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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Região oeste se organiza e cobra planejamento e presença do poder público municipal

 

SAERP faz reparos na rede

Nos últimos anos, enquanto a tendência da organização e da luta comunitária foi de diminuição, a região oeste de Ribeirão Preto deu exemplo de organização e mobilização comunitária. Por meio do Conseg Oeste, os bairros da região já realizavam uma série de lutas por melhorias e denúncias por abandonos nos bairros. Essa luta se fortaleceu com a ascensão de algumas importantes associações de moradores, com destaque para a AMOIVITA, a  tradicional Associação de Moradores da Vila Tibério, e a ainda mais recente ABARCOESTE (Associação de Bairros do Complexo da Região Oeste), um colegiado de representantes de mais de 30 bairros da região oeste. 

Esta organização tem feito barulho e dado resultados, principalmente na cobrança ao poder público. "Um dos principais problemas da região é o abastecimento de água. A união de forças das entidades representativas da região fez com que o poder público nos ouvisse. Cobramos a Prefeitura, o SAERP, fizemos reuniões. Queremos que venham investimentos em reservatórios, no sentido de resolvermos de vez este problema aqui na região oeste", dise Ricardo Jimenez, presidente da ABARCOESTE.

Na questão da segurança, o Conseg Oeste tem um trabalho de muitos anos com a política de vizinhança solidária. "Trabalhamos a política de vizinhaça solidária através de tutores que representam ruas e bairros há muitos anos e, recentemente, articulamos nossa atuação juntamente com a ABARCOESTE, no sentido de não só trabalhar pela segurança, mas também cobrando a zeladoria urbana", disse Maria Sílvia, presidente do Conseg Oeste.

A força da organização comunitária da região tem atraído inclusive o apoio de vereadores. Alguns mandatos, como o das vereadoras Perla Muller e Duda Hidalgo, têm participado de reuniões e realizado requerimentos a partir das demandas dos bairros.

No último mês de janeiro, foi a vez da Secretaria de Meio Ambiente dar explicações à comunidade local. Em uma reunião ocorrida no Sesi do Planalto Verde, organizada por representantes dos Vizinhos Unidos do Planalto Verde I, Associação de Moradores do Wilson Toni e Abarcoeste, a comunidade cobrou a Prefeitura pela demora nas obras do Parque Rubem Cione, cuja entrega da primeira etapa havia sido prometida pelo Prefeito Ricardo Silva para fevereiro mas que foi adiada para maio.

"Queremos que a Prefeitura reponha o gradil do parque, fiscalize para que não se atire mais entulho e lixo, e que garanta a segurança das pessoas que vivem ao redor do parque", afirmou Maria Lima, representante do Conseg Oeste e da Abarcoeste no Jd Paiva Arantes.

A região oeste, principalmente  a área mais alta, próxima ao anel viário, tem tido um crescimento urbano acelerado nos últimos 20 anos, com vários empreendimentos imobiliários sendo aprovados um atrás do outro pela Prefeitura. O problema, segundo os moradores, é que os investimentos públicos não são feitos na mesma velocidade. "Temos demandas nas áreas da saúde, educação, asistência social, segurança, meio ambiente, mobilidade e abastecimento de água. Queremos que a Prefitura ouça a região oeste antes de tomar decisões. O planejamento urbano precisa ser realizado com a participação comunitária", disse o prediente da Abarcoeste Ricardo Jimenez.

A próxima luta que entra na pauta das entidades representativas da região é a política de resíduos sólidos. A comunidade quer a efeitvação da coleta seletiva e a ampliação dos serviços dos ecopontos, principalmente o que chamam de "cata-trecos", ou seja, um caminhão que faça o transbordo do inservíveis até o ecoponto para as famílas que não podem pagar pelo serviço.


Reportagem Blog O Calçadão

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Comer entre os de Ipanema

 



Imagem da Pedra só Arpoador 
                                                                                    Foto: @filipeaugustoperes


comer entre as pessoas de Ipanema

caminhar e visualizá-las

andando em suas imponentes bicicletas  laranjas

do Itaú 

Fé, cultura e marcam celebração do Dia de Iemanjá no Arpoador, no Rio

 

Cortejo terminou com devotos entregando cestos de rosas a Iemanjá 
                                                   Foto: @filipeaugustoperes

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Sem votos nas periferias, não se ganha eleições em Ribeirão



Ribeirão Preto conta com aproximadamente 480 mil eleitores espalhados por toda a cidade. No entanto, dentro desse universo, há um grupo crucial para que qualquer candidatura alcance a vitória: os eleitores das periferias. Veja alguns exemplos: na região norte, encontramos bairros como Heitor Rigon, Ipiranga, Jandaia, Simioni, Quintinos, Aeroporto, Salgado Filho, Ribeirão Verde, Dutra, Marincek, Valentina, Maria Casagrande, Orestes Lopes, Cristo Redentor, Campos Elíseos, Tanquinho, Vila Mariana e Vila Elisa; na região oeste, estão Jd Paiva, Wilson Toni, Paulo Gomes Romeu, Monte Alegre, Vila Virgínia, Parque Ribeirão e Progresso; na região leste, temos Parque São Sebastião, Jd Juliana, Jd Helena, Servidores, Jd Zara e Vila Abranches; e, por fim, na região sul, o bairro João Rossi.

Esses bairros abrigam uma população trabalhadora cuja realidade difere significativamente da classe média de outras partes da cidade. As demandas, realidades e problemas enfrentados por esses eleitores precisam ser compreendidos e discutidos em profundidade, algo que muitas vezes falta aos candidatos que buscam competir em Ribeirão Preto, especialmente no campo progressista, que historicamente tem se concentrado em atrair o voto da classe média e debater projetos focados nesse perfil.

A ideia de "periferias como centralidade" implica a necessidade de um olhar atento para esse segmento da população, que representa indiscutivelmente 60% ou mais dos eleitores da cidade. É fundamental ter uma presença ativa nesses bairros, entender suas particularidades, dialogar com os moradores, participar de suas lutas e construir uma organização política que tenha legitimidade no território. Identificar os sonhos, desejos e demandas locais é essencial para elaborar projetos e propostas alinhadas a esse conhecimento. Sem essa conexão, a vitória eleitoral em Ribeirão se torna um objetivo distante.

Nos últimos 25 anos, o voto das periferias de Ribeirão Preto passou por transformações significativas. Em 2000, ele foi destinado à candidatura de Antônio Paolcci, que venceu no primeiro turno. A partir de 2004, o eleitorado das periferias passou a apoiar o projeto popular de Darcy Vera, que manteve essa base até 2015. Recentemente, partes importantes desse eleitorado foram conquistadas por Ricardo Silva, que se destacou com uma postura popular em um embate intenso contra a postura elitista de Nogueira, que, mesmo com sua tendência elitista, conseguiu atrair parte desse público em 2016 e 2020. Duas figuras à direita dominando o voto das periferias.

A esperança no campo progressista ressurgiu em 2022, quando Lula e Haddad obtiveram uma votação expressiva na cidade, seguida por uma performance igualmente positiva da chapa de esquerda do PT e PSOL que concorreu à Prefeitura em 2024, quase chegando ao segundo turno e elegendo três vereadoras. As eleições de 2026 podem representar uma nova oportunidade para uma forte votação em favor de Lula em Ribeirão. Se essa votação vier acompanhada de um trabalho de base sólido e consistente, capaz de reconstruir o diálogo com a classe trabalhadora local, teremos um motivo real para sonhar com os anos de 2028 e 2032.

A política demanda um esforço contínuo, pautado por métodos claros e objetivos. É possível, em Ribeirão, construir um projeto para reconquistar a Prefeitura pelo campo progressista, apoiando-se nas conquistas do governo Lula.

Vamos à ação: as periferias precisam ser a nossa prioridade e centralidade.

Ricardo Jimenez - Professor, Presidente da Abarcoeste (Associação de Moradores do Complexo Oeste) e editor do Blog O Calçadão

sábado, 24 de janeiro de 2026

Ato em solidariedade à Venezuela reúne mais de 3 mil pessoas do MST no Pelourinho (BA)

 

Fotos: Filipe Augusto Peres

Por Mariane de Barros

Da Página do MST 


O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) realizou na tarde desta quinta-feira (22) um dos maiores atos no Brasil em solidariedade à Venezuela. As ruas de Salvador no Pelourinho foram ocupadas por uma grande marcha que contou com a participação de cerca de 3 mil pessoas e integrou a programação do 14º Encontro Nacional do MST. 


Com o objetivo de denunciar a invasão dos Estados Unidos na Venezuela e exigir a libertação do presidente Nicolás Maduro e a deputada Cilia Flores, a marcha percorreu o Centro Histórico de Salvador, saindo da Praça Castro Alves em direção ao Terreiro de Jesus. No percurso, o MST pintou de vermelho o Pelourinho, tendo em punho a bandeira da Venezuela. Esse que é um território sagrado marcado também pela resistência do povo negro e indígena brasileiro.


A marcha começou na praça Castro Alves


Já no ato, a mística que foi guiada pela juventude Sem Terra, trouxe o Imperialismo dos Estados Unidos como ponto central de denúncia, pedindo pela libertação de Maduro e Cilia Flores e a retomada de garantias de direitos ao povo venezuelano. Foi conduzido com músicas e poesias que remontam a história de vida e resistência do povo.


Além dos/as trabalhadores/as Sem Terra, também estavam presentes representações das delegações internacionais. O ato político contou com falas de dirigentes das centrais sindicais, de partidos políticos, movimento negro e sem teto, representantes da Venezuela e de outros países, também marcados pela resistência às intervenções dos Estados Unidos, como Cuba, Haiti, Burkina Faso e Palestina, assim como o dirigente do movimento, João Pedro Stédile. 


A representante da Venezuela, Erika Farías, direção do PSUV, prestou solidariedade a todo o povo que luta e apontou a necessidade de denunciarmos a presença do imperialismo que se instaura nos países da nossa América do Sul. “Não vamos deixar as ruas até que Nicolás e Cília Flores sejam libertados. Nós temos o que eles querem e nós vamos aprender, como povo e como governo a cumprir nossos objetivos. Somos um povo vitorioso e vamos vencer, porque temos claro nossos objetivos, que é manter a paz, essa é uma tarefa revolucionária. Não somos e nem vamos ser colônia de nenhum império!”


Já Stédile lembrou o passado do Pelourinho como território marcado pela luta e resistência dos povos que foram escravizados, a fim de honrar e respeitar o solo que conta a história do povo brasileiro, fazendo ligação com a resistência do povo da Venezuela. 


João Pedro Stédile e Érika Farías


Concluiu assumindo seu compromisso e de todo o povo presente em lutar em defesa da Venezuela. “Proponho que a gente faça um juramento de que cada um de vocês, se for necessário, pegue só a sua mochila, o tênis e a nossa bandeira e vão pra Venezuela ajudar o povo venezuelano a derrotar o imperialismo.” 


O ato em Solidariedade à Venezuela encerrou com a canção de Victor Jara que, em sua poética e composição, reafirma o direito dos povos que resistem: “El Derecho de Vivir en Paz”. 


domingo, 11 de janeiro de 2026

A revolução iraniana e os desafios contemporâneos: uma análise de centro esquerda

 



Introdução: O Paradoxo Revolucionário


A Revolução Iraniana de 1979 representa um dos eventos mais complexos e paradoxais do século XX, unindo forças progressistas e reacionárias em uma insurreição popular que derrubou uma monarquia autoritária apoiada pelo Ocidente, apenas para estabelecer uma teocracia igualmente autoritária. Esta análise, a partir de uma perspectiva de esquerda, examinará a história dessa revolução, sua base islâmica, os protestos contemporâneos, as dinâmicas regionais e os riscos geopolíticos atuais, considerando sempre as complexidades socioeconômicas e as aspirações democráticas do povo iraniano.


*A Revolução de 1979: Uma Confluência de Forças Contraditórias*


A revolução que culminou em 1979 não foi um evento monolítico, mas uma convergência de movimentos diversos: nacionalistas laicos, intelectuais de esquerda, estudantes liberais, marxistas islâmicos como os Mujahidin-e Khalq, e o amplo movimento religioso liderado pelo aiatolá Ruhollah Khomeini. O regime do Xá Mohammad Reza Pahlavi, embora implementasse certas modernizações (a "Revolução Branca"), era profundamente autoritário, sustentado pela temida polícia secreta SAVAK, e economicamente desigual, com grande concentração de riqueza e corrupção endêmica. Do ponto de vista dessa análise, é crucial reconhecer que a revolução emergiu de legítimas demandas populares por justiça social, independência nacional e participação política. Os discursos de Khomeini habilmente articularam essas demandas com linguagem religiosa, prometendo justiça para os "mustaz'afin" (oprimidos) contra os "mustakbirun" (arrogantes/opressores), conceitos que ressoavam tanto com a teologia xiita quanto com a crítica social. Nesse ensejo, a base islâmica pautada na Teologia da Libertação Xiita sustentou uma ideologia revolucionária islâmica que desenvolveu-se como uma resposta distintamente xiita ao colonialismo, modernização imposta pelo autoritarismo secular. O conceito de "Velayat-e Faqih" (Governo do Jurista Islâmico), centralizado por Khomeini, propunha uma teocracia onde o jurista mais qualificado supervisionaria o Estado para garantir sua conformidade com a lei islâmica. Esta foi uma inovação teológica significativa no xiismo duodecimano, que historicamente mantinha uma relação mais distante entre o clero e o governo durante a ausência do Décimo Segundo Imã.


A revolução apresentava elementos que alguns analistas compararam a uma "teologia da libertação" islâmica, enfatizando a justiça social, a redistribuição de riqueza e a resistência ao imperialismo. Nas primeiras constituições, incorporou-se linguagem sobre direitos trabalhistas, proteção social e propriedade pública dos principais meios de produção. Contudo, na prática, esses elementos progressistas foram frequentemente suplantados por um autoritarismo conservador, especialmente após a eliminação de grupos de esquerda e liberais no período pós-revolucionário. Abre-se a possibilidade de analisar o Irã na contemporaneidade.


O Irã Contemporâneo: Protestos e "Revoluções Coloridas"?


As manifestações que têm ocorrido no Irã nas últimas décadas, com particular intensidade desde 2009, 2017-2018, 2019 e 2022, apresentam características complexas. De uma perspectiva dessa análise essas manifestações parecem ser um mix onde de um lado existe , “as revoluções coloridas" instigadas por potências estrangeiras que incita justas reivindicações para enfraquecer governos estabelecidos ou contrários a lógica estadunidense e de outro,  as causas domésticas profundas como: descontentamento econômico crônico (especialmente entre jovens com altas taxas de desemprego), desigualdade de gênero sistêmica, repressão política e aspirações por liberdades civis. Os protestos liderados por mulheres após a morte de Mahsa Amini em 2022 exemplificam essa dinâmica interna. Portanto, certamente existem tentativas de influência externa em qualquer cenário geopolítico sensível às mobilizações massivas e, também, indicam autênticas frustrações sociais. Nesse sentido, pode-se reconhecer que as intervenções estrangeiras buscam instrumentalizar descontentamentos legítimos para objetivos geopolíticos que pouco consideram o bem-estar da população. Estabelece-se assim uma complexa dinâmica regional observada entre o Hezbollah e Inteligência Israelense


O envolvimento do Irã no Líbano através do Hezbollah representa um pilar de sua política externa de resistência ao que considera imperialismo ocidental e sionismo. As alegações de infiltração de agentes israelenses no Hezbollah refletem a intensa guerra de inteligência na região. Israel considera o Hezbollah uma extensão da influência iraniana e uma ameaça existencial, levando a operações contínuas para minar suas capacidades.


Faz-se aqui uma critica tanto a política que pode ser interpretada como intervencionista do Irã quanto a resposta militarista (colonial e racista) israelense, reconhecendo que esta dinâmica serve para justificar militarização e desvio de recursos em ambos os lados, enquanto as populações civis sofrem as consequências. A securitização das relações regionais impede abordagens diplomáticas que poderiam abordar questões de segurança de maneira mais equilibrada.


Isolamento e Vulnerabilidade: Cenários de Conflito


O Irã enfrenta, atualmente, um isolamento diplomático significativo, agravado por sanções econômicas severas, tensões com potências sunitas regionais e um impasse nas negociações sobre seu programa nuclear (para fins pacíficos). Este isolamento cria vulnerabilidades, embora também tenha fortalecido a ideia de resistência e autossuficiência. A possibilidade de um ataque militar ao Irã, seja por Israel, Estados Unidos ou outros atores, representa um risco real com consequências catastróficas regionais e globais. Qualquer cenário de conflito provavelmente desestabilizaria ainda mais o Oriente Médio, afetaria drasticamente a economia energética global e causaria sofrimento humano em grande escala. Cabe enfatizar a necessidade urgente de promover uma desescalada diplomática, apoiando a retomada do acordo nuclear (JCPOA) e promovendo diálogo regional inclusivo. Mas Trump tem corroído qq possibilidade de acordos diplomáticos e sua política de intervenção manifesta a ideia de que quando a bala chega pela porta, a diplomacia sai pela janela.


Conclusão: Entre Revolução e Reforma


Quatro décadas após a revolução, o Irã permanece um paradoxo: uma teocracia com elementos republicanos, uma economia misturada com setores estatais dominantes e privados restritos, e uma sociedade jovem e educada com aspirações contraditórias com as estruturas governamentais. A tensão central permanece entre o impulso revolucionário original (com seus elementos igualitários e anti-imperialistas) e as demandas contemporâneas por liberdades individuais, justiça social e participação democrática.


O Irã rejeita tanto o intervencionismo externo quanto o autoritarismo interno, defendendo o direito à autodeterminação do povo iraniano enquanto critica estruturas de opressão doméstica. Reconhece as legítimas preocupações de segurança regional, mas advoga por soluções diplomáticas e pelo fim de políticas de sanções que frequentemente prejudicam mais a população civil do que as elites governantes. A autodeterminação dos povos não pode ser tutelada pelos interesses de outros países que buscam intervir no Irã. O que se apresenta atualmente é que essas manifestações internas e de protesto contra os Aiatolás somado aos interesses sionistas e norte americano pode promover um duro golpe contra o Irã, afetando diretamente nos interesses econômicos Chineses e estratégicos Russos. É um movimento específico de Washington contra o Sul global. 


O futuro do Irã dependerá da capacidade de sua sociedade de navegar entre as pressões externas e as dinâmicas internas, possivelmente desenvolvendo um modelo próprio de mudança que reconcilie sua identidade islâmica com as aspirações democráticas e socioeconômicas de seu povo. Qualquer transformação significativa provavelmente virá de movimentos sociais internos, não de intervenções externas, mas o contexto internacional pode facilitar ou obstruir esses processos. E pelo que se apresenta, tem total potencial em obstruir. 


A comunidade internacional, particularmente forças progressistas, deveria apoiar iniciativas de diálogo, reduzir tensões militares e priorizar o bem-estar da população civil iraniana, reconhecendo sua complexidade e resistência frente a décadas de desafios extraordinários. 


Autor: Roberto de Barros. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O Roteiro Repetido: A Trajetória do Lawfare no Brasil de 2005 a 2026

 

Nesta virada de ano para 2026, o palco da política parece ter cristalizado sua dramaturgia shakespeariana. Para podermos tecer os fios desse enredo e, de forma délfica, tentar prever os acontecimentos que virão a ocorrer em 2026, é preciso promover um recuo de duas décadas e avaliar o que ocorreu no Brasil na esfera política de 2005/2006 em diante.


Esse período situa-se no contexto pós-eleição de 2002. O governo Lula enfrentava dificuldades para governar com base em alianças parlamentares tradicionais, e em 2005 “surgiram” revelações sobre um suposto esquema de pagamentos mensais a parlamentares em troca de apoio político. No ano de 2006, iniciaram-se uma série de investigações formais e posteriores judicializações pelo STF. Esse movimento criou um impacto político e desencadeou uma semente estratégica para a oposição. Esta semente foi catalisada num modus operandi que se iniciou com um marco narrativo de "corrupção sistêmica no PT", estabelecendo uma construção midiático-judicial na qual figuras políticas específicas eram condenadas pela capa do jornal – estratégia que seria ampliada posteriormente.


A partir desse fato, pode-se estabelecer uma observação crítica: (1) enquanto o Mensalão foi tratado como caso isolado de corrupção política, (2) operações subsequentes utilizaram a mesma lógica com alcance ampliado. Foram inúmeras operações, dentre elas a Operação Castelo de Areia (2009), que investigou supostos esquemas de corrupção envolvendo empreiteiras (como o Grupo Camargo Corrêa) e políticos, revelando métodos semelhantes – como cartel de obras e lavagem de dinheiro – antes mesmo de a Lava Jato começar em 2014 (embora tenha sido anulada por questões processuais). O modus operandi dessa operação foi o mesmo de toda a Lava Jato: soltar denúncias na mídia sem provas para criar um clamor popular e, com isso, enfraquecer figuras públicas (normalmente ligadas aos setores progressistas), alterando a correlação de forças políticas – fenômeno conhecido como lawfare.


Em 2014, inicia-se formalmente a Lava Jato, inicialmente focada em lavagem de dinheiro em um posto de gasolina em Brasília. No entanto, ocorreu uma expansão estratégica e ela rapidamente se transformou em investigação sobre contratos da Petrobras, utilizando delações premiadas como método principal. Foi em 2015-2016 que ocorreu o pico da operação, com:


1. Prisão preventiva como regra (inversão da presunção de inocência);

2. Uso midiático de conduções coercitivas para construção de narrativa pública.


Ambos os métodos, já experimentados no Mensalão e na Castelo de Areia, tiveram um foco seletivo em empresas do complexo industrial nacional, especialmente do setor petroquímico e de engenharia pesada, que foi desmantelado em consequência. O impacto econômico sistêmico foi catastrófico, resultando na desarticulação das cadeias produtivas nacionais e na falência ou enfraquecimento de empresas estratégicas (Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, etc.). A operação também levou ao desmonte da capacidade de projeto de infraestrutura nacional, à fuga de capitais e ao desinvestimento em setores estratégicos.


Em suma, a Lava Jato criou um ambiente propício para: a criminalização do financiamento político tradicional (afetando principalmente o PT); a legitimação midiática do discurso de "combate à corrupção" como justificativa para ruptura institucional; e a pressão sobre parlamentares através de processos judiciais. Isso culminou no impeachment – um golpe – de Dilma Rousseff, utilizando-se a narrativa anti-corrupção como véu para remover do cargo uma presidente eleita sem cometimento de crime de responsabilidade. O resultado foi a implementação de uma agenda neoliberal radical (PEC do Teto, reforma trabalhista, desmonte do pré-sal), a abertura para privatizações e a desnacionalização da economia, colocando o Brasil em um patamar de servilismo geopolítico e de desigualdade social intensa e crônica.


O atual Caso Master é, portanto – 20 anos após o Mensalão e 10 anos após o golpe contra Dilma –, uma tentativa da Faria Lima e da mídia do PIG (o braço financeiro e ideológico deste) de repaginar uma Lava Jato 2.0 para promover pressão contra Lula, que entra em 2026 como favorito eleitoral e com popularidade em ascensão. A fórmula é a mesma.


Após as reviravoltas jurídicas – anulação das condenações de Lula, reconhecimento da parcialidade de Sergio Moro, revelações do “Vaza Jato” –, criou-se uma nova estratégia com o mesmo modus operandi. O braço midiático, na figura declaradamente lava-jatista de Malu Gaspar (Globo e companhia), busca criar um novo caso emblemático para reacender a narrativa de corrupção seletiva, associando o governo atual (através do ataque ao STF, especificamente aos ministros que condenaram Bolsonaro) a supostos novos esquemas. Prepara-se, assim, o terreno para a desestabilização política em ano eleitoral, com um objetivo evidente: reativar os instrumentos de lawfare (guerra jurídica) através de uma ciranda maléfica – uma Dança de Shiva – da Faria Lima. Quem acha que essa pressão ficará restrita a Moraes ou Toffoli está completamente enganado. O objetivo é maior: trata-se de enfraquecer todo o grupo mais racional e garantista de uma parca e frágil democracia para, com isso, enfraquecer o governo Lula, que tem conseguido muitos de seus avanços com a participação do STF. Além disso, esse caso omite muitos dos avanços promovidos pelo governo Lula e abre terreno para criminalizar movimentos progressistas, impedindo a consolidação de um novo ciclo político nacional-desenvolvimentista.


Portanto, a sequência histórica demonstra um projeto de poder que utilizou o sistema de justiça como instrumento político, assim representado:


1. Mensalão (2006): Laboratório de criminalização política via mídia e Justiça.

2. Lava Jato (2014-2018): Operação de escala industrial para desarticulação econômica e política nacional.

3. Golpe de 2016: Consequência direta do ambiente criado.

4. Caso Master (atual): Tentativa de reativação do mesmo roteiro.


A mídia hegemônica atua como braço narrativo deste projeto, plantando casos periodicamente para manter a narrativa de "corrupção estrutural da esquerda", enquanto ignora esquemas semelhantes em outros espectros políticos (nesse caso, o próprio Esteves). O objetivo permanece: impedir projetos de desenvolvimento nacional soberano e manter a subordinação do Brasil aos interesses geopolíticos e econômicos externos.


É óbvio que o sistema judiciário brasileiro precisa ser revisto, mas é igualmente preocupante quando se desconsideram certas influências políticas no Ministério Público, na promotoria e no sistema midiático. Não é razoável colocar a política para a polícia, pois toda vez que isso foi feito, a consequência foi lastimável para os setores progressistas do país. Ter uma ala da própria esquerda incapaz de refletir sobre o que está por trás dessa situação é muito temerário e ilustra como ainda existe, no DNA desses setores, o espírito golpista da Lava Jato. Teremos um forte embate em 2026 para que esses espectros de Hamlet não voltem mais.


Roberto Barros.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Debate no Assentamento Mário Lago reafirma reforma agrária como eixo da justiça social e climática


Da esquerda para a direita: Nivalda Alves, Guilherme Cortez, Marcelo Goulart e Joaquim Lauro Sando

Fotos: @filipeaugustoperes

Com falas que denunciaram o papel do agronegócio na crise climática e defenderam a reforma agrária como eixo da justiça social, lideranças políticas e do MST reforçaram, no Mário Lago, a centralidade da luta pela terra para o futuro do país

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Mostra de Cinema Palestino reúne lideranças e fortalece solidariedade internacional em Ribeirão Preto


Fotos: @comitepalestinarp

Exibição do filme Uma Casa em Jerusalém, no Sindicato dos Químicos, contou com palestra sobre a situação atual na Palestina e presença de representantes palestinos, organizações políticas, movimentos sociais e coletivos culturais.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Cúpula dos Povos

 


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quatro dólares por hectare

um café ruim numa esquina de Belém custa mais...

Mostra de Cinema Palestino: Uma casa em Jerusalém e A 200 metros

 


Mostra de Cinema Palestino 

O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Fabricação do Álcool, Químicas e Farmacêuticas de Ribeirão Preto e Região exibirá, no próximo dia 26, o filme "Uma casa em Jerusalém", do diretor Muayad Alayan. Com a curaodria de Jamile Abdel Latif, o filme integra a Programação da Mostra de Cinema Palestino, organizado pelo  Comitê Permanente da Causa Humanitária Palestina e se insere na Comemoração ao Dia Internacional do Povo Palestino. 

terça-feira, 11 de novembro de 2025

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Dois mundos

Cerrado em chamas
Foto: Agência Brasil

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O avião pousou em Belém sob uma névoa quente de umidade amazônica e promessas oficiais. Nos outdoors do caminho até o centro de convenções, lia-se em inglês e verde-limão: “Brasil: The Green Superpower of the Future”. Marina sorriu, amarga. Sabia que cor e slogan não eram a mesma coisa que verdade. Verdade não é market share. Verdade não dá lucro.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Poema à continuidade viva

 

Reunião da Confraria dos Poetas Vermelhos. Foto: Filipe Peres

(Ao camarada Alipio Freire)


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camarada

te escrevo ao além

e te digo:

na maior parte do tempo

estou firme, desperto e inteiro

 

a barbárie se impõe

e as pessoas rezam com o cálculo eleitoral sobre a planilha

 

mas existem contradições:

o valor do afeto não cabe na planilha

e eu continuo a insistir pelo amor

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Manual para uma guerra importada

 

No extermínio surge o termo narcoterrorismo


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no Rio chamam de operação.

em Caracas, chamam de intervenção


é a mesma bala

fabricada no mesmo país

plantando medo em prestações

Poema antibrechtiano

 


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quando a opressão

transparece além-muros do morro

quando o sangue jorra na calçada da planície

atrapalha o almoço em frente à tv

da classe média branca

pessoas brancas

(como eu)

antes de voltarem as costas ao povo negro

à rotina

enjoadas pelo azedume da comida 

escrevem poemas indignados

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

As redes e o sangue

 

EUA mata pescadores sem provas

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No princípio, eram redes e esperança.

Homens do mar lançavam sua fé nas águas,

o sal queimava o rosto e purificava o pão.

O milagre não era o peixe 

era o direito de viver do que o mar dava.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Leão XIV: as periferias clamam por justiça e solidariedade

 

Foto: Divulgação

"...hoje eu digo: terra, teto e trabalho são direitos sagrados, pelos quais vale a pena lutar por eles, e quero que vocês me ouçam dizer: 'Estou dentro! Estou com vocês!'", sublinhou o Papa Leão

Região oeste se organiza e cobra planejamento e presença do poder público municipal

  SAERP faz reparos na rede Nos últimos anos, enquanto a tendência da organização e da luta comunitária foi de diminuição, a região oeste de...