| Agave. Filipe Augusto Peres |
1
sob sol capitalista
sou este agave sem pressa
sem água
à beira do barranco
cerca ao fogo seco
aprendi
que a minha permanência
a cultivo
na sede
o vento,
quando venta,
me atravessa
quando não,
gruda em minha pele
vira suor
não desafio o tempo
sei que perderei
ainda assim
habito-o
como o agave
ergo minhas espadas ao céu
e guardo
um coração
não visto
em mim
uma seiva amadurece
devagar
cada dia
gota
a
gota
uma gota de sol
desce
ao miolo
como se a luz
gota
a
gota
aprendesse
a transformar-me
na memória
de mim mesmo
2
quando eu morrer
e o legista abrir meu peito
se o abrir
encontrará como quem abre
uma planta
meu tempo líquido
retido
e um coração intragável de bebida forte
como o pulque
como o mezcal
como a tequila
encontrará terra
e fogo
e um silêncio sem festa
sem ancestrais
sem descendentes
minhas fissuras, minhas frestas
escondem vários segredos
sob minha rigidez de lâmina
vive a fibra que se rompe
e, rompida,
permanece
corda
laço
ponte
uno-me ao que a distância
insiste em separar
sou como o agave
não revelo de imediato
meu coração
antes, aprendo a protegê-lo
a esperar
a consumação da doçura
que nunca chega
e se me antecipam
rasgam-me ao miolo
quando me entrego
não deixo apenas o sabor
deixo morada
deixo resistência
como a corda que atravessa os anos
sem esquecer as mãos
que a entrelaçaram
mas,
antes que perguntem
não
não ilumino nada
não ilumino ninguém
talvez tenha aquecido
talvez tenha esquecido
alguns corações
temporários
não,
passo longe de cavaleiros templários
mas o tempo
é meu abrigo
e o será
até que eu me derreta sob a terra
junto à minha seiva
meu sangue
meu sangue
meu sangue espesso
minha memória
enquanto isso
sou humano
sou humano e luto
3
luto por um gesto de amor
que provavelmente nunca chegará
um gesto coletivo
capaz
de mudar
o mundo
ou um gesto simples
capaz de mudar
ou pelo menos sustentar
uma vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário