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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Santa Casa: Prefeitura renova convênio de R$ 133 milhões e reforça contradição entre repasse público e superávit privado

Estimativas a partir de dados públicos

Documentos oficiais mostram contradição entre repasse público milionário e saúde financeira robusta da instituição filantrópica; valor do convênio poderia construir 25 novas UBS de grande porte
Um dia depois de o balanço da Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto, publicado no Diário Oficial, revelar superávit de R$ 11,2 milhões e aplicações financeiras de R$ 39,6 milhões, a Prefeitura renovou o convênio com o hospital no valor estimado de R$ 133,3 milhões. 

O extrato do Termo de Convênio, publicado na edição de 6 de maio do Diário Oficial do Município, prorroga por 12 meses a parceria entre a Prefeitura e a Santa Casa para integração do hospital ao Sistema Único de Saúde (SUS). O valor anual máximo estimado é de R$ 133.377.183,77, incluindo recursos do plano principal e emendas parlamentares 

O D.O. desta quinta-feira também traz a renovação do convênio com a Beneficência Portuguesa no valor de R$ 84.367.533,75. Somados, os dois repasses públicos anuais a hospitais filantrópicos ultrapassam R$ 217,7 milhões.

A contradição que não quer calar

Na véspera, a reportagem revelou, com base no balanço do hospital publicado no Diário Oficial de 5 de maio, que a Santa Casa encerrou 2025 com números que desafiam o discurso da "dificuldade financeira":

  • Superávit de R$ 11.224.224,00 (DOM nº 12.392, 05/05/2026, Nota Explicativa nº 22, pág. 46);
  • Patrimônio líquido de R$ 70.986.158,00 (DOM nº 12.392, 05/05/2026, Nota Explicativa nº 22, pág. 46);
  • R$ 39.617.907,00 aplicados no mercado financeiro — crescimento de 26,8% em relação a 2024 (DOM nº 12.392, 05/05/2026, Nota Explicativa nº 5, pág. 50);
  • Isenção fiscal de R$ 24.290.847,00 (INSS patronal + COFINS), valor 2,16 vezes maior que o superávit do ano (DOM nº 12.392, 05/05/2026, Nota Explicativa nº 28, pág. 54).

A instituição também recebeu, em 2025, R$ 119,6 milhões em repasses públicos de fontes federais, estaduais, municipais e emendas parlamentares (DOM nº 12.392, 05/05/2026, Nota Explicativa nº 3.1, págs. 48-49).

O que são R$ 133 milhões? O equivalente a 25 novas UBS de grande porte

Para dimensionar o impacto social do valor do convênio, a reportagem utilizou os parâmetros oficiais do Ministério da Saúde para construção de Unidades Básicas de Saúde (UBS). O Ministério classifica as UBS em portes de I a V, conforme estabelecido pela Portaria GM/MS nº 340, de 4 de março de 2013. Cada porte corresponde a um número mínimo de Equipes de Saúde da Família (eSF) que a unidade pode abrigar.

A UBS Porte IV, projetada para abrigar pelo menos quatro equipes de Estratégia Saúde da Família, é o segundo maior porte disponível e o mais adequado para grandes centros urbanos como Ribeirão Preto. De acordo com a página oficial do Ministério da Saúde (FAQ UBS, atualizada em setembro de 2024), o valor de referência para construção de uma UBS Porte IV na região Sudeste é de R$ 5.291.345,00.

Dividindo o valor do convênio (R$ 133.377.183,77) pelo custo da UBS Porte IV (R$ 5.291.345,00), chega-se a aproximadamente 25 novas unidades de saúde. Essas unidades teriam capacidade para realizar, cada uma, até 4.500 atendimentos mensais e atender até 4.000 famílias.

Indicador Valor
Valor do convênio com a Santa Casa (2026) R$ 133.377.183,77
Custo de referência da UBS Porte IV (Ministério da Saúde, 2024) R$ 5.291.345,00
Número de UBS Porte IV que poderiam ser construídas em torno de 25 unidades
Atendimento mensal por UBS Porte IV Até 4.500 atendimentos
Total de atendimentos mensais que poderiam ser realizados Até 112.500 atendimentos/mês

O dinheiro público como alavanca da acumulação privada

O SUS precisa de hospitais contratados para atender a população. O problema não é o convênio em si, mas o modelo: o Estado repassa recursos públicos a entidades que acumulam patrimônio, aplicam no mercado financeiro e gozam de isenções fiscais enquanto a população enfrenta filas e a rede pública direta carece de investimentos.

Do ponto de vista estrutural, observa-se uma socialização dos custos (todos pagam impostos que financiam os convênios) e uma privatização dos ganhos (os superávits e os rendimentos financeiros ficam com a entidade, não com a sociedade).

Um modelo que precisa ser questionado

A renovação do convênio de R$ 133 milhões com a Santa Casa somada aos números do balanço de 2025 deveria provocar um debate sério sobre o modelo de financiamento da saúde filantrópica no Brasil. Não se trata de desmerecer o trabalho dos profissionais que atuam no hospital, nem de questionar a importância do atendimento prestado. Trata-se de apontar uma contradição estrutural que o discurso da "dificuldade financeira" não consegue mais esconder.

A Santa Casa tem superávit, patrimônio, aplicações financeiras e isenção fiscal. A Prefeitura, mesmo assim, repassa R$ 133 milhões por ano. O valor desse repasse seria suficiente para construir 25 novas UBS de grande porte, capazes de realizar mais de 100 mil atendimentos por mês sem intermediação privada, com controle social e transparência.

Enquanto esse debate não ocorre, o dinheiro dos impostos continuará abastecendo o superávit e as aplicações financeiras da Santa Casa. E a população continuará pagando duas vezes: uma pelos impostos que financiam o sistema, outra pela saúde que não chega.

Para refletir

Se a Santa Casa tem superávit, aplicações financeiras e patrimônio líquido positivo, por que precisa de R$ 133 milhões anuais da Prefeitura  além dos repasses federais e estaduais?

Se o Estado já financia quase toda a operação do hospital, por que não assumir diretamente a gestão, com servidores concursados e controle social?

Se a instituição usufrui de R$ 24,3 milhões em isenção fiscal, por que o superávit não é revertido em ampliação imediata do atendimento?

Com R$ 133 milhões, a Prefeitura poderia construir 25 novas UBS. Por que esse dinheiro não é aplicado diretamente na rede pública municipal
FONTES DA MATÉRIA (documentos oficiais com links ativos):
Convênios e Repasses Públicos (Prefeitura):
Diário Oficial do Município de Ribeirão Preto (DOM) nº 12.393, de 06 de maio de 2026. Seção Licitações e Contratos – Extrato de Primeiro Termo de Rerrratificação (Convênio com a Santa Casa e com a Beneficência Portuguesa), páginas 8 e 9.
Dados Financeiros da Santa Casa (Superávit, Aplicações, Isenções):
Diário Oficial do Município de Ribeirão Preto (DOM) nº 12.392, de 05 de maio de 2026. Seção Demonstrações Contábeis da Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto (páginas 45 a 56).
• Nota Explicativa nº 5 – Aplicações Financeiras (pág. 50)
• Nota Explicativa nº 22 – Patrimônio Social / Superávit (pág. 46)
• Nota Explicativa nº 28 – Isenções Fiscais (INSS e COFINS) (pág. 54)
• Nota Explicativa nº 3.1 – Repasses públicos detalhados (págs. 48-49)
Acesso em: 07 de maio de 2026.
Classificação e valores oficiais das UBS por porte (Porte IV):
• Ministério da Saúde – Portaria GM/MS nº 340, de 4 de março de 2013 (estabelece a classificação das UBS por porte de I a V, com base no número de Equipes de Saúde da Família).
• Ministério da Saúde – "Qual será o valor para a construção da nova UBS?" (FAQ UBS, atualizado em setembro de 2024). Tabela de valores para construção de UBS por porte e região.
 Nota: Esta matéria baseia-se exclusivamente em dados publicados no Diário Oficial do Município de Ribeirão Preto nas edições de 05 e 06 de maio de 2026, e em parâmetros oficiais do Ministério da Saúde (Portaria GM/MS nº 340/2013 e FAQ UBS 2024). Os cálculos sobre o número de UBS que poderiam ser construídas são da reportagem e têm caráter meramente ilustrativo, considerando apenas o investimento em construção, sem incluir custos de equipamento, manutenção ou pessoal. Os links para acesso direto aos documentos oficiais foram fornecidos para permitir a verificação independente por parte do leitor.

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