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domingo, 21 de junho de 2026

Projeção

 


Portrait of a man with a glasses II
BACON, Francis


A rua amanhece úmida
como um cheiro de ferro.
Na ferrugem do portão,
na maçaneta fria,
a mão hesita em tocar.

Um vento curto
arrasta folhas pelo asfalto
como pequenos animais fugindo.

Caminhas...

Os rostos passam fechados
tal portas de celeiro.
Alguém cruza a calçada
sem levantar os olhos.

E, dentro de ti, algo
duro como um caroço
se move.
Não o vês,
não se vê,
mas sente.

Na dobra de um casaco
vês ameaça;
no silêncio de um estranho,
uma intenção.

O mundo deixou de ser-te vasto.
Estás cheio de espinhos
e etimológico, tradicional,
temente a Deus,
homem de família e patriota ilógico
temes sempre pelo que não te é espelho.

Ultrapassas a rua quase aliviado:
são eles,
são sempre eles.

Eles que endureceram a rua,
eles que carregam o perigo,
eles que trouxeram
a sombra.
E tu, irremediavelmente perfeito,
percebes que não tens parte nisto tudo, neste mundo.

Julgas o campo alheio,
e latifundiário moral
marcas a terra do outro.
Ali cresce
a erva amarga,
as daninhas que devem ser exterminadas.

Mas à noite,
no silêncio,
no desespero próprio,
incubado,
petrificado, 
escutas o chão sob os teus pés.

A terra guarda coisas:
ferramentas antigas,
ossos,
sementes esquecidas.
Guarda
o que enterramos depressa
e queremos esquecer.

E, como quem encontra ferro na turfa,
certas sombras
que apressaste em culpar nos ombros alheios
te revelam:
foram cavadas primeiro
com as tuas próprias mãos.

amedrontado
espiado pelas paredes
a base de remédios
adormeces em teu próprio pesadelo

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