Introdução: O Paradoxo Revolucionário
A Revolução Iraniana de 1979 representa um dos eventos mais complexos e paradoxais do século XX, unindo forças progressistas e reacionárias em uma insurreição popular que derrubou uma monarquia autoritária apoiada pelo Ocidente, apenas para estabelecer uma teocracia igualmente autoritária. Esta análise, a partir de uma perspectiva de esquerda, examinará a história dessa revolução, sua base islâmica, os protestos contemporâneos, as dinâmicas regionais e os riscos geopolíticos atuais, considerando sempre as complexidades socioeconômicas e as aspirações democráticas do povo iraniano.
*A Revolução de 1979: Uma Confluência de Forças Contraditórias*
A revolução que culminou em 1979 não foi um evento monolítico, mas uma convergência de movimentos diversos: nacionalistas laicos, intelectuais de esquerda, estudantes liberais, marxistas islâmicos como os Mujahidin-e Khalq, e o amplo movimento religioso liderado pelo aiatolá Ruhollah Khomeini. O regime do Xá Mohammad Reza Pahlavi, embora implementasse certas modernizações (a "Revolução Branca"), era profundamente autoritário, sustentado pela temida polícia secreta SAVAK, e economicamente desigual, com grande concentração de riqueza e corrupção endêmica. Do ponto de vista dessa análise, é crucial reconhecer que a revolução emergiu de legítimas demandas populares por justiça social, independência nacional e participação política. Os discursos de Khomeini habilmente articularam essas demandas com linguagem religiosa, prometendo justiça para os "mustaz'afin" (oprimidos) contra os "mustakbirun" (arrogantes/opressores), conceitos que ressoavam tanto com a teologia xiita quanto com a crítica social. Nesse ensejo, a base islâmica pautada na Teologia da Libertação Xiita sustentou uma ideologia revolucionária islâmica que desenvolveu-se como uma resposta distintamente xiita ao colonialismo, modernização imposta pelo autoritarismo secular. O conceito de "Velayat-e Faqih" (Governo do Jurista Islâmico), centralizado por Khomeini, propunha uma teocracia onde o jurista mais qualificado supervisionaria o Estado para garantir sua conformidade com a lei islâmica. Esta foi uma inovação teológica significativa no xiismo duodecimano, que historicamente mantinha uma relação mais distante entre o clero e o governo durante a ausência do Décimo Segundo Imã.
A revolução apresentava elementos que alguns analistas compararam a uma "teologia da libertação" islâmica, enfatizando a justiça social, a redistribuição de riqueza e a resistência ao imperialismo. Nas primeiras constituições, incorporou-se linguagem sobre direitos trabalhistas, proteção social e propriedade pública dos principais meios de produção. Contudo, na prática, esses elementos progressistas foram frequentemente suplantados por um autoritarismo conservador, especialmente após a eliminação de grupos de esquerda e liberais no período pós-revolucionário. Abre-se a possibilidade de analisar o Irã na contemporaneidade.
O Irã Contemporâneo: Protestos e "Revoluções Coloridas"?
As manifestações que têm ocorrido no Irã nas últimas décadas, com particular intensidade desde 2009, 2017-2018, 2019 e 2022, apresentam características complexas. De uma perspectiva dessa análise essas manifestações parecem ser um mix onde de um lado existe , “as revoluções coloridas" instigadas por potências estrangeiras que incita justas reivindicações para enfraquecer governos estabelecidos ou contrários a lógica estadunidense e de outro, as causas domésticas profundas como: descontentamento econômico crônico (especialmente entre jovens com altas taxas de desemprego), desigualdade de gênero sistêmica, repressão política e aspirações por liberdades civis. Os protestos liderados por mulheres após a morte de Mahsa Amini em 2022 exemplificam essa dinâmica interna. Portanto, certamente existem tentativas de influência externa em qualquer cenário geopolítico sensível às mobilizações massivas e, também, indicam autênticas frustrações sociais. Nesse sentido, pode-se reconhecer que as intervenções estrangeiras buscam instrumentalizar descontentamentos legítimos para objetivos geopolíticos que pouco consideram o bem-estar da população. Estabelece-se assim uma complexa dinâmica regional observada entre o Hezbollah e Inteligência Israelense
O envolvimento do Irã no Líbano através do Hezbollah representa um pilar de sua política externa de resistência ao que considera imperialismo ocidental e sionismo. As alegações de infiltração de agentes israelenses no Hezbollah refletem a intensa guerra de inteligência na região. Israel considera o Hezbollah uma extensão da influência iraniana e uma ameaça existencial, levando a operações contínuas para minar suas capacidades.
Faz-se aqui uma critica tanto a política que pode ser interpretada como intervencionista do Irã quanto a resposta militarista (colonial e racista) israelense, reconhecendo que esta dinâmica serve para justificar militarização e desvio de recursos em ambos os lados, enquanto as populações civis sofrem as consequências. A securitização das relações regionais impede abordagens diplomáticas que poderiam abordar questões de segurança de maneira mais equilibrada.
Isolamento e Vulnerabilidade: Cenários de Conflito
O Irã enfrenta, atualmente, um isolamento diplomático significativo, agravado por sanções econômicas severas, tensões com potências sunitas regionais e um impasse nas negociações sobre seu programa nuclear (para fins pacíficos). Este isolamento cria vulnerabilidades, embora também tenha fortalecido a ideia de resistência e autossuficiência. A possibilidade de um ataque militar ao Irã, seja por Israel, Estados Unidos ou outros atores, representa um risco real com consequências catastróficas regionais e globais. Qualquer cenário de conflito provavelmente desestabilizaria ainda mais o Oriente Médio, afetaria drasticamente a economia energética global e causaria sofrimento humano em grande escala. Cabe enfatizar a necessidade urgente de promover uma desescalada diplomática, apoiando a retomada do acordo nuclear (JCPOA) e promovendo diálogo regional inclusivo. Mas Trump tem corroído qq possibilidade de acordos diplomáticos e sua política de intervenção manifesta a ideia de que quando a bala chega pela porta, a diplomacia sai pela janela.
Conclusão: Entre Revolução e Reforma
Quatro décadas após a revolução, o Irã permanece um paradoxo: uma teocracia com elementos republicanos, uma economia misturada com setores estatais dominantes e privados restritos, e uma sociedade jovem e educada com aspirações contraditórias com as estruturas governamentais. A tensão central permanece entre o impulso revolucionário original (com seus elementos igualitários e anti-imperialistas) e as demandas contemporâneas por liberdades individuais, justiça social e participação democrática.
O Irã rejeita tanto o intervencionismo externo quanto o autoritarismo interno, defendendo o direito à autodeterminação do povo iraniano enquanto critica estruturas de opressão doméstica. Reconhece as legítimas preocupações de segurança regional, mas advoga por soluções diplomáticas e pelo fim de políticas de sanções que frequentemente prejudicam mais a população civil do que as elites governantes. A autodeterminação dos povos não pode ser tutelada pelos interesses de outros países que buscam intervir no Irã. O que se apresenta atualmente é que essas manifestações internas e de protesto contra os Aiatolás somado aos interesses sionistas e norte americano pode promover um duro golpe contra o Irã, afetando diretamente nos interesses econômicos Chineses e estratégicos Russos. É um movimento específico de Washington contra o Sul global.
O futuro do Irã dependerá da capacidade de sua sociedade de navegar entre as pressões externas e as dinâmicas internas, possivelmente desenvolvendo um modelo próprio de mudança que reconcilie sua identidade islâmica com as aspirações democráticas e socioeconômicas de seu povo. Qualquer transformação significativa provavelmente virá de movimentos sociais internos, não de intervenções externas, mas o contexto internacional pode facilitar ou obstruir esses processos. E pelo que se apresenta, tem total potencial em obstruir.
A comunidade internacional, particularmente forças progressistas, deveria apoiar iniciativas de diálogo, reduzir tensões militares e priorizar o bem-estar da população civil iraniana, reconhecendo sua complexidade e resistência frente a décadas de desafios extraordinários.
Autor: Roberto de Barros.