| Da esquerda para a direita: Djalma Ney (PSOL), Manuela Aquino (MST), Annie Hsiou (ANDES-SN) e Mariana Conti (PSOL) Fotos: @filipeaugustoperes |
Encontro na USP debate avanço da extrema-direita, crises globais e estratégias de organização popular diante do crescimento do neofascismo no Brasil e no mundo
Ribeirão Preto sediou, na noite de quinta-feira (13), a Pré-Conferência Internacional Antifascista, encontro que reuniu movimentos sociais, organizações políticas, pesquisadores e representantes institucionais para discutir o avanço da extrema-direita e os desafios da organização popular no atual cenário político mundial. Realizada no Auditório André Jacquemin, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, a atividade integra o processo de mobilização para a Conferência Internacional Antifascista, que ocorrerá em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março.
| Amor Hsiou (ANDES-SN) |
Mediadora da mesa, Annie Hsiou, docente da USP e dirigente
do ANDES-SN, lembrou que a iniciativa busca articular movimentos sociais,
sindicatos, organizações políticas e universidades para debater o avanço de
projetos autoritários e fortalecer estratégias de resistência democrática e
popular.
Entre as convidadas estiveram Mariana Conti, vereadora do PSOL em Campinas; Manuela Aquino, pesquisadora e integrante da Coordenação Estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o vereador Dialma Nery (PSOL), de São Carlos.
MESA REÚNE LIDERANÇAS POLÍTICAS E PESQUISADORAS
Durante a abertura da mesa, Annie destacou que a conferência antifascista surge em um contexto internacional marcado por crises econômicas, conflitos militares e crescimento de movimentos autoritários em diversos países.
De acordo com a docente da USP/Ribeirão Preto, a conferência
pretende reunir organizações de diferentes países para construir análises
comuns e estratégias internacionais de enfrentamento ao fascismo, ao racismo e
às diversas formas de violência política.
CAPITALISMO EM CRISE E DISPUTA GEOPOLÍTICA
| Manuela Aquino (MST) |
A Coordenadora Estadual do MST/SP, Manuela Aquino, situou o debate no contexto de uma crise estrutural do capitalismo a qual combina dimensões econômicas, ambientais e sociais.
Ao iniciar sua fala, a socióloga afirmou que o sistema capitalista sempre atravessou crises ao longo da história, mas que a conjuntura atual apresenta características qualitativamente diferentes.
"A gente vive um momento em que essa crise não tem mais saída dentro do que o próprio capital oferece".
Para Manuela, a recomposição das taxas de lucro tem ocorrido por meio da intensificação da exploração do trabalho e da ampliação da disputa por recursos naturais. A militante sem terra explicou que esse processo se expressa na precarização do trabalho, na expansão do chamado empreendedorismo e na redução de direitos sociais.
Ao mesmo tempo, Aquino destacou que a disputa por minerais estratégicos e terras raras tem ampliado as tensões geopolíticas globais.
"Quando a gente pensa nessas terras raras, 80% delas estão no continente africano e na América Latina".
| “Existe uma transição de poder mundial acontecendo agora” |
Na avaliação da dirigente do MST, integrante do Setor de Gênero, essa disputa econômica está diretamente ligada ao aumento das guerras e ao fortalecimento da indústria bélica.
Aquino afirmou que o mundo atravessa um momento de transição histórica no equilíbrio de poder global, o que tende a intensificar conflitos.
"Existe uma transição de poder mundial acontecendo
agora, e momentos assim na história costumam vir acompanhados de guerras e
disputas muito fortes".
Manuela também ressaltou que a crise climática faz parte desse mesmo processo, citando eventos extremos que vêm se intensificando em diversas regiões do planeta.
Diante desse cenário, a pesquisadora defendeu que movimentos sociais e organizações populares ampliem seus espaços de articulação política e elaboração estratégica.
NEOFASCISMO E CRISE DA DEMOCRACIA
| Mariana Conti (PSOL) |
A vereadora Mariana Conti (PSOL) afirmou que o crescimento da extrema-direita está ligado à crise estrutural do capitalismo contemporâneo.
Para Mariana, o fenômeno atual possui semelhanças com o fascismo histórico, mas também apresenta características próprias.
"O neofascismo é hoje o principal inimigo de classe e dos povos do mundo".
Na avaliação da parlamentar, o avanço desses movimentos ocorre em um contexto de desigualdade social extrema.
Conti destacou que o mundo vive uma fase de concentração
inédita de riqueza, na qual um pequeno grupo de indivíduos controla recursos
equivalentes aos de bilhões de pessoas. A vereadora de Campinas ressaltou que
essa desigualdade gera crises sociais profundas e enfraquece as bases da
democracia.
Ao mesmo tempo, destacou que o cenário atual também é
marcado pela crise climática e por conflitos geopolíticos.
Integrante da Global Sumud Flotilla, a vereadora citou a situação da Palestina como um dos exemplos mais dramáticos desse contexto.
"A Palestina é um laboratório para o mundo, tanto no teste de armas quanto na construção de modelos de controle político".
| "Quando há mobilização social, é possível emparedar a extrema-direita". |
A vereadora do PSOL ainda lembrou a importância da solidariedade internacional e mencionou sua participação na Flotilha da Liberdade, iniciativa internacional em apoio ao povo palestino.
Para a parlamentar, experiências de mobilização popular demonstram que a extrema-direita pode ser enfrentada.
"Quando há mobilização social, é possível emparedar a extrema-direita".
FASCISMO BRASILEIRO E DISPUTA POLÍTICA
| Djalma Nery (PSOL) |
O vereador Djalma Nery (PSOL) trouxe para o debate uma
reflexão sobre as raízes históricas do autoritarismo no Brasil.
Djalma, em sua fala, afirmou que o país possui uma tradição própria de movimentos autoritários que antecede o fenômeno contemporâneo da extrema-direita.
"O Brasil tem a sua própria versão do fascismo, que foi o integralismo".
Dialma explicou que muitos elementos simbólicos daquele movimento continuam presentes no discurso político atual, como o lema "Deus, pátria e família".
O vereador também chamou atenção para a permanência de ideologias autoritárias associadas à chamada cultura bandeirante no interior paulista. Para Nery, parte do conservadorismo contemporâneo dialoga com esse legado histórico.
Ao analisar o cenário internacional, Dialma destacou que o mundo atravessa um período de intensificação das disputas geopolíticas e citou conflitos envolvendo Palestina, Venezuela, Irã e Ucrânia como exemplos desse cenário.
"Se a ofensiva é global, a resistência também precisa ser global".
| "Se a ofensiva é global, a resistência também precisa ser global" |
Segundo o parlamentar, a derrota eleitoral do bolsonarismo em 2022 não representou o fim da extrema-direita no Brasil. Na sua avaliação, o bolsonarismo continua sendo um campo político organizado e com forte presença social. Por isso, afirmou, o enfrentamento ao fascismo exige tanto mobilização social quanto disputa institucional.
MOVIMENTOS SOCIAIS E ORGANIZAÇÕES LOCAIS
Após as falas da mesa principal, representantes de diferentes organizações sociais e coletivos da região realizaram falas de saudação ao encontro.
Samuel Filipini (Sintusp)
Marília Equi (Sintusp)
Juarez Júnior (Resistência Caipira Antifascista)
Estevan Campos (PSOL)
Jacqueline Moraes (PSOL)
Marc Tristão (UFSCar)
Flávia Meziara (Marcha da Maconha)
Paulo Cunha (Movimento Ecossocialista Florestinha Urbana)
"Falar da Palestina é falar todos os dias. Nosso povo está morrendo de fome, de sede, morrendo por tiros e por bombas”.
| Fátima Suleiman (Comitê Permanente da Causa Humanitária Palestina) |
Na saudação aos presentes, representantes de diferentes movimentos também destacaram pautas relacionadas à luta antirracista, à defesa dos direitos humanos, ao combate ao encarceramento em massa e à importância da organização popular para enfrentar o avanço da extrema-direita.
FALAS FINAIS REFORÇAM UNIDADE E MOBILIZAÇÃO POPULAR
Nas considerações finais da mesa, os participantes retomaram a importância da articulação política e da mobilização social diante do avanço da extrema-direita no Brasil e no mundo.
A vereadora Mariana Conti destacou que o enfrentamento ao
neofascismo exige unidade política, elaboração estratégica e fortalecimento das
lutas sociais.
"É fundamental construir unidade para derrotar o neofascismo e o bolsonarismo, mas também fortalecer um campo popular conectado com as lutas sociais".
De acordo com a integrante da Global Sumud Flotilla, a mobilização popular continua sendo a principal ferramenta para enfrentar projetos autoritários.
| "A única forma de combater o fascismo é com luta social. Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem” |
Já o vereador Dialma Nery afirmou que um dos desafios centrais do período é reconstruir o debate político com a sociedade, diante de um cenário marcado pela radicalização e pela transformação do adversário político em inimigo.
"Hoje há uma tentativa de transformar qualquer divergência em guerra. O adversário político deixa de ser adversário e passa a ser tratado como inimigo".
Para Dialma, iniciativas como a Pré-Conferência Antifascista são fundamentais para fortalecer redes de articulação entre movimentos sociais e organizações políticas.
"Se a ofensiva autoritária é global, a resposta também precisa ser construída de forma coletiva e internacional".
Ao final da atividade, a dirigente do MST Manuela Aquino também registrou solidariedade ao coletivo cultural Samba da Opinião, grupo musical autoral que organiza rodas de samba e atividades culturais em espaços públicos de Ribeirão Preto.
Manuela lembrou que o coletivo tem sido alvo de ataques de setores conservadores da cidade.
"Quero deixar aqui toda solidariedade aos companheiros do Samba da Opinião, que têm sofrido ataques da extrema-direita em Ribeirão Preto".
Manuela destacou que o coletivo realiza há anos atividades culturais abertas ao público, levando música e debate político para espaços públicos da cidade.
"Eles ocupam as praças da cidade com cultura gratuita e isso também é uma trincheira importante da luta política".
MOBILIZAÇÃO INTERNACIONAL
A pré-conferência em Ribeirão Preto integra um conjunto de encontros preparatórios realizados em diversas cidades brasileiras para a Conferência Internacional Antifascista, que reunirá organizações e movimentos de diferentes países.
Segundo os organizadores, o objetivo é ampliar o debate
público sobre o avanço da extrema-direita e fortalecer redes de solidariedade.
Mais fotos
Todas as fotos podem ser livremente utilizadas pelos movimentos, organizações, partidos políticos e entidades participantes desde que deem os devidos créditos: @filipeaugustoperes
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