quarta-feira, 1 de março de 2017

Elizeth Cardoso: a Divina! Por Sandro Cunha

Arte: Elifas Andreato

     Elizeth Moreira Cardoso, nascida em 16 de julho de 1920, perto do morro de Mangueira, recebeu o título de Divina do produtor musical Haroldo Costa, após se transformar em uma das maiores divas da canção brasileira e uma das mais talentosas intérpretes de todos os tempos, reverenciada pelo público e pela crítica.

     Seu talento musical começou a aflorar a partir dos cinco anos de idade, quando ao subir no palco do clube de danças Kananga do Japão, convocou o pianista e cantou: “Zizinha, Zizinha, Zizinha, minha santinha, ó vem comigo, vem meu amorzinho, também quero tirar minha casquinha”.
     Trabalhando desde os dez anos para ajudar a família, foi balconista, funcionária de uma fábrica de saponáceos e cabeleireira, até ser descoberta por Jacob do Bandolim, cantando na festa dos seus dezesseis anos, quando foi convidada pelo músico a fazer um teste na Rádio Guanabara, no qual foi aprovada e passou a participar do programa Suburbano, ao lado de Vicente Celestino, Araci de Almeida, Moreira da Silva, Noel Rosa e Marília Batista.        
     Ingressando no Teatro de Revista em 1939, conheceu o comediante Ari Valdez, com quem se casou. Entretanto o casamento durara muito pouco, e para sobreviver, passou a trabalhar como taxi-girl, mas o que menos fez foi dançar, pois tornou-se crooner de orquestras de dancings, e aos poucos retornou à sua carreira radiofônica.
     Após passar uma temporada em São Paulo, onde se apresentou no Salão Verde e na Rádio Cruzeiro do Sul, no programa Pescando Humoristas, Elizeth ganha o presente de sua vida. Grava o samba Canção de amor de Chocolate e Elano de Paula em 1950, que foi um grande sucesso e se transformou em sua assinatura musical.
     Depois dessa gravação, todas as rádios a queriam, mas a Divina aceitou o convite de Almirante para ser a estrela da Tupi. Seu prestígio cresce a tal ponto, que sobe ao palco do Teatro Municipal de São Paulo para interpretar as Bachianas Brasileiras número 5, de Heitor Villa-Lobos.
     Ainda em 1951, foi contratada pela Rádio Mayrink Veiga e pela boate Vogue, e gravou um dos seus maiores sucessos, Barracão (Luís Antônio e Oldemar Magalhães). Em 1952, além de atuar no filme O rei do samba, de Luís de Barros, gravou Maus tratos (Bororó e Dino Ferreira) e Nosso amor, nossa comédia (Erasmo Silva e Adolar Costa). Em 1953 participou do show Feitiço da Vila, na boate Casablanca, no Rio, estreando-o em São Paulo no ano seguinte, quando foi contratada pela Rádio e TV Record.
     Como ponto de referência, vale lembrar que sua voz abriu as portas da bossa nova, ao gravar o LP Canção do Amor Demais, pois todo o disco era dedicado às músicas de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, além do acompanhamento ao violão de João Gilberto em Chega de saudade e Outra vez.

     O ano de 1965 foi um dos mais brilhantes na carreira de Elizeth, pois ela gravou o disco Elizeth sobe o morro, que se tornou um marco na discografia brasileira, iniciou em agosto, na TV Record de São Paulo, o programa Bossaudade, que teve grande êxito por quase dois anos. Terminou o ano participando do espetáculo Vinícius, poesia e canção, em São Paulo.
     Em fevereiro de 1968 realizou no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, um espetáculo com o Zimbo Trio, Jacó do Bandolim e seu conjunto Época de Ouro; o show, produzido por Hermínio Bello de Carvalho para o Museu da Imagem e do Som, do Rio de Janeiro, foi gravado ao vivo em 2 LPs. Ainda em 1968, realizou com o Zimbo Trio uma longa excursão pela América Latina para divulgar a MPB.
     Em homenagem a Divina, Ary Barroso compôs o samba É luxo só, que enaltece a intérprete com os esses lindos versos: “olha, essa mulata quando dança, é luxo só. Quando todo o seu corpo se balança, é luxo só. Porém, seu coração se agita, e palpita mais ligeiro, nunca vi compasso tão brasileiro”.  
     Durante toda a sua carreira, Elizeth interpretou diversos gêneros musicais, entretanto se fixou no samba, que cantava com extraordinária personalidade, o que lhe valeu vários apelidos, tais como A Noiva do Samba-Canção, Mulata Maior, A Magnífica, A Enluarada, mas nenhum desses se iguala ao título de A Divina.

     Salve Elizeth Cardoso: a Divina!   

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