Nesta virada de ano para 2026, o palco da política parece ter cristalizado sua dramaturgia shakespeariana. Para podermos tecer os fios desse enredo e, de forma délfica, tentar prever os acontecimentos que virão a ocorrer em 2026, é preciso promover um recuo de duas décadas e avaliar o que ocorreu no Brasil na esfera política de 2005/2006 em diante.
Esse período situa-se no contexto pós-eleição de 2002. O governo Lula enfrentava dificuldades para governar com base em alianças parlamentares tradicionais, e em 2005 “surgiram” revelações sobre um suposto esquema de pagamentos mensais a parlamentares em troca de apoio político. No ano de 2006, iniciaram-se uma série de investigações formais e posteriores judicializações pelo STF. Esse movimento criou um impacto político e desencadeou uma semente estratégica para a oposição. Esta semente foi catalisada num modus operandi que se iniciou com um marco narrativo de "corrupção sistêmica no PT", estabelecendo uma construção midiático-judicial na qual figuras políticas específicas eram condenadas pela capa do jornal – estratégia que seria ampliada posteriormente.
A partir desse fato, pode-se estabelecer uma observação crítica: (1) enquanto o Mensalão foi tratado como caso isolado de corrupção política, (2) operações subsequentes utilizaram a mesma lógica com alcance ampliado. Foram inúmeras operações, dentre elas a Operação Castelo de Areia (2009), que investigou supostos esquemas de corrupção envolvendo empreiteiras (como o Grupo Camargo Corrêa) e políticos, revelando métodos semelhantes – como cartel de obras e lavagem de dinheiro – antes mesmo de a Lava Jato começar em 2014 (embora tenha sido anulada por questões processuais). O modus operandi dessa operação foi o mesmo de toda a Lava Jato: soltar denúncias na mídia sem provas para criar um clamor popular e, com isso, enfraquecer figuras públicas (normalmente ligadas aos setores progressistas), alterando a correlação de forças políticas – fenômeno conhecido como lawfare.
Em 2014, inicia-se formalmente a Lava Jato, inicialmente focada em lavagem de dinheiro em um posto de gasolina em Brasília. No entanto, ocorreu uma expansão estratégica e ela rapidamente se transformou em investigação sobre contratos da Petrobras, utilizando delações premiadas como método principal. Foi em 2015-2016 que ocorreu o pico da operação, com:
1. Prisão preventiva como regra (inversão da presunção de inocência);
2. Uso midiático de conduções coercitivas para construção de narrativa pública.
Ambos os métodos, já experimentados no Mensalão e na Castelo de Areia, tiveram um foco seletivo em empresas do complexo industrial nacional, especialmente do setor petroquímico e de engenharia pesada, que foi desmantelado em consequência. O impacto econômico sistêmico foi catastrófico, resultando na desarticulação das cadeias produtivas nacionais e na falência ou enfraquecimento de empresas estratégicas (Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, etc.). A operação também levou ao desmonte da capacidade de projeto de infraestrutura nacional, à fuga de capitais e ao desinvestimento em setores estratégicos.
Em suma, a Lava Jato criou um ambiente propício para: a criminalização do financiamento político tradicional (afetando principalmente o PT); a legitimação midiática do discurso de "combate à corrupção" como justificativa para ruptura institucional; e a pressão sobre parlamentares através de processos judiciais. Isso culminou no impeachment – um golpe – de Dilma Rousseff, utilizando-se a narrativa anti-corrupção como véu para remover do cargo uma presidente eleita sem cometimento de crime de responsabilidade. O resultado foi a implementação de uma agenda neoliberal radical (PEC do Teto, reforma trabalhista, desmonte do pré-sal), a abertura para privatizações e a desnacionalização da economia, colocando o Brasil em um patamar de servilismo geopolítico e de desigualdade social intensa e crônica.
O atual Caso Master é, portanto – 20 anos após o Mensalão e 10 anos após o golpe contra Dilma –, uma tentativa da Faria Lima e da mídia do PIG (o braço financeiro e ideológico deste) de repaginar uma Lava Jato 2.0 para promover pressão contra Lula, que entra em 2026 como favorito eleitoral e com popularidade em ascensão. A fórmula é a mesma.
Após as reviravoltas jurídicas – anulação das condenações de Lula, reconhecimento da parcialidade de Sergio Moro, revelações do “Vaza Jato” –, criou-se uma nova estratégia com o mesmo modus operandi. O braço midiático, na figura declaradamente lava-jatista de Malu Gaspar (Globo e companhia), busca criar um novo caso emblemático para reacender a narrativa de corrupção seletiva, associando o governo atual (através do ataque ao STF, especificamente aos ministros que condenaram Bolsonaro) a supostos novos esquemas. Prepara-se, assim, o terreno para a desestabilização política em ano eleitoral, com um objetivo evidente: reativar os instrumentos de lawfare (guerra jurídica) através de uma ciranda maléfica – uma Dança de Shiva – da Faria Lima. Quem acha que essa pressão ficará restrita a Moraes ou Toffoli está completamente enganado. O objetivo é maior: trata-se de enfraquecer todo o grupo mais racional e garantista de uma parca e frágil democracia para, com isso, enfraquecer o governo Lula, que tem conseguido muitos de seus avanços com a participação do STF. Além disso, esse caso omite muitos dos avanços promovidos pelo governo Lula e abre terreno para criminalizar movimentos progressistas, impedindo a consolidação de um novo ciclo político nacional-desenvolvimentista.
Portanto, a sequência histórica demonstra um projeto de poder que utilizou o sistema de justiça como instrumento político, assim representado:
1. Mensalão (2006): Laboratório de criminalização política via mídia e Justiça.
2. Lava Jato (2014-2018): Operação de escala industrial para desarticulação econômica e política nacional.
3. Golpe de 2016: Consequência direta do ambiente criado.
4. Caso Master (atual): Tentativa de reativação do mesmo roteiro.
A mídia hegemônica atua como braço narrativo deste projeto, plantando casos periodicamente para manter a narrativa de "corrupção estrutural da esquerda", enquanto ignora esquemas semelhantes em outros espectros políticos (nesse caso, o próprio Esteves). O objetivo permanece: impedir projetos de desenvolvimento nacional soberano e manter a subordinação do Brasil aos interesses geopolíticos e econômicos externos.
É óbvio que o sistema judiciário brasileiro precisa ser revisto, mas é igualmente preocupante quando se desconsideram certas influências políticas no Ministério Público, na promotoria e no sistema midiático. Não é razoável colocar a política para a polícia, pois toda vez que isso foi feito, a consequência foi lastimável para os setores progressistas do país. Ter uma ala da própria esquerda incapaz de refletir sobre o que está por trás dessa situação é muito temerário e ilustra como ainda existe, no DNA desses setores, o espírito golpista da Lava Jato. Teremos um forte embate em 2026 para que esses espectros de Hamlet não voltem mais.
Roberto Barros.
2 comentários:
Parabéns pelo texto!!! 👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾
Muito obrigado amiga!! Muito obrigado mesmo pelas palavras.
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