A rua amanhece úmida
como um cheiro de ferro.
Na ferrugem do portão,
na maçaneta fria,
Um vento curto
arrasta folhas pelo asfalto
como pequenos animais fugindo.
Caminhas...
Os rostos passam fechados
tal portas de celeiro.
Alguém cruza a calçada
sem levantar os olhos.
E, dentro de ti, algo
duro como um caroço
se move.
Não o vês,
não se vê,
mas sente.
Na dobra de um casaco
vês ameaça;
no silêncio de um estranho,
uma intenção.
O mundo deixou de ser-te vasto.
Estás cheio de espinhos
e etimológico, tradicional,
temente a Deus,
homem de família e patriota ilógico
temes sempre pelo que não te é espelho.
Ultrapassas a rua quase aliviado:
são eles,
são sempre eles.
Eles que endureceram a rua,
eles que carregam o perigo,
eles que trouxeram
a sombra.
E tu, irremediavelmente perfeito,
percebes que não tens parte nisto tudo, neste mundo.
Julgas o campo alheio,
e latifundiário moral
marcas a terra do outro.
Ali cresce
a erva amarga,
as daninhas que devem ser exterminadas.
Mas à noite,
no silêncio,
no desespero próprio,
incubado,
petrificado,
escutas o chão sob os teus pés.
A terra guarda coisas:
ferramentas antigas,
ossos,
sementes esquecidas.
Guarda
o que enterramos depressa
e queremos esquecer.
E, como quem encontra ferro na turfa,
certas sombras
que apressaste em culpar nos ombros alheios
te revelam:
foram cavadas primeiro
com as tuas próprias mãos.
amedrontado
espiado pelas paredes
a base de remédios
adormeces em teu próprio pesadelo
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