| Exposição reúne cerca de 100 obras produzidas por presas e presos políticos Foto: @filipeaugustoperes |
Mostra inédita "Não se assuste, pessoa" reúne cerca de 100 desenhos, xilogravuras e manuscritos da Coleção Alípio Freire, produzidos dentro de cinco unidades prisionais de São Paulo entre 1969 e 1979, e dialoga com a arte brasileira dos anos 1960 e criações contemporâneas
Em
meio ao regime de exceção instaurado pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5), em
1968, a banda Novos Baianos compôs a canção Dê um rolê como um ato de desafio à
censura e à perseguição. Lançada em 1971, no disco Novos Baianos + Baby
Consuelo no Final do Juízo, a música surgiu logo após alguns integrantes do
grupo deixarem a prisão em Salvador. Mais tarde, na voz inconfundível de Gal
Costa, a canção se transformou em um hino libertário, cujo primeiro verso "Não se
assuste, pessoa" dá título à nova exposição
do Memorial da Resistência de São Paulo.
Inaugurada
em 27 de junho de 2026 (em cartaz até 28 de março de 2027), a mostra apresenta,
pela primeira vez, um recorte extenso e inédito da Coleção Alípio Freire,
incorporada ao acervo do Memorial em 2023. Com curadoria de Tálisson Melo,
historiador da arte e pós-doutorando no Instituto de Estudos Brasileiros da
USP, a exposição reúne cerca de 100 obras selecionadas entre as mais
de 300 que compõem a coleção produzidas por presas e
presos políticos em cinco unidades prisionais paulistas entre
1969, ano do AI-5, e 1979, quando foi
promulgada a Lei da Anistia.
"A
música expressa que, apesar da violência da ditadura, ainda há formas de
encontrar dignidade e exercitar a vida. Isso aparece de maneira visceral nos
desenhos, que são gestos de autonomia subjetiva em meio ao confinamento", explica
o curador Tálisson Melo.
Alípio
Freire: o guardião da memória que transformou a cela em arquivo
Se
a Coleção Alípio Freire existe hoje, é porque um homem, dentro de uma cela,
decidiu que aqueles traços, manchas e palavras não poderiam desaparecer. Alípio
Freire (1945–2021) não foi
apenas um colecionador passivo, foi militante, preso político,
artista plástico, jornalista, poeta, cineasta e, também, um arquivista da resistência.
Nascido
em Salvador em 4 de novembro de 1945, Alípio mudou-se para São Paulo para
cursar Arquitetura na FAU-USP. Foi aluno de Antonio Benetazzo no Cursinho
Universitário e depois seu contemporâneo na faculdade. Em 1966, já jornalista
em exercício, conheceu Benetazzo quando ambos coordenavam o movimento
estudantil, Benetazzo pelo grêmio da Filosofia, Alípio
pela Faculdade Cásper Líbero, preparando a célebre
"Setembrada". Acima da militância política, a convivência
transformou-se em profunda amizade, com pontos comuns de reflexão especialmente
sobre as propostas das artes plásticas.
| FREIRE, Alipio. Um tempo certo. |
Militante da Ala Vermelha, Alípio foi preso
em 31 de agosto de 1969, aos 23 anos, e permaneceu cinco anos recluso, até 2 de outubro
de 1974. Durante esse período, passou pelos presídios paulistanos de Tiradentes
e Carandiru, pela Penitenciária do Estado e pela Delegacia de Ordem Política e
Social (Dops), espaços onde a tortura e o
isolamento eram rotina.
Foi
nesse ambiente de violência extrema que Alípio começou a guardar
sistematicamente seus próprios desenhos e os trabalhos de companheiros e
companheiras de cárcere. Não era uma tarefa simples: em muitas unidades, o
acesso a materiais artísticos era proibido, e a saída de obras dependia de
visitas externas e da conivência de funcionários. Ainda assim, ele persistiu.
"Se Alípio não os
tivesse recolhido, hoje esses trabalhos estariam dispersos. Esse foi um gesto
de preservação da memória mirando o futuro", afirma o
pesquisador e artista plástico Rogério Mourtada Anselmo, autor de uma
dissertação de mestrado em Artes Visuais na Unicamp sobre a coleção, orientada
pela professora Lucia Helena Reily.
O
que moveu Alípio não foi apenas o impulso de guardar papéis. Segundo Mourtada,
a arte, dentro dos presídios, funcionava como uma "nova barbárie
positiva", conceito do filósofo alemão Walter
Benjamin que se refere ao processo pelo qual o ser humano, após um esgotamento
extremo, reconstrói sua realidade e emprega a arte como instrumento de
sobrevivência psíquica.
"Depoimentos como os
de Ângela Rocha e de Sérgio Sister falam da importância do fazer artístico para
se reestruturar como sujeitos. A arte entra como algo que traz conforto e o
sujeito esfacelado encontra um espaço em que pode se reconstruir em um contexto
de escassez", lembra Mourtada.
Uma
vida dedicada à memória e à justiça
| FREIRE, Alipio. Sem título |
Em
liberdade, Alípio dedicou-se ao jornalismo militante, presidindo a seção
paulista da Associação Brasileira de Imprensa (ABI-SP) e integrando o conselho
de redação da revista Teoria & Debate. Foi anistiado pelo Ministério da
Justiça em 2005 e atuou como articulador do Núcleo de Preservação da Memória
Política e da Comissão Nacional da Verdade (2012–2014). À frente
da Divisão Cultural do Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de São
Bernardo do Campo, promoveu pautas ligadas à luta por memória, verdade e
justiça.
Mas
talvez seu legado mais duradouro tenha sido a organização, desde 1976, de uma
série de exposições com os desenhos da coleção muito antes de o tema da
memória da ditadura ganhar espaço institucional. Foram mostras em
universidades, centros culturais, sindicatos e espaços públicos, num esforço
solitário e incansável para que aquelas obras não ficassem esquecidas em
gavetas.
Entre
as exposições que ele organizou ou viabilizou estão a Semana de Anistia (1976),
no DCE/USP; Pequenas insurreições: memórias
(1985), no Centro Cultural São Paulo; O discurso da utopia (1989), no Anhembi; Insurreições:
expressões plásticas nos presídios de São Paulo (2013), no
próprio Memorial da Resistência; e Resistir é preciso (2014), no Centro
Cultural Banco do Brasil, em quatro capitais. Em 2016, realizou a mostra Antonio
Benetazzo: permanências do sensível, no Centro Cultural São Paulo, reafirmando
a amizade que atravessou os muros da prisão.
A
partir de 1984, a coleção passou a ser objeto de exposições também em outros
países, iniciativa que contribuiu para que a memória dos presos políticos fosse
tornada pública internacionalmente e para que novas obras encontradas passassem
a integrar o acervo. Alípio já estava em negociações com várias instituições
para a destinação final da coleção quando faleceu.
| FREIRE, Alípio. Sem título |
Alípio
faleceu em 2021, vítima da Covid-19, aos 75 anos. Sua companheira e militante
política, Rita Sipahi, que também foi presa política e
produziu obras no cárcere, doou integralmente o acervo ao Memorial da
Resistência em 2023, garantindo que o trabalho de uma vida se tornasse
patrimônio público. Hoje, a exposição "Não se assuste, pessoa" é o
desdobramento mais amplo desse gesto inaugural, aquele de um jovem preso
que, num pedaço de papel, viu mais do que um desenho: viu um
documento de humanidade.
Antonio Benetazzo: arte,
militância e o corpo resgatado de Perus
| Antônio Benetazzo |
Entre
os artistas da coleção, a trajetória de Antonio Benetazzo (1941–1972)
ocupa lugar central. Filho de italianos perseguidos pelo fascismo, chegou ao
Brasil com nove anos. Em 1962, ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB)
e, em seguida, cursou Filosofia e Arquitetura na Universidade de São Paulo
(USP), onde presidiu o Centro Acadêmico da Filosofia. Fez parte do Centro
Popular de Cultura (CPC) e foi dirigente da União Nacional dos Estudantes
(UNE).
Em
1967, desligou-se do PCB e aderiu à Ação Libertadora Nacional (ALN), viajando a
Cuba para participação em treinamentos políticos. Após divergências internas e
a morte de Carlos Marighella, ajudou a estruturar o Movimento de Libertação
Popular (Molipo), atuando também como redator do jornal Imprensa Popular.
Paralelamente,
Benetazzo mantinha intensa produção artística, explorando os limites entre
figuração e abstração em crítica ao autoritarismo. O crítico Marco Bologna, em
texto que integra o material da exposição, destaca a radicalidade de sua
pesquisa formal:
"Em Benetazzo, a
ruptura é radical, fundamentada em estudos constantes de períodos contundentes
da História da Arte. A radicalidade dos conflitos históricos praticamente o
conduziu a essa excepcional descoberta: só pode haver obra inacabada para um
mundo em desordem."
Em
1972, com 31 anos, Benetazzo foi capturado por agentes da repressão e levado ao
DOI-Codi de São Paulo, onde foi assassinado sob tortura. O corpo foi enterrado
sem identificação no Cemitério Dom Bosco, em Perus. A versão oficial de
suicídio, segundo a qual ele teria se jogado sob um caminhão, foi
desmentida nos anos 1990 pela Comissão Especial de Mortos e
Desaparecidos.
Na
década de 1980, familiares e movimentos de defesa dos direitos humanos
resgataram seu corpo do cemitério de Perus, que na época recebia da polícia
corpos de presos políticos, indigentes e vítimas do Esquadrão da Morte.
Estima-se que, em uma vala comum no local, haja cerca de 1.500 corpos, 40% deles
de crianças com idade entre zero e oito anos. O caso ganhou
repercussão nacional quando a Prefeitura de São Paulo denunciou a existência do
cemitério clandestino, que levou à descoberta de ao menos mais um corpo, o de
Flávio Molina.
Os
artistas e suas trajetórias
A
exposição reúne obras de um grupo notável de artistas e intelectuais que
compartilharam o cárcere. Muitos já eram artistas ou arquitetos antes da
prisão; outros, porém, tiveram seu primeiro contato com a prática artística
dentro das celas, casos de Cláudio Barriguelli, Wilson
Palhares e da própria Rita Sipahi, que encontraram na arte um meio de expressão
e resistência.
Sérgio Ferro (Curitiba,
1938)
| FERRO, Sérgio. Hamã. |
Pintor,
desenhista, arquiteto e professor. Ao lado de Flávio Império e Rodrigo
Lefèvre, criou o grupo Arquitetura Nova, que propunha uma revisão radical do
papel do arquiteto. Participou de exposições relevantes como Opinião 65 e Nova
objetividade brasileira (1967), no MAM-RJ, e Propostas 65 na FAAP. Preso entre
1970 e 1972 no Deops/SP e no Presídio Tiradentes, após anos de militância no
PCB e em grupos de luta armada como a ALN e a VPR. Exilou-se na França, onde
vive até hoje como professor na Universidade de Grenoble.
Sérgio Sister (São Paulo,
1948)
| Obras de Sérgio Sister |
Cursava
Ciências Sociais na USP e militou no PCB e no PCBr. Preso entre janeiro de
1970 e julho de 1971. Pintava desde 1964 e expôs na Bienal de 1967. No Presídio
Tiradentes, mantinha um "ateliê" junto com Alípio Freire, Rodrigo
Lefèvre e Sérgio Ferro, onde promoviam encontros e discussões sobre arte e
política.
Arthur Scavone (São Paulo,
1949)
Estudante
de Física na USP, companheiro de Benetazzo na ALN/Molipo. Preso de fevereiro
de 1972 até março de 1977. Produziu xilogravuras em Barro Branco que eram
impressas coletivamente pelos companheiros de cela. As obras saíam carimbadas com
a inscrição "Presídio Político de Barro Branco"** uma estratégia
deliberada para forçar as autoridades a reconhecerem que abrigava presos
políticos.
Carlos Takaoka(São Paulo,
1945)
Participante
do movimento estudantil, cursava Ciências Sociais na FFCL da
rua Maria Antônia. Militante do PC do B e um dos organizadores da fundação da
ALN Vermelha. Preso entre 30 de agosto de 1969 e setembro de 1974, período em
que começou a desenvolver sua formação em artes plásticas. Sua obra "Deus Asteca
com a faca ritual", produzida em 1969 com hidrocor sobre papel no Dops-SP,
é um dos destaques da mostra.
Rodrigo Lefèvre(São Paulo,
1938 — Cunha, 1984)
Militante
da VPR, era auxiliar de ensino do Departamento de Projetos da FAU-USP quando
foi preso em dezembro de 1971. Saiu da prisão um ano depois, fez
mestrado e deixou o Brasil em 1983 para projetar um hospital e uma faculdade na
África, onde faleceu.
Os
presídios como espaço de criação e resistência
TAKAOKA, Yoshiya. Lições de japonês para os presos do Tiradenres, 1970 |
A
exposição organiza as obras por unidade prisional, revelando as
particularidades de cada espaço de confinamento. O pesquisador Rogério Mourtada
Anselmo observa que as condições de produção artística variavam entre os
locais. Em espaços clandestinos de tortura, como o Dops, as obras eram mais
simples ou improvisadas. Já em locais como o Presídio Tiradentes e a Casa de
Detenção do Carandiru, voltados ao cumprimento de sentenças, chegava-se a
tolerar a existência de ateliês de arte, e familiares podiam levar materiais
aos presos.
"Trata-se de uma variação nos graus de vigilância e repressão que impactava diretamente na rotina dos presos políticos e nos materiais a que eles tinham acesso", analisa Mourtada.
Presídios Tiradentes (1852–1973)
| KATZ, Renina. Cáceres. |
Inaugurado
em 1852, o Presídio Tiradentes foi o principal destino dos presos
políticos de São Paulo entre 1969 e 1972. Segundo testemunhos, a transferência
para o Tiradentes representava o fim do isolamento e das torturas recorrentes
no DOI-Codi, ainda que as instalações fossem antigas e
inadequadas, e houvesse forte vigilância.
Foi
ali que se formou um verdadeiro ateliê coletivo. A presença de artistas e
arquitetos como Ângela Rocha, Carlos Takaoka, Manoel Cyrillo, Rodrigo Lefèvre,
Sérgio Ferro e Sérgio Sister nutria uma intensa rede de trocas criativas,
inclusive com trabalhos produzidos em conjunto.
As
visitas externas facilitavam a entrada de materiais de desenho e pintura, assim
como a saída de obras e cartas, documentos que hoje
permitem reconstituir a vida no cárcere. Em 1972, os presos
começaram a ser transferidos para outras unidades, e no ano seguinte o prédio
foi demolido para dar lugar à atual Estação Tiradentes do Metrô; seu arco de
entrada, tombado, permanece no local.
Casa
de Detenção (Carandiru) e Penitenciária do Estado
A
Penitenciária do Estado foi inaugurada em 1920 com proposta arquitetônica
moderna e disciplinar. A Casa de Detenção (Carandiru), criada por decreto em
1937, teve seus primeiros pavilhões inaugurados em 1956; em 1975, já abrigava
cinco mil presos. Com a demolição do Tiradentes, ambas passaram a receber
presos enquadrados na Lei de Segurança Nacional.
Cartas
presentes no acervo de Alípio Freire denunciam as condições desumanas: ameaças,
humilhações, isolamento, fome, frio e proibição de acesso a livros e materiais
artísticos. Os desenhos, pinturas e pirogravuras produzidas ali refletem o
horror do confinamento prolongado, mas também carregam demonstrações de afeto e
desejos de liberdade.
| FREIRE, Alípio. Sem título |
A
história de violência associada ao Carandiru atingiria seu ápice em 1992, com o
massacre no qual 111 presos foram assassinados por policiais militares no
Pavilhão 9. Em 2002, o prédio foi implodido, dando lugar ao Parque da
Juventude.
Outras unidades
A
mostra também apresenta obras produzidas no Deops/SP (onde a tortura e o
isolamento eram rotina), no Presídio do Hipódromo e no Presídio Militar Romão
Gomes (conhecido como Barro Branco), completando o panorama da geografia
repressiva paulista.
Arte e resistência: a
"nova barbárie positiva" no cárcere
A
pesquisa de Rogério Mourtada Anselmo na Unicamp aprofunda a compreensão sobre o
papel da arte na vida dos presos políticos. Apoiando-se no conceito de
"nova barbárie positiva" de Walter Benjamin, o estudo mostra como a
arte permitia que os presos se reestruturassem como sujeitos diante do esfacelamento
imposto pela prisão.
A
orientadora da pesquisa, professora Lucia Helena Reily, que já investigou artes
produzidas em contextos adversos como em instituições
psiquiátricas e até campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, comenta
que os sentidos da expressão artística são bastante
pessoais e podem ser instrumentais no processo de elaboração de vivências
difíceis.
"Penso que chamar a
atenção para essa coleção ajuda a dar uma dimensão da importância de buscar
sobrevivência. Nesse sentido, a arte tem um papel muito
importante para o ser humano."
Os
pesquisadores também observaram que as obras da coleção se inscrevem naquela
que ficou conhecida como Nova Figuração Brasileira.
"Nos anos 1940 e 1950,
há um predomínio do abstracionismo e das linguagens não figurativas nas artes.
Na década de 1960, a figuração volta com toda força para dar vazão a questões
sociais e políticas", detalha Mourtada.
Rogério
destaca também uma proximidade com a pop art, a qual nos Estados Unidos
comentava a sociedade de consumo mas no Brasil esses elementos entram como
recursos para denunciar o arbítrio.
"Há uma apropriação
crítica de elementos da pop art, adaptados ao contexto de repressão."
Diálogos com a arte
brasileira e criações contemporâneas
Para
aprofundar a reflexão sobre a produção artística fora do circuito
institucional, a mostra estabelece diálogos entre os desenhos do cárcere e
obras históricas da Pinacoteca de São Paulo, realizadas entre os anos 1960 e
1970 por artistas que atuavam fora das prisões, mas manifestavam consciência
crítica sobre a repressão, a tortura e a luta por liberdade.
O
percurso expositivo também inclui criações contemporâneas dos anos 2010, com
trabalhos de Carla Chaim, Jaime Lauriano e Marilá Dardot, igualmente cedidos
pela Pinacoteca, que atualizam as discussões sobre arte e política no presente.
Completando
o conjunto, o artista Pedro Marighella produziu especialmente para a mostra
duas telas em grande formato, inspiradas em obras de presos políticos da Bahia
e em memórias relacionadas à sua família.
Testemunhos e afetos:
cartas e filmes
| LIRA, Susana. Torre das donzelas (2018) |
A
exposição não se limita às artes visuais. O filme Torre das Donzelas (2018),
dirigido por Susanna Lira, traz para o espaço do museu a presença e o
testemunho de mulheres que vivenciaram o cárcere, dando voz a uma experiência
frequentemente silenciada.
Além
disso, as cartas escritas por Joel Rufino a seu filho dentro do Presídio do
Hipódromo oferecem uma comovente visão afetiva do cotidiano prisional,
revelando como a escrita e o desenho funcionavam como pontes para o mundo
exterior e como instrumentos de preservação da humanidade diante da
desumanização.
Contexto histórico: a
dimensão da repressão
Para
dimensionar a importância da coleção, é preciso lembrar que não existem números
oficiais do total de presos políticos no Brasil durante a ditadura, mas avaliações
da Comissão Nacional da Verdade estimam que até 50 mil pessoas tenham sido
presas durante o regime. A coleção Alípio Freire, com suas mais de 300 obras, é
um testemunho vivo desse contingente silenciado, e a exposição no
Memorial da Resistência traz à luz uma fração significativa dessa produção
artística, muitas vezes relegada ao esquecimento.
Para
Tálisson Melo, a mostra evidencia a complexidade da produção artística em
contextos de exceção:
"Essas pessoas não
necessariamente se entendiam como artistas, mas encontravam no fazer artístico
um meio de exercitar algum nível de autonomia subjetiva, de materialização de
suas ideias, afetos, medos e anseios. Ao lado de obras de artistas consagrados,
vemos como a arte da resistência dialoga formal e conceitualmente com a
produção da mesma época, ampliando nossa perspectiva sobre esse momento da
história do Brasil."
A
diretora técnica do Memorial da Resistência, Ana Pato, reforça o papel da
instituição na preservação dessa memória:
"Ao ampliar as
pesquisas sobre seu acervo, o Memorial reforça seu compromisso em articular
diálogos transdisciplinares sobre a memória dos períodos autoritários,
desdobrando-se na preservação e na criação de reflexões sobre as formas e as
possibilidades de resistência."
Serviço
Exposição:
"Não se assuste, pessoa"
Local:
Memorial da Resistência de São Paulo – Largo General Osório, 66,
Santa Ifigênia
Período:
até 28 de março de 2027
Horário:
de quarta a segunda, das 10h às 18h (fechado às terças)
Entrada:
gratuita
Curadoria:
Tálisson Melo
Uma
realização do Memorial da Resistência de São Paulo, com apoio da Pinacoteca do
Estado e acervo da Coleção Alípio Freire / Rita Sipahi.
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