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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Mais de 60% dos beneficiários de 2014 deixaram o Bolsa Família até 2025

 

Foto: Lyon Santos / MDS

Estudo da FGV com base em microdados do MDS aponta mobilidade intergeracional, maior inserção no mercado formal e reforço de mecanismos de transição para o trabalho. Pesquisa da FioCruz também revela impacto do BF sobre queda no número de suicídios no país


Um estudo da FGV publicado no final de 2025 acompanhou ao longo de dez anos crianças e adolescentes beneficiários do Bolsa Família em 2014 e revelou que 60,68% deles deixaram o programa até 2025. A pesquisa, intitulada Filhos do Bolsa Família: Uma análise da última década do programa, foi elaborada a partir de microdados administrativos do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), com apoio da FGV.


O levantamento analisou famílias que recebiam o benefício em 2014 e acompanhou a trajetória dos filhos ao longo de uma década, cruzando informações do Cadastro Único (CadÚnico), folhas de pagamento do programa e dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS). O foco foi medir não apenas a saída do Bolsa Família, mas também a saída do CadÚnico e a inserção no mercado formal de trabalho.


Jovens lideram a saída do programa


Os resultados mostram que a saída foi ainda mais expressiva entre aqueles que eram adolescentes em 2014. Entre os que tinham de 11 a 14 anos à época, 68,8% deixaram o programa até 2025. Já na faixa de 15 a 17 anos, o percentual alcança 71,25%.


A análise indica que a geração que cresceu sob as condicionalidades do Bolsa Família, frequência escolar e acompanhamento em saúde, alcançou maior autonomia na fase adulta. O estudo registra também saída significativa do CadÚnico e aumento da inserção no setor formal, apontando indícios de mobilidade socioeconômica.


Trabalho formal faz diferença


Um dos achados mais relevantes está relacionado às condições de trabalho da pessoa de referência da família. Quando o responsável tinha emprego com carteira assinada em 2014, a taxa de saída dos jovens do Bolsa Família chegou a 79,4%.


Os dados reforçam que o tipo de ocupação importa. Famílias vinculadas a empregos formais apresentaram desempenho superior na transição para fora do programa. Além disso, a escolaridade dos pais também se mostrou determinante: quanto maior o nível de instrução, maior a probabilidade de saída na geração seguinte.


Diferenças regionais e sociais


A pesquisa identificou disparidades regionais. Regiões urbanas e economicamente mais dinâmicas registram taxas mais altas de saída. No comparativo por macrorregião, Sul, Centro-Oeste e Sudeste apresentam percentuais superiores aos do Norte e Nordeste.


O contexto socioeconômico inicial também influencia. Jovens oriundos de famílias em extrema pobreza ou com infraestrutura domiciliar precária apresentaram menores taxas de desligamento do programa. Esses dados indicam que, embora haja mobilidade significativa, a desigualdade estrutural ainda impõe barreiras.


Em relação a gênero e raça, os resultados mostram diferenças importantes, sugerindo que fatores históricos e estruturais continuam influenciando as trajetórias individuais.


Regra de Proteção e Acredita reforçam transição


O estudo também analisa o impacto dos mecanismos institucionais implementados nos últimos anos, como a Regra de Proteção e o Programa Acredita. A Regra de Proteção permite que famílias que superem o limite de renda permaneçam temporariamente com 50% do benefício, suavizando a transição para o mercado de trabalho e reduzindo o risco de retorno imediato à pobreza.


Entre 2023 e 2025, o programa registrou, em média, mais saídas do que entradas mensais: aproximadamente 447 mil desligamentos contra 359 mil inclusões nos primeiros três anos analisados.


Já o Programa Acredita ampliou o acesso ao microcrédito produtivo orientado, com foco no público do CadÚnico, especialmente nas regiões Norte e Nordeste e entre mulheres empreendedoras. Os dados apontam aumento no número de negócios formais e maior abertura de empresas nesse público.


Plataforma de mobilidade


Nas considerações finais, o estudo conclui que o Bolsa Família não atua apenas como política de alívio imediato da pobreza, mas como plataforma de acesso a melhores oportunidades. A saída majoritária dos filhos do programa sugere padrões intergeracionais favoráveis e indica que a combinação entre transferência de renda, políticas de inclusão produtiva e proteção social pode produzir mobilidade sustentável.


Embora o cenário não seja homogêneo e ainda existam desigualdades regionais e estruturais, a análise da última década aponta que o programa tem contribuído para romper ciclos de pobreza na base da distribuição de renda brasileira.


Estudo nacional aponta que Bolsa Família pode reduzir mortes por suicídio no Brasil


Um novo estudo científico publicado em 2025 na revista BMJ Public Health aponta que o programa de transferência de renda Bolsa Família também esteve associado a uma redução no risco de suicídio entre pessoas em situação de vulnerabilidade social no Brasil.


A pesquisa — intitulada “Pathways to suicide prevention: a population-based cohort study of the mediating role of Bolsa Família in psychosocial stressors in the 100 million Brazilian cohort” foi conduzida por um grupo de pesquisadores brasileiros liderados por Patrícia Fortes Cavalcanti de Macêdo, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e envolve uma das maiores bases de dados já analisadas no país.


Publicado em BMJ Public Health em 2025, o estudo utilizou a chamada Coorte (grupo de pessoas acompanhado ao longo do tempo para observar determinados desfechos) de 100 Milhões de Brasileiros,  um enorme banco de dados que reúne informações administrativas de pessoas inscritas no Cadastro Único entre os anos de 2008 e 2015. Essa coorte permite cruzar dados de registros de saúde, internações e óbitos em um grande recorte populacional, especialmente entre famílias de baixa renda.


Segundo os pesquisadores, o objetivo foi compreender como fatores psicossociais como violência, impulsividade e transtornos mentais se relacionam com o risco de suicídio, e qual o papel mediador do Bolsa Família nessas relações. Ou seja: a análise não se limitou a observar se há associação entre pobreza e suicídio, mas se a participação no programa atua como um mecanismo que reduz o impacto desses estressores no risco de morte por suicídio.


Como o estudo foi realizado


A equipe analisou mais de 22 milhões de pessoas com 10 anos ou mais de idade que constavam no Cadastro Único, cruzando seu histórico com dados de internações hospitalares por violência interpessoal, lesões acidentais, internações psiquiátricas e registros de óbitos por suicídio. Foram aplicados modelos estatísticos robustos, conhecidos como modelos de mediação em equações estruturais, para avaliar se o recebimento do Bolsa Família influenciou a relação entre os fatores psicossociais e o desfecho de suicídio.


Foram considerados três grupos principais de exposição:


Violência interpessoal (como internações por agressões ou violência doméstica);

Impulsividade (medida a partir de internações por lesões não intencionais);

Transtornos mentais (internações com diagnóstico psiquiátrico).


O programa Bolsa Família foi tratado como uma variável mediadora. Como desfecho principal, a equipe examinou a ocorrência de mortes por suicídio, classificadas de acordo com códigos internacionais de doenças.


Principais resultados


Os achados mostram que:


Pessoas expostas à violência e a transtornos mentais apresentaram maior risco de suicídio;


A participação no Bolsa Família foi associada a diminuições tanto diretas quanto indiretas no risco de morte por suicídio em contextos de violência e de transtornos mentais;


Não foi observada mediação significativa do Bolsa Família no caso de impulsividade, sugerindo que esse tipo de fator pode responder de maneira diferente às políticas sociais.


De forma mais clara, segundo os autores: grupos que viviam em situações de violência ou lidavam com transtornos mentais e que estavam vinculados ao programa apresentaram uma redução no risco de suicídio, indicando que o Bolsa Família pode funcionar como um fator de proteção social capaz de atenuar determinantes sociais do sofrimento psíquico.


O que isso significa para políticas públicas


Os pesquisadores defendem que os resultados reforçam a importância de políticas públicas integradas que combinem transferência de renda com estratégias de saúde mental, ações de prevenção à violência e serviços comunitários de apoio psicossocial como os oferecidos por CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), CRAS e CREAS.


Essa abordagem, dizem eles, poderia potencializar a prevenção do suicídio em populações vulneráveis, indo além do tratamento clínico isolado para abarcar determinantes sociais mais amplos.


Conclusões do estudo


Publicado em 2025, o estudo conclui que o programa Bolsa Família não apenas reduz a pobreza, mas também pode contribuir para a redução de mortes por suicídio em grupos expostos a fatores de risco psicossociais — particularmente violência e transtornos mentais. Os resultados apontam para a necessidade de ampliar políticas sociais que fortaleçam redes de apoio, reduzam desigualdades e atuem de forma integrada na promoção da saúde mental no Brasil.


Leia os estudo na íntegra clicando aqui e aqui



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