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quinta-feira, 9 de julho de 2026

Agave

 

Agave. Filipe Augusto Peres


1


sob sol capitalista

sou este agave sem pressa

sem água


à beira do barranco

cerca ao fogo seco

aprendi

que a minha permanência

a cultivo

na sede


o vento,

quando venta,

me atravessa

quando não,

gruda em minha pele

vira suor


não desafio o tempo

sei que perderei

ainda assim

habito-o


como o agave

ergo minhas espadas ao céu

e guardo

um coração

não visto


em mim

uma seiva amadurece

devagar

                                    cada dia


            gota

              a

            gota

uma gota de sol 

desce 

ao miolo

como se a luz 

            gota

              a

            gota

aprendesse

a transformar-me 

na memória

de mim mesmo


2


quando eu morrer

e o legista abrir meu peito

se o abrir

encontrará como quem abre

uma planta

meu tempo líquido

retido

e um coração intragável de bebida forte

como o pulque

como o mezcal

como a tequila


encontrará terra

e fogo

e um silêncio sem festa

sem ancestrais

sem descendentes

minhas fissuras, minhas frestas

escondem vários segredos


sob minha rigidez de lâmina

vive a fibra que se rompe

e, rompida,

permanece


corda

laço

ponte

uno-me ao que a distância

insiste em separar


sou como o agave

não revelo de imediato 

meu coração

antes, aprendo a protegê-lo

a esperar

a consumação da doçura

que nunca chega


e se me antecipam

rasgam-me ao miolo

quando me entrego

não deixo apenas o sabor

deixo morada

deixo resistência

como a corda que atravessa os anos

sem esquecer as mãos

que a entrelaçaram


mas,

antes que perguntem


não


não ilumino nada

não ilumino ninguém

talvez tenha aquecido

talvez tenha esquecido

alguns corações

temporários


não, 


passo longe de cavaleiros templários

mas o tempo

é meu abrigo

e o será

até que eu me derreta sob a terra

junto à minha seiva

meu sangue

meu sangue

meu sangue espesso

minha memória


enquanto isso

sou humano

sou humano e luto


3


luto por um gesto de amor

que provavelmente nunca chegará

um gesto coletivo

capaz

de mudar

o mundo

ou um gesto simples

capaz de mudar

ou pelo menos sustentar

uma vida.

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