| Último dia teve mesa com militantes históricos contra a repressão Fotos: @filipeaugustoperes |
Encerramento do evento reuniu filha de Jaime Wright, advogado histórico e ex-preso político para debater memória, verdade, justiça e reparação
O terceiro e último dia do evento "1964 não acabou", realizado na noite desta quarta-feira (1º), no Lar Santana, em Ribeirão Preto, apresentou uma roda de conversa com Sônia Wright, Belisário dos Santos Junior e Manoel Cyrillo. Ao final do debate, foi lido o Manifesto de Fundação do Comitê de Preservação, Memória, Verdade, Justiça, Reparação e Democracia da Região Metropolitana de Ribeirão Preto.
Roda de conversa
A mesa reuniu três convidados com trajetórias distintas mas complementares na luta contra a ditadura militar e pela defesa dos direitos humanos.
| Sônia destacou que a desinformação sempre foi arma da extrema-direita |
Sônia Wright, educadora e militante da memória, é filha de Jaime Wright, um dos nomes centrais do projeto Brasil: Nunca Mais, e sobrinha de Paulo Stuart Wright, desaparecido político da ditadura. Em sua fala, Sônia abordou o papel da imprensa durante o regime e a perseguição a Madre Maurina Borges.
"A imprensa local colocou muitas fake news, dizendo que a Madre Maurina pegava comida que servia para as crianças e dava para os guerrilheiros, que a Madre Maurina tinha amante entre os guerrilheiros. E isso não ficava só entre os jornais locais, jornais nacionais também noticiaram essas fake news", afirmou.
Para Wright, a imprensa teve papel fundamental na difusão de fake news contra os opositores do regime, mencionando os jornais locais A Cidade e O Diário de Notícias, além dos nacionais Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo e Jornal do Brasil.
A educadora criticou os ricos da região, especialmente as famílias Biagi e Junqueira, e as senhoras da alta sociedade que praticavam uma "caridade" interesseira.
E citou Engels para criticar a caridade burguesa.
"A burguesia é caridosa por interesse próprio. Não dá nada para o teatro, mas considera suas doações como um negócio. Faz um acordo com os pobres: se eu gasto tanto em instituições beneficentes, tenho o direito de não ser mais incomodado."
S.W. levantou a hipótese de que muitas dessas mulheres burguesas, que aparentavam ser caridosas, podem ter atuado como delatoras de Madre Maurina Borges, movidas por rancor porque a religiosa devolvia às famílias as crianças e adolescentes que eram abandonadas nos fundos do convento.
A militante da memória seguiu em dura crítica à burguesia de Ribeirão Preto e suas aliadas durante a ditadura militar e afirmou que a Igreja Católica, com poucas exceções, esteve majoritariamente alinhada com o regime; lembrou que Dom Paulo Evaristo Arns, apesar de seu reconhecido trabalho na defesa dos direitos humanos, inicialmente apoiou o golpe de 1964.
Sônia ainda apontou a polícia como uma das principais engrenagens da repressão, citando nominalmente os delegados Renato Ribeiro Soares, Miguel Lamano e Sérgio Paranhos Fleury como praticantes de tortura.
E pediu uma homenagem a seu irmão, Nelson James Wright, médico que ajudou a criar tratamentos para diabéticos e está internado.
"Eu ia pedir para vocês, porque ele é um homem de luta, que a gente dissesse juntos: Nelson presente."
| Belisário abordou os 4 pilares do regime ditatorial |
Belisário dos Santos Junior, advogado e defensor histórico dos direitos humanos, fez uma análise da estrutura da ditadura militar e sua permanência no presente. Belisário destacou os quatro pilares do regime: preservar os instrumentos de controle do poder, estabelecer uma nova ordem de interlocutores para a sociedade, criar uma nova ordem jurídica e eliminar ou silenciar a oposição.
"A doutrina de segurança nacional que formou a ditadura cívico-militar de 1964 até 1985 tinha como base a noção de inimigo interno. O inimigo interno era necessário usar uma linguagem de guerra, porque inimigo é o que você tem na guerra, e na guerra elimina-se o inimigo", explicou.
Dos Santos também lembrou sua atuação na criação do Memorial da Luta pela Justiça, em São Paulo, no prédio que abrigou a Justiça Militar. Belisário reforçou como se dá a justiça dentro de um regime de repressão, como foi o período civil-militar no Brasil entre 1964-1985.
"Aquele prédio da Brigadeiro era da Justiça Militar, onde foram processados sob uma lei infame, e as pessoas não viam os autos porque a sessão era secreta. A sessão só passou a ser aberta com a Constituição de 1988."
Manoel Cyrillo, ex-preso político e militante da ALN (Ação Libertadora Nacional), participou do sequestro do embaixador norte-americano em 1969 e passou dez anos nas prisões do regime. Ele questionou quando a ditadura realmente terminou.
"A pergunta que eu faço é a seguinte: quando acabou? Se você faz uma enquete aqui hoje, agora, vai aparecer duas ou três possibilidades. Alguém pode dizer que foi com a nova Constituição, ou pode dizer que foi com a eleição direta para Presidente da República. Tem várias possibilidades."
| A Anistia foi uma artifício para não punir os torturadores |
Sobre a lei da anistia, Cyrillo afirmou:
"Esse foi o artifício usado para anistiar todos os torturadores. Nenhum torturador tinha sido condenado. Até hoje, nunca nenhum foi condenado. Não houve a tal da justiça de transição, que é fundamental. Nós não vivemos isso. Vivemos as consequências até hoje. Ainda se tortura de uma forma ou de outra. Por quê? Porque os grandes torturadores desse país não foram punidos."
Manoel também defendeu suas ações políticas durante a ditadura.
"Eu não cometi crime algum. Mesmo quando eu entrava no banco para me desapropriar, mesmo quando eu capturei o embaixador do país inimigo. Aquele governo era inimigo do nosso povo. Chegou a mandar a 4ª Frota aqui para garantir o sucesso do golpe."
Cyrillo encerrou com uma homenagem ao pai, James (Jaime) Cyrillo, que renunciou à cidadania americana para ser brasileiro.
"Ele fazia questão de ser brasileiro. O nome dele é James, mas ele só assinava Jaime, só queria ser conhecido como Jaime. Ele era contra o imperialismo americano."
MST
Sempre entre uma fala e outra, o MST Ribeirão Preto fez o agradecimento entregando o símbolo de luta universal da luta da militância por reforma agrária popular : o boné vermelho
| Manoel Cyrillo recebeu o seu boné do MST |
Vanderley Caixe Filho
Após a roda de conversa, o advogado e militante da UP (Unidade Popular pelo Socialismo) Vanderley Caixe Filho, um dos signatários e organizadores do manifesto, destacou a importância da criação do Comitê e mencionou documentos históricos que revelam a repressão no interior paulista.
"Existe uma carta do coronel Pena dirigida a um cidadão que era proprietário na época, dizendo que estamos enviando essa carta como o prefeito Gasparini nos orientou, pedindo reembolso dos atos que nós praticamos de comida e gasolina para abafar as assembleias dos camponeses da região", relatou.
| Caixe destacou a importância do Manifesto |
Caixe comentou sobre a atuação do promotor Ailton Marcelo Rodrigues.
"Hoje está na mão da sociedade civil o promotor Ailton Marcelo Rodrigues. A aplicativa da classe, da polícia, é institucional. E por isso, nós hoje estamos aproveitando para lançar um pouco de preservação da memória, verdade, justiça, reparação e democracia da região metropolitana."
Vanderley explicou o contexto do surgimento do Comitê.
"A partir desse momento, a partir dessa ideia, um grupo de pessoas se reuniu e entendeu que era necessário criar esse grupo."
Leitura do Manifesto
| Antes da leitura da Carta, Júlia falou sobre as reverberações da ditaduras civil-militar nos dias de hoje |
Após a roda de conversa, foi lido o Manifesto de Fundação do Comitê por Júlia Giagio Sayar, bacharel em Direito e militante da UP (Unidade Popular pelo Socialismo). O texto afirma que "não há democracia verdadeira onde o passado fica encoberto. Onde crimes de Estado permanecem sem resposta. Onde a memória dos que resistiram é apagada."
O manifesto também destaca as marcas da repressão no interior paulista:
"Alcançou trabalhadoras e trabalhadores rurais, lideranças sindicais e pastorais, envolveu espionagem, violação de correspondência, intimidação política, tortura, repressão a greves, violência armada e colaboração entre setores econômicos privados e forças estatais de repressão."
O evento, organizado pela UP (Unidade Popular pelo Socialismo), MST, Memorial da Resistência Madre Maurina Borges e PCBR, teve apoio da Antifa Botafogo Resistência Caipira, Comitê Permanente da Causa Humanitária Palestina, PT, UGT, Frente Recultura e PSOL.
Durante toda a programação, o MST também esteve presente com a Feira da Agricultura Familiar, ofertando produtos livres de agrotóxicos, fruto da reforma agrária popular.
Leia o manifesto na íntegra abaixo
Manifesto de Fundação do Comitê de Preservação, Memória, Verdade, Justiça, Reparação e Democracia da Região Metropolitana de Ribeirão Preto
Nós, entidades e militantes de Direitos Humanos do interior paulista, fundamos hoje este Comitê.
Sabemos que não há democracia verdadeira onde o passado fica encoberto. Onde crimes de Estado permanecem sem resposta. Onde a memória dos que resistiram é apagada.
O golpe de 1964 não foi apenas uma ruptura institucional. Foi a imposição de uma ordem autoritária, civil-militar, construída para esmagar trabalhadoras e trabalhadores, camponesas e camponeses, estudantes e intelectuais comprometidos com o povo.
Mas foi mais que isso. Foi uma ofensiva reacionária de classe — uma contrarrevolução organizada pelas classes dominantes para bloquear transformações populares. A ditadura foi expressão política dos interesses da burguesia, do Estado civil-militar, de setores civis conservadores e do imperialismo, para bloquear transformações populares e preservar uma ordem social excludente, subordinada e profundamente desigual.
Recordar 1964, portanto, não é apenas rememorar um passado encerrado. É reconhecer que o fascismo, em países como o nosso, aparece como método de governo, como pedagogia do medo, como culto à violência e como ódio dirigido contra pobres, indígenas, negros e negras, mulheres, trabalhadoras e trabalhadores, movimentos sociais e culturais, enfim, contra todas as formas de luta emancipatória.
No interior paulista, essa história deixou marcas próprias e profundas. A repressão não se limitou aos grandes centros. Ela atravessou cidades, usinas, sindicatos, comunidades religiosas e espaços de organização popular. Alcançou trabalhadoras e trabalhadores rurais, lideranças sindicais e pastorais, envolveu espionagem, violação de correspondência, intimidação política, tortura, repressão a greves, violência armada e colaboração entre setores econômicos privados e forças estatais de repressão. Os registros reunidos sobre a região de Ribeirão Preto mostram, entre outras práticas, perseguição a bóias-frias, monitoramento de lideranças, ação policial e ataques contra formas legítimas de organização dos trabalhadores. Estas marcas e ações ainda estão vivas no presente.
É por isso que este Comitê nasce.
Nascemos para que a memória das lutas e violações no interior paulista não seja apagada.
Um povo que conhece sua história pode enfrentar, com firmeza, os fantasmas autoritários que insistem em retornar.
NOSSO NOME
Comitê Memória, Verdade, Justiça, Reparação e Democracia
Por que essas cinco palavras?
Porque nomeiam uma batalha que não terminou. Uma dívida que a história ainda cobra. Um fogo que não se apaga enquanto houver impunidade.
Memória, porque um povo sem memória fica indefeso diante de quem tenta reescrever o passado para absolver opressores. Lembrar os crimes da ditadura é impedir que sejam normalizados, esquecidos — ou repetidos.
Verdade, porque o regime também se sustentou na mentira institucional, no silêncio forçado e na falsificação dos fatos. Dizer o que realmente aconteceu é romper com a versão dos torturadores e seus cúmplices.
Justiça, porque não basta saber. É preciso punir. Responsabilizar executores, mandantes e beneficiários civis e militares do terror de Estado. Sem justiça, a impunidade continua solta.
Reparação, porque a violência destruiu mais que vidas individuais: despedaçou famílias, interrompeu trajetórias, deixou feridas que atravessam gerações. Reparar é reconhecer o dano irreparável e, mesmo sabendo que nada devolve o que foi tirado, enfrentar suas consequências históricas, políticas e materiais.
Democracia, porque foi a ruptura democrática que tornou possíveis a tortura, a perseguição, os assassinatos e os desaparecimentos. E porque não queremos uma democracia de fachada, vazia, onde o povo apenas observa. Queremos uma democracia real: profunda, com participação popular, onde o povo trabalhador esteja dentro dela, representado e decidindo os rumos da sociedade.
Essas cinco palavras não são retórica. São compromisso, denúncia e programa de luta.
Enquanto houver impunidade, esquecimento e violência de Estado, essa tarefa seguirá de pé.
Lutar por memória, verdade, justiça, reparação e democracia é lutar para que o passado não seja apagado, o presente não seja envenenado e o futuro não seja sequestrado novamente pelos inimigos do povo.
Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça.
Signatários:
1. Vanderley Caixe Filho, advogado e militante da Unidade Popular pelo Socialismo
2. Sonia Jay Wright, professora aposentada da Universidade Federal da Bahia (UFBA)
3. Marcelo Pedroso Goulart, promotor de Justiça aposentado
4. Juarez Alves de Lima Júnior, advogado, professor universitário e vice-presidente da Associação dos Advogados de Ribeirão Preto
5. Julia Giagio Sayar, bacharel em Direito e militante da Unidade Popular pelo Socialismo
6. Elisa Fernandes Brasil, militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário
7. Manuela Martins da Costa Aquino, coordenadora do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
8. Silvia Maria do Espírito Santo, docente da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo
9. Ronaldo Barbosa, advogado e militante do PSOL
10. Nuno Manuel Morgadinho dos Santos Coelho, advogado e professor da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP
11. Bruno Rocha Faleiros Roduvalho, professor, historiador e militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário
12. Vera Lucia Navarro, professora universitária
13. Juliana Garcia Peres Murad, psicóloga
14. Filipe Augusto Peres, poeta, professor e fotojornalista (Blog O Calçadão/MST)
15. Ana Paula Soares da Silva, psicóloga e professora universitária
16. Leonardo Sacramento, pedagogo do IFSP e pesquisador
17. Maria de Nazaré Tavares Zenaide, professora aposentada da Universidade Federal da Paraíba
18. João Francisco Aguiar, professor e secretário da Associação Resistência Caipira – Antifa Botafogo
Ribeirão Preto, 1º de abril de 2026
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