| Gaza destruída |
1
companheiros,
o relógio não está quebrado
está armado
o tratado expirou
como quem apaga a luz do quarto
e diz:
“Durmam tranquilos”
mas não há sono
as ogivas bocejam
com dentes de urânio
chamavam isso de equilíbrio
chamavam isso de dissuasão
chamavam isso de segurança
agora chamam de
“circunstâncias extremas”
extrema é a fome
interna
externa
extrema a mãe que procura pão
no orçamento que virou míssil
extrema a criança
que aprende a palavra hipersônico
antes de aprender colheita
modernizam a tríade
como quem reforma a própria casa
pintam de branco as bombas
falam em precisão
falam em alvos militares
falam em primeiro uso
como quem discute o primeiro beijo
2
herdamos o silêncio
das inspeções suspensas
e a matemática obscena
dos bilhões investidos
em empresas que fabricam
o fim do mundo
em parcelas
dizem ser melhor atacar forças
do que cidades
como se os mortos,
na maioria civis,
mulheres e crianças,
não residissem em cidades
como se as forças
não se concentrassem em cidades
chamam isso de contra-força
eu chamo de contra-vida
de extermínio
de genocídio
(não, não tenho metáfora para estes nomes
sou mau poeta)
a Líbia entregou sua arma
e entregou também sua pele
a Coreia guardou a sua
como quem guarda um guarda-chuva
numa cidade
onde chovem tentativas de impérios
há zonas livres de armas nucleares,
há tratados que ninguém poderoso assina,
há um tabu contra testes
que vigia o planeta
como um sismógrafo moral
ainda funcionando
3
o principal freio foi retirado
como um último parafuso
de um avião
já em pleno voo
vivemos três crises
de estabilidade,
de legitimidade,
de consciência
o mau poeta acrescenta uma quarta:
de memória
esquecemos Hiroshima
como quem esquece
uma data incômoda no calendário
e as bombas
continuam a lustrar os crânios dos mortos
para que brilhem
como medalhas
não,
não há neutralidade
no cogumelo atômico
nas armas químicas
nos drones,
armas de longo alcance
homens armados
sim, porque quem mata são os homens
e por isso me dirijo a eles
não, não há neutralidade em mim
absurdo, absorvo todo o sórdido
e impreciso, escrevo
queria ser Drummond
mas não,
não dou esperança mínima a ninguém
4
defendo a vida
como quem planta arroz
sobre os escombros do medo,
inútil?
não aceito, educadamente,
que alguns poucos Estados
tenham licença divina
para aniquilar a espécie
para me aniquilar
ametafórico
afirmo que o mundo não precisa de mais ogivas
mas de mãos humildes
serenas e em comunhão
mais interessadas em colher
do que em apertar botões
não, não quero declarar o fim do mundo.
precisa da precisão de pessoas empáticas
para que a palavra humanidade
volte a ser mais pesada
que qualquer bomba.
Um comentário:
Brilhante! 👏🏼👏🏼👏🏼
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