Páginas

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Vigília

 


acordo antes do sol

e a madrugada me soletra o nome


às quatro e meia,

o mundo ainda é silêncio,


dentro de mim:

tambores 

sangue, músculo, desejo


bebo a mistura espessa da terra,

cacau e raiz,

fruto e fogo 

como quem engole

a própria vontade inútil de permanecer

diante do tempo


calvo me cavo em covas 

minha cabeça nua aprende o frio

e meu pensamento exposto

como campo aberto antes da chuva


levanto pesos

para lembrar que a matéria responde,

ao meu corpo

a tudo que não consigo nomear

em mim


não , meu o corpo não é argumento

e contra a desistência

conto com permanecer vivo


fotógrafo

aprisiono instantes

e me escondo


fatos:

legendo

levo em consideração o incômodo humano

o fundo e o profundo

e libertino

me liberto depois

na retina alheia

de minha própria miséria 


tento capturar o contraditório movimento

para provar-me que tudo passa

esconder minhas contradições 


mas não passa…


escrevo sobre homens e mulheres da terra,

sobre mãos rachadas

que sustentam cidades de pessoas invisibilizadas


se denuncio,

não grito 

faço da frase uma enxada


amo e me despeço do espaço

com a fita métrica do desejo


feito de combustão 

e de incêndios

de relatos e poema

de estatística e pele

olho para cima:

as estrelas não são metáforas 

nem cicatrizes luminosas

mas luz morta a iluminar-me a esperança 


olho para dentro

há um campo em disputa,

e eu o cultivo


sou gente:

entre a luta e o beijo,

entre a denúncia e o suor,

ninguém me escreve 


nesse exato instante

eu me leio

Nenhum comentário:

Vigília

  acordo antes do sol e a madrugada me soletra o nome