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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Das salas de aula à grande imprensa, agronegócio replica táticas do tabaco para manipular ciência e opinião pública, denuncia The Intercept

 

O agronegócio está praticando cherry-picking
Foto: @filipeaugustoperes

Utilizando a associação "De Olho no Material Escolar", em painel realizado no 21º Congresso da ABRAJI em São Paulo, editora do Intercept Brasil detalhou como a indústria do agro usa a mesma engenharia de comunicação do tabaco para pressionar editoras, distorcer livros didáticos e capturar a pauta jornalística.

Na última sexta-feira (31), durante o 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da ABRAJI, realizado entre 30 de julho e 1º de agosto na UNIP, em São Paulo, durante a palestra "Estratégias de Combate à Desinformação Ambiental", a editora do Intercept Brasil, Gisele Lobato, denunciou o agronegócio por utilizar a velha tática da indústria do tabaco, semear dúvidas para proteger o lucro. A denúncia revelou uma disputa material pela formação ideológica da classe trabalhadora, que começa nos bancos escolares. Além de Gisele, participaram da mesa, Marcela Maria Martins, Coordenadora de programas em Climate Tracker em América Latina, e Rafael Pino, como mediador, Gerente de Operações da FALA.

Gisele resgatou a história de como, nos anos 1950, a indústria do tabaco financiou pesquisas paralelas para desviar o foco do cigarro como causa do câncer. 

“Muitos cientistas, jornalistas e intelectuais participaram dessa estrutura, não só por dinheiro, mas por aderirem a uma narrativa política. Essa engenharia foi refinada e hoje é usada para proteger o agro e o petróleo”, afirmou.

O exemplo central apresentado foi a série de reportagens "Mentiras Plantadas". A investigação mostrou que o agronegócio, por meio da associação "De Olho no Material Escolar" articulou uma campanha orquestrada para pressionar editoras de livros didáticos, exigindo a retirada de menções a agrotóxicos, desmatamento e conflitos agrários. 

“A pressão é tão grande que até usar a palavra ‘agrotóxico’ parece incomodar. Se você abrir o material escolar e encontrar apenas ‘defensivo agrícola’, saiba que provavelmente teve um peso do agronegócio aí”.

Gisele demonstrou como uma ONG ligada ao setor, utilizando um estudo encomendado à FIA (vinculada à USP), passou a classificar os livros como “ideologizados” pelo simples fato de apresentarem dados factuais sobre a realidade do campo. Ela destacou que a própria ciência é usada de forma seletiva, num claro caso de cherry-picking (ato de escolher a dedo apenas o que convém, selecionando dados, fatos ou itens mais favoráveis enquanto se ignoram propositalmente os demais - na ciência,  É uma falácia lógica onde a pessoa usa apenas os dados que provam seu ponto de vista e esconde as provas que mostram o oposto.), para criar uma falsa controvérsia onde há consenso.

Para a editora, o jornalismo tradicional, pautado pela falsa equivalência e pelo ouvimento acrítico dos "dois lados", atua como um vetor poderoso dessa desinformação.

“Em que momento a nossa prática de reproduzir declarações sem contextualização acaba dando legitimidade à mentira?”, questionou. 

Gisele criticou o declaracionismo que trata como equivalentes o consenso científico e a opinião de um representante da indústria, que tem interesses diretos na manutenção do status quo.

Como saída, Gisele apontou a necessidade de investigação estrutural e econômica. Em vez de apenas contrapor dados, o jornalista deve expor quem realmente lucra com a destruição. 

“Quando vem o argumento de que o desmatamento é desenvolvimento, a gente tem que perguntar: desenvolvimento para quem? O PIB da cidade sobe, mas isso vai para o trabalhador? Não vai. Está na conta offshore”, afirmou. 

Por fim, Lobato defendeu que a complexidade deve ser abraçada: 

“Se a gente mostrar que a divergência científica é natural, mas que o consenso sobre o fim dos fósseis é uma questão de sobrevivência, a gente tira o debate do campo político raso e o coloca no campo dos interesses de classe. Quem ganha com a dúvida? Sempre o mais rico.”

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