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quarta-feira, 1 de abril de 2026

1º de abril

 




1

 

62 anos

aos que tombaram, aos que persistem


não, não conheci a noite na noite

essa noite que cruzava esquinas

para avistar o sinal

junto com o medo

 

companheiras e companheiros viveram no tempo do aço

no tempo do fuzil e do silêncio constante


graças às suas lutas

depois a noite se fez dia

mas o medo ficou

 

xeque-mate à memória...?

o país coroado com o silêncio?

 

os olhos vidrados sem espanto

e, plantada a ausência,

a rosa vermelha no chão...

 

quando telefonavam clandestinos

para encontros clandestinos

identificavam-se com nomes

que não eram seus

conheci, posteriormente, um deles:

Biu

 

eram afáveis,

atiradores certeiros

 

62 anos depois

a linha morreu?

os esquecemos?

acabou a poesia?

 

há que haver

sobrado

alguma poesia

há que haver

pelo menos

a certeza

emblemática

de que

a luta continua

 

apesar das sombras

apesar das valas

apesar da anistia

que anistiou

quem nunca pediu

 

2

 

o velho anotava no metrô

seu poema velho

da resistência

suas brumas

do que houve de mais velho

quando era demais jovem

com a memória em 64

os pés no tempo presente

a cabeça em 68

as formas de 22

e o coração atemporal

 

o velho anotava seu poema

sua poesia não datada

atemporal

 

3

 

a sorte está lançada

e o destino ainda não nos foi tomado

 

em suspensão pelos tempos tensos

o tempo se resguarda em cabeça baixa

nos passos dos silenciamentos constantes

 

alguns resistentes

seguem

 

às vezes em sofrimento e contrição

mas carregado

na palma de cada mão

que ainda insiste

em abrir

a ferida

para que não se feche

a história

 

garimpo solitário a cada treva

os arquivos e suas lacunas

os corpos e suas ausências

as leis e seus perdões

escuto cada um deles

escuto cada uma delas

depuro elemento por elemento

ainda posso saber?

ainda posso alcançar?

espero que sim

 

a aurora tem um desenho humano

traçado por mestres de obras

que não pediram para ser heróis

apenas para ser

presentes

 

4

 

camaradas,

a memória avançará

inexorável

avassaladora

contra a narrativa única

apesar de todas as nossas perdas

apesar deste tempo anticientífico

de teologias e domínios


apesar do silenciamento dos mais de 60 anos

de toda terra plana

dos Chicagos Boys

repaginados em Missão e Novos

este novo integralismo

     

como retomou, certa vez,

um camarada que sinto e estimo tanto:

eppur si muove.

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