acordo antes do sol
e a madrugada me soletra o nome
às quatro e meia,
o mundo ainda é silêncio,
dentro de mim:
tambores
sangue, músculo, desejo
bebo a mistura espessa da terra,
cacau e raiz,
fruto e fogo
como quem engole
a própria vontade inútil de permanecer
diante do tempo
calvo me cavo em covas
minha cabeça nua aprende o frio
e meu pensamento exposto
como campo aberto antes da chuva
levanto pesos
para lembrar que a matéria responde,
ao meu corpo
a tudo que não consigo nomear
em mim
não , meu o corpo não é argumento
e contra a desistência
conto com permanecer vivo
fotógrafo
aprisiono instantes
e me escondo
fatos:
legendo
levo em consideração o incômodo humano
o fundo e o profundo
e libertino
me liberto depois
na retina alheia
de minha própria miséria
tento capturar o contraditório movimento
para provar-me que tudo passa
esconder minhas contradições
mas não passa…
escrevo sobre homens e mulheres da terra,
sobre mãos rachadas
que sustentam cidades de pessoas invisibilizadas
se denuncio,
não grito
faço da frase uma enxada
amo e me despeço do espaço
com a fita métrica do desejo
feito de combustão
e de incêndios
de relatos e poema
de estatística e pele
olho para cima:
as estrelas não são metáforas
nem cicatrizes luminosas
mas luz morta a iluminar-me a esperança
olho para dentro
há um campo em disputa,
e eu o cultivo
sou gente:
entre a luta e o beijo,
entre a denúncia e o suor,
ninguém me escreve
nesse exato instante
eu me leio
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