cada 6 minutos, uma mulher registra uma ocorrência de lesão corporal em contexto de violência doméstica.
- A cada 4 minutos, um descumprimento de medida protetiva é registrado.
- A cada 8 minutos, uma mulher registra uma ameaça.
- A cada 2 horas, uma mulher é vítima de tentativa de feminicídio.
- A cada 5 horas, uma mulher é vítima de feminicídio consumado.
E o recorte racial revela que a maioria dessas mulheres é negra.
O DESAFIO QUE PERMANECE: COMO ENFRENTAR A VIOLÊNCIA ESTRUTURAL
Os dados do Anuário não são apenas números. Eles são vidas interrompidas, famílias destruídas, sonhos cancelados. E, acima de tudo, eles são um chamado à ação.
"Olhar para os números de mulheres mortas no Brasil e, em especial, para aquelas mortas por razões de gênero é uma tarefa que este Anuário realiza há anos e que precisa continuar sendo feita. Diagnosticar é um passo fundamental para enfrentar qualquer problema público", afirmam Isabella Matosinhos e Juliana Brandão.
A pergunta que fica é: como transformar esse diagnóstico em ação? O Anuário aponta alguns caminhos:
1. Prevenção baseada em evidências
"Enfrentar o feminicídio via políticas públicas de prevenção exige que ele seja compreendido menos como um episódio isolado ou como resultado exclusivo de desvios individuais e mais como a expressão extrema de desigualdades de gênero ainda profundamente presentes na sociedade brasileira", afirmam Isabella Matosinhos e Juliana Brandão.
2. Controle efetivo do uso da força
"O país precisa encontrar mecanismos de controle do uso da força mais efetivos, já que tais dados mostram que o Estado, em suas múltiplas esferas e poderes, tem sido parte do problema e não apenas das soluções para a segurança pública brasileira", afirma Raquel Sousa
3. Fortalecimento das medidas protetivas
"O descumprimento de uma medida protetiva é, com frequência, um sinal claro de alarme antes da morte e o Estado brasileiro o registra 362 vezes por dia sem, ainda, tratá-lo como tal", alerta Isabella Matosinhos.
4. Políticas interseccionais
"A segurança pública no Brasil não pode ser pensada de forma genérica. Ela precisa ser interseccional. As políticas de prevenção à violência contra a mulher precisam considerar o recorte racial", defendem Isabella Matosinhos e Juliana Brandão.
5. Educação e transformação cultural
"Se o problema da violência contra mulher é também social e cultural, sua prevenção exige mais do que a atuação do sistema de justiça criminal: exige educação, transformação de normas sociais e fortalecimento das políticas de proteção às mulheres", concluem Isabella Matosinhos e Juliana Brandão.
A LIÇÃO DO ANUÁRIO: A VIOLÊNCIA TEM COR, GÊNERO E ENDEREÇO
O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública é um documento histórico. Ele mostra que o Brasil avançou na redução da violência letal, mas também revela que esse avanço não é compartilhado por todos.
As mulheres negras continuam sendo as principais vítimas da violência que o Estado insiste em não ver. Elas são a maioria das vítimas de feminicídio, são desproporcionalmente afetadas pela violência policial (indiretamente, como mães e familiares), são as principais vítimas de crimes sexuais e raciais, e estão super-representadas no sistema prisional.
A data de hoje, 25 de julho, é um marco de resistência e memória. As mulheres negras latino-americanas e caribenhas têm uma história de luta contra a opressão colonial, o racismo e o machismo. Os números do Anuário de Segurança Pública são um lembrete de que essa luta está longe de terminar.
Mas também são um chamado à ação. A pergunta que fica, ecoando nas estatísticas, é: até quando?
Fonte:
20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026), Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Principais autores dos capítulos citados:
- Raquel Sousa (Mortes Violentas Intencionais)
- Juliana Martins, Denice Santiago, Juliana Lemes da Cruz (Vitimização Policial)
- Leonardo de Carvalho Silva (Letalidade Policial)
- Isabella Matosinhos, Juliana Brandão (Violência Doméstica e Sexual)
- Samira Bueno, Renato Sérgio de Lima, Isabela Sobral (Estelionato)
- Juliana Brandão, Gabriela Oliveira (Injúria Racial e LGBTQIAPN+)
- Cauê Martins, Luciana Temer (Violência Contra Crianças e Adolescentes)
- David Marques, Ana Clara Coelho, Leonardo de Carvalho Silva (Sistema Prisional)
- Thais Carvalho (Sistema Socioeducativo)
- Aliandra Klützke, Anália Belisa Ribeiro, Ana Luiza Paro Mattiuzo de Conto, Cintia Meirelles, Fernanda Melo (Tráfico de Pessoas)
Coordenação geral:Samira Bueno, Renato Sérgio de Lima
Consultoria estatística e de dados:** Fernando Corrêa, Isabella Matosinhos, Marina Bohnenberger, Thais Carvalho
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