segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Os Trinta Anos do Axé! Por Rilton Nogueira



Até o inicio dos anos 80, as músicas tocadas pelos trios elétricos em Salvador eram apenas instrumentais e geralmente na linha dos frevos pernambucanos. Quando as músicas começam a ser cantadas, somente os homens podiam puxar os trios, ou seja, serem os vocalistas.

Os empresários, donos dos trios, achavam as vozes femininas muito agudas e acreditavam que os associados não aprovariam cantoras.  Nessa época, a música feita para o carnaval ficava restrita apenas a Salvador, Bahia e, quando muito, a alguns estados do Nordeste.

Somente em 1985 que um sucesso do carnaval soteropolitano sai da Bahia e se torna um hit que toma conta das rádios de todo o país, tratava-se de Fricote, primeiro sucesso do cantor Luiz Caldas.



No carnaval de 1987, a música Faraó, divindade do Egito, do grupo Olodum, aparece como um grande sucesso local e se torna um divisor de águas dentro da nova musica baiana. A letra fala sobre a criação do mundo utilizando para isso a historia egípcia. Com letras mais críticas e apenas instrumentos de percussão, o Olodum passa a influenciar os cantores de trio e preparava o que viria a ser o maior fenômeno musical dos anos noventa no Brasil, o Axé Music.

Dentro de um projeto musical chamado musica ao meio dia, em meados de 1992, um show no vão livre do museu de arte de São Paulo (MASP) se torna um marco na historia do Axé e da carreira da cantora que a partir daquele momento passa a ser a maior porta voz do ritmo que embalaria o país, Daniela Mercury.

Os shows desse projeto eram todos feitos por artistas iniciantes e que invariavelmente não chegavam a reunir mais do que três ou quatro centenas de pessoas. Ninguém sabe ao certo, mas o fato é que o show de Daniela Mercury no vão livre do Masp reuniu mais de 20 mil pessoas e parou a avenida Paulista. Menos de 40 minutos depois de iniciada a apresentação, a diretora do museu sobe ao palco e puxa a cantora pelo braço exigindo que o show fosse interrompido, pois a trepidação causada pelo grande aglomerado de pessoas pulando freneticamente colocava em risco as obras de arte ali expostas.

No outro dia todos os jornais da cidade estampavam em suas capas, ‘uma baiana para São Paulo’. Não sabiam nem o nome da cantora.

O show é transferido para o domingo na USP, onde reúne 30 mil pessoas e é transmitido ao vivo para todo o país pela tv cultura dentro do programa Bem Brasil. Nesse dia o programa bate recorde de público.

Manoel Poladian, grande empresário da música, fica preso no engarrafamento causado pelo show de Daniela e pede para que um ‘olheiro’ vá até o show da USP para se informar melhor de quem se tratava a tal baiana que havia ‘parado a Paulista’.

Depois disso, Daniela Mercury passa a ser empresariada por Poladian e assina contrato com a poderosa  Sony Music vindo no final daquele ano a gravar o álbum O canto da cidade , hoje  considerado pelos críticos especializados em música,  como o mais importante do Axé Music , passando a  figurar também na lista dos cem melhores discos do cancioneiro nacional de todos os tempos.

Mercury lembra que depois de assinado o contrato, a gravadora não queria que ela continuasse a cantar samba-reggae, uma vertente do Axé. Conta também que ao ouvirem a musica O canto da Cidade,  que tem como refrão os versos A cor dessa cidade sou eu, o canto dessa cidade é meu, acharam arrogante demais e ficaram com medo de que o público assim também pensasse. Mercury teve que explicar que ela não estava a falar de si nos versos dessa canção e sim do povo de Salvador. Foi também com a explicação de que ao contrário dos versos do rock Que país é esse ? que parece dizer ‘não quero esse país’ ou ‘que droga de país...’, o Axé dizia, não diga que não me quer, não diga que não quer mais, eu sou o primeiro que canta, eu sou o carnaval,  se tratava da autoafirmação de um povo que tinha no carnaval o seu momento de ir para rua, de se manifestar e fazer a sua revolução através da música, fazendo , por meio da arte, a sua crítica social.

Vencida essa batalha com a gravadora, o show O canto da cidade ganha um especial de fim de ano na tv Globo e a partir daí nasce o fenômeno Daniela Mercury. Nelson Mota, assim define a aparição da cantora: “uma Iansã vingadora, uma guerreira de espada na mão e pernas de fora, abrindo uma clareira de luz e alegria no meio das trevas ‘colloridas’ (alusão ao então presidente)” .

Com o álbum O canto da cidade, Mercury vende mais de 2 milhões de cópias e abre as portas para uma série de artistas baianos que na primeira metade dos anos 90 dominam o hit parade brasileiro. Banda Mel, Cheiro de amor, Kassia, Zé Paulo, Olodum, Simone Moreno Margareth Menezes, Timbalada, Banda Beijo e Netinho, entre outros artistas, a partir da vereda aberta por Mercury multiplicam seus shows com o destaque dado pela mídia.

Na segunda metade dos anos 90 ganham espaço na mídia novos artistas vindos da Bahia e com eles músicas de duplo sentido passam a dominar as rádios nacionais, o maior representante desse estilo é o grupo Gera Samba. Os refroes: E diga yes, diga yes, sou negão/ minha jangada vai sair pra o mar, vou trabalhar, meu bem querer/  minha pele de ébano é minha alma nua/ Não me pegue não, me deixe a vontade, deixe eu curtir o Ilê, o charme da liberdade/A gente não pode comer arroz, a gente não pode comer feijão, ainda tem que andar descalço sem ter que pisar no chão... foram substituídos por segure o tcham, amarre o tcham, segure o tcham , tcham , tcham, tcham, tcham/ e vai descendo na boquinha da garrafa/ é a dança do maxixe, é um homem no meio com duas mulheres fazendo sanduiche/ bota a mão no joelho, dá uma impinadinha, vai descendo gostoso balançando a bundinha.

Apesar do grande sucesso, esses cantores de axé surgidos a partir da segunda metade dos anos 90 se tornam alvo de crítica pelo conteúdo fraco de suas letras e pela sexualidade exacerbada através de suas danças. Quem não se lembra de Carla Peres?

Em 1996 o som dos tambores do Olodum ecoa pelo mundo através do vídeo clipe que o cantor Michael Jackson vem gravar com o grupo no Brasil. Trata-se da música They don’t care about us.

 E quem pensa que essa é a primeira vez que os tambores do Axé fazem a cabeça de ícones do pop internacional está errado, pois, em 1990, Paul Simon já havia gravado uma música e um clip com o Olodum no Pelourinho, trata-se da música the obvious child.

 É importante frisar que o Olodum não é apenas uma banda, mas também um bloco afro e   uma organização não governamental que nasceu no final dos anos 70 em Salvador. O grupo tem como objetivo o combate à discriminação racial, a preservação da cultura afro-baiana e o ensino de percussão para crianças e adolescentes, tirando-os das ruas. A primeira vez que o bloco desfila foi no carnaval de 1980. A ideia era que as pessoas das comunidades pobres também pudessem brincar o carnaval, para isso utilizaram como instrumentos musicais os tambores das fanfarras disponíveis nas escolas públicas. Como em Salvador existem centenas de terreiros de candomblé e como todos sabem que para se realizar os rituais dessa religião os instrumentos de percussão são imprescindíveis, já se tinha na comunidade um considerável número de músicos para o desfile. 

O que se fez com o passar do tempo foi aperfeiçoar a batida. A inovação veio com a utilização de baquetas de bambu ao invés das tradicionais, essas, mais tarde foram substituídas por baquetas plásticas, o que veio a gerar um som característico que, sob a regência do maestro Neguinho do Samba, deu vida ao que foi batizado como samba-reggae.

Em 1997 um disco gravado ao vivo pela Banda Eva, que tem Ivete Sangalo como vocalista, começa a ganhar as rádios de todo o país e em poucos meses salpica o verão de 97 e 98 de hits como Vem meu amor, Pequena Eva, Arerê e Beleza rara. Ivete Sangalo passa a disputar com Daniela Mercury o titulo de rainha do Axé, assim como foi no passado a disputa entre Emilinha Borba e Marlene pelo titulo de rainha do rádio. 

Obviamente que a disputa não se dá entre Mercury e Sangalo, mas sim entre os fãs que eram e são alimentados pela mídia para enxergar uma disputa e até mesmo rivalidade que não existe entre as duas cantoras. No ano de 1999 Sangalo deixa a banda Eva e segue carreira solo, emplacando o hit daquele verão, Canibal, música que lembra muito o estilo da paraibana Elba Ramalho no inicio da carreira.

Os anos 2000 chegam e uma nova cantora de Axé surge no cenário musical, Claudia Leite, ainda à frente da banda Babado Novo. Como era de se esperar, após alguns sucessos radiofônicos a cantora deixa a banda e segue carreira solo. A partir daí a disputa passa a ser entre Leite e Sangalo. Mercury dá outro rumo a seu trabalho e passa flertar com a MPB e com a música eletrônica. Em seu álbum intitulado Sol da liberdade, gravado em 2000, faz parceria com Milton Nascimento, Lenine, Vanessa da Mata, Dudu Falcão e Caetano Veloso. A regravação de Como vai você , de Antonio Marcos, entra na trilha sonora da novela Laços de Família e se torna a música mais executada no Brasil naquele ano.

Os anos se passaram e outros gêneros musicais foram ganhando destaque na mídia e o Axé encolhendo. No entanto, sabemos que isso é natural e ocorreu com todos os ritmos, a mídia precisa de novidades. O fato é que os artistas que tinham talento e que apareceram para o país e para o mundo através desse gênero se estabeleceram e consolidaram suas carreiras. Prova disso são as musicas do filme americano Rio, que foi composta por Sergio Mendes e Carlinhos Brown que chegou a concorrer ao Oscar como melhor trilha sonora, ou o convite feito à Daniela Mercury para participar do álbum em tributo a Ênio Moricone, compositor de trilhas sonoras de diversos clássicos hollywoodianos.

Segundo Motta, hoje ninguém sabe a fronteira entre o axé e a música baiana de festa, mas todos concordam que o estilo está em transformação permanente e que fundou um novo mercado para a música da Bahia, que produz grandes músicos e grandes marqueteiros.

Rilton Nogueira é professor e responsável pela parte cultural do blog O Calçadão



Um comentário:

O Eldoradense disse...

Parabéns pela riqueza de detalhes e pela profundidade na pesquisa, incluindo as nuances do Axé Music e sua cronologia. Muito bom!

Ass: O Eldoradense

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