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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Manual de Sobrevivência para um Mundo Nuclear

Gaza destruída


1 


companheiros,

o relógio não está quebrado 

está armado


o tratado expirou

como quem apaga a luz do quarto

e diz:

“Durmam tranquilos”


mas não há sono

as ogivas bocejam

com dentes de urânio


chamavam isso de equilíbrio

chamavam isso de dissuasão

chamavam isso de segurança

agora chamam de

“circunstâncias extremas”


extrema é a fome

interna

externa

extrema a mãe que procura pão

no orçamento que virou míssil

extrema a criança

que aprende a palavra hipersônico

antes de aprender colheita


modernizam a tríade

como quem reforma a própria casa

pintam de branco as bombas

falam em precisão

falam em alvos militares

falam em primeiro uso

como quem discute o primeiro beijo


2


herdamos o silêncio

das inspeções suspensas

e a matemática obscena

dos bilhões investidos

em empresas que fabricam

o fim do mundo

em parcelas


dizem ser melhor atacar forças

do que cidades

como se os mortos,

na maioria civis,

mulheres e crianças,

não residissem em cidades

como se as forças

não se concentrassem em cidades


chamam isso de contra-força

eu chamo de contra-vida

de extermínio 

de genocídio

(não, não tenho metáfora para estes nomes

sou mau poeta)


a Líbia entregou sua arma

e entregou também sua pele

a Coreia guardou a sua

como quem guarda um guarda-chuva

numa cidade

onde chovem tentativas de impérios


há zonas livres de armas nucleares,

há tratados que ninguém poderoso assina,

há um tabu contra testes

que vigia o planeta

como um sismógrafo moral

ainda funcionando


3


o principal freio foi retirado

como um último parafuso

de um avião

já em pleno voo


vivemos três crises 

de estabilidade,

de legitimidade,

de consciência


o mau poeta acrescenta uma quarta:

de memória


esquecemos Hiroshima

como quem esquece

uma data incômoda no calendário


e as bombas 

continuam a lustrar os crânios dos mortos

para que brilhem

como medalhas


não,

não há neutralidade

no cogumelo atômico

nas armas químicas 

nos drones, 

armas de longo alcance

homens armados


sim, porque quem mata são os homens

e por isso me dirijo a eles


não, não há neutralidade em mim

absurdo, absorvo todo o sórdido

e impreciso, escrevo


queria ser Drummond

mas não,

não dou esperança mínima a ninguém



defendo a vida

como quem planta arroz

sobre os escombros do medo,


inútil?

não aceito, educadamente,

que alguns poucos Estados

tenham licença divina

para aniquilar a espécie

para me aniquilar


ametafórico

 afirmo que o mundo não precisa de mais ogivas


mas de mãos humildes

serenas e em comunhão 

mais interessadas em colher

do que em apertar botões


não, não quero declarar o fim do mundo.


precisa da precisão de pessoas empáticas 

para que a palavra humanidade

volte a ser mais pesada

que qualquer bomba.

Um comentário:

Anônimo disse...

Brilhante! 👏🏼👏🏼👏🏼

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