Os números, publicados no Diário Oficial do Município no dia 5 de maio de 2026, mostram uma realidade muito diferente do discurso de carência e dificuldade financeira que costuma cercar as Santas Casas. O hospital encerrou o ano com superávit de R$ 11.224.224,00 , dinheiro que sobrou depois de pagas todas as despesas. Seu patrimônio líquido total chega a R$ 70.986.158,00. E, o que é ainda mais significativo, a instituição declarou possuir R$ 39.617.907,00 aplicados no mercado financeiro, entre fundos e outros investimentos bancários.
A pergunta que não quer calar é simples: como uma entidade que se diz filantrópica, que recebe recursos públicos da ordem de R$ 119,6 milhões por ano (diretamente do SUS, do governo do Estado, da Prefeitura e de emendas parlamentares) e que ainda usufrui de R$ 24,3 milhões em isenções fiscais (INSS patronal e COFINS), justifica aplicar milhões no mercado financeiro em vez de usar esse dinheiro imediatamente na ampliação do atendimento, na contratação de mais profissionais ou na melhoria dos salários de seus funcionários?
A contradição central: dinheiro público vira renda financeira privada
O problema não está no fato de a Santa Casa aplicar recursos no mercado financeiro. Está na origem desse dinheiro e na destinação que deixa de ser dada a ele. A quase totalidade dos recursos que entram no hospital vem de impostos pagos pelos trabalhadores, seja por meio do SUS, seja por meio de convênios estaduais e municipais, seja por meio de emendas parlamentares. Quando esse dinheiro é aplicado em fundos de investimento, títulos públicos ou outras operações financeiras, ocorre uma transferência perversa:
- O Estado socializa os custos — todos os contribuintes pagam impostos que financiam a operação do hospital.
- A entidade privatiza os ganhos — os rendimentos financeiros ficam com a instituição, não com a sociedade.
- O dinheiro que poderia gerar saúde imediatamente (contratando mais médicos, abrindo mais leitos, reduzindo filas) gera renda passiva no mercado financeiro.
Não se trata de especular sobre a má intenção de ninguém. Trata-se de apontar uma contradição estrutural: o modelo de financiamento da saúde filantrópica no Brasil permite que entidades sem fins lucrativos acumulem patrimônio e invistam no mercado financeiro enquanto recebem recursos públicos e deixam de recolher impostos. A população paga duas vezes: uma pelos impostos, outra pela saúde que não chega.
Se pagasse impostos, não haveria superávit
A Nota Explicativa nº 28 revela um dado que deveria ser mais discutido. A Santa Casa deixou de recolher aos cofres públicos R$ 16.589.291,00 de INSS patronal e R$ 7.701.556,00 de COFINS, totalizando R$ 24.290.847,00 em isenção fiscal. Esse valor é 2,16 vezes maior que o superávit de 2025.
| Exercício simulado | Valor (R$) |
|---|---|
| Superávit declarado em 2025 | 11.224.224 |
| (-) Isenção fiscal usufruída (INSS patronal + COFINS) | (24.290.847) |
| Resultado se pagasse impostos | (-13.066.623) |
Ou seja: se a Santa Casa pagasse os impostos que qualquer empresa privada paga, o superávit não apenas desapareceria, como se transformaria em um déficit de aproximadamente R$ 13 milhões.
A financeirização da filantropia: o dinheiro que "trabalha" sozinho
Para além dos números, há um fenômeno mais amplo que precisa ser nomeado: a financeirização. Trata-se do processo pelo qual o capital financeiro (aplicações, fundos, títulos) passa a dominar a economia, e o dinheiro passa a gerar mais dinheiro sem passar pela produção de bens ou serviços. A Santa Casa, ao aplicar R$ 39,6 milhões no mercado financeiro, insere-se nessa lógica.
O problema não é financeiro. É estrutural. A instituição não produz riqueza material, ela presta serviços de saúde. Seu superávit e suas aplicações são possíveis porque ela recebe recursos públicos (que vêm da tributação sobre o trabalho) e porque a lógica do capitalismo financeiro permite que dinheiro gere mais dinheiro sem que nenhum bem ou serviço novo seja produzido. A entidade se beneficia dessa lógica, mas a população, que financia o sistema, não vê esse dinheiro reverter em mais saúde.
É a inversão completa da finalidade social: o dinheiro que deveria curar doentes é o mesmo dinheiro que alimenta o sistema financeiro.
Empréstimos consignados: a instituição como canal de transferência de renda do trabalho para o capital financeiro
A Nota Explicativa nº 14 revela um dado que, à primeira vista, pode parecer contraditório. A Santa Casa registra R$ 247.447,00 em empréstimos consignados de funcionários (contra R$ 133 mil em 2024). É importante ser absolutamente claro: esse valor não é receita da Santa Casa. A instituição atua apenas como intermediária, desconta as parcelas dos salários e as repassa aos bancos e à Caixa Econômica Federal (no caso do FGTS). A operação não gera lucro para o hospital.
No entanto, a existência desse mecanismo é relevante por duas razões, ambas de caráter estrutural.
Primeiro: a Santa Casa se torna um elo na engrenagem que transfere recursos do trabalho (os salários) para o capital financeiro (os bancos). Ao descontar diretamente na folha, o hospital viabiliza o endividamento de seus próprios funcionários com o sistema financeiro. O trabalhador não precisa se preocupar em pagar o boleto, mas também não pode atrasar sem que o desconto ocorra automaticamente. A dívida é garantida pelo próprio salário pago pela instituição.
Segundo: há uma contradição difícil de ignorar. A mesma Santa Casa que acumula superávit de R$ 11,2 milhões, patrimônio de R$ 70,9 milhões e aplica R$ 39,6 milhões no mercado financeiro, recursos que poderiam ser usados para oferecer crédito próprio com juros baixos (ou zero) aos seus funcionários, opera como cobradora de dívidas bancárias de sua própria equipe. O discurso da escassez convive com a prática de facilitar a extração de valor do trabalho pelo capital financeiro.
O que esse dinheiro poderia fazer, se não estivesse aplicado
Para dimensionar o impacto social das escolhas financeiras da Santa Casa, é útil fazer alguns exercícios. Os números abaixo são estimativas da reportagem, baseadas nos valores declarados no balanço:
- R$ 39,6 milhões aplicados poderiam contratar cerca de 200 a 250 profissionais de nível médio (técnicos de enfermagem, auxiliares administrativos, etc.) por um ano inteiro.
- O superávit de R$ 11,2 milhões poderia financiar um reajuste linear de 15% nos salários de todos os funcionários (considerando a folha de pagamento anual de aproximadamente R$ 75 milhões, conforme Nota 25).
- A isenção fiscal de R$ 24,3 milhões é mais que o dobro do superávit. É o que a sociedade deixa de arrecadar para financiar a própria saúde.
- Se a Santa Casa reinvestisse na saúde o que aplica no mercado financeiro, poderia reduzir as filas por cirurgias, consultas especializadas e exames de alta complexidade na região.
Nenhuma dessas alternativas exige que a Santa Casa deixe de existir ou que pare de prestar serviços. Apenas indica que o excedente financeiro, que hoje alimenta o mercado financeiro, poderia ser direcionado para a missão social de forma imediata, e não postergada.
Um padrão que se repete: a financeirização do terceiro setor
O caso da Santa Casa de Ribeirão Preto não é isolado. Em todo o país, entidades filantrópicas como hospitais, universidades, fundações tornaram-se grandes investidoras no mercado financeiro, acumulam patrimônio e usufruem de isenções fiscais bilionárias. O fenômeno tem nome: financeirização do terceiro setor.
Isso significa que a lógica do capital produtivo (produzir bens e serviços para atender necessidades sociais) foi substituída, em grande medida, pela lógica do capital rentista (acumular ativos financeiros para gerar renda passiva). A missão social torna-se secundária em relação ao equilíbrio financeiro e à acumulação patrimonial. As entidades deixam de ser agentes de transformação social para se tornarem gestoras de ativos.
A pergunta que se impõe, portanto, não é sobre a Santa Casa. É sobre o modelo: por que o Estado precisa de intermediários privados para prestar um serviço que poderia oferecer diretamente, com mais controle social, transparência e equidade?
A resposta, sugerem os números, não está na qualidade do atendimento nem na eficiência da gestão. Está na capacidade da filantropia institucionalizada de legitimar a transferência de recursos públicos para o patrimônio de entidades privadas sob a máscara da "beneficência".
Conclusão: o que fica depois dos números?
Este artigo não é uma acusação à Santa Casa como instituição, nem aos profissionais que nela trabalham. O serviço prestado pelo hospital é essencial e, muitas vezes, heróico diante das adversidades do SUS. A crítica é estrutural e política.
Ao final da leitura desses números, o cidadão de Ribeirão Preto tem o direito de fazer algumas perguntas e de esperar respostas concretas:
- Se a Santa Casa tem superávit, patrimônio e aplicações financeiras, por que não reinveste tudo imediatamente na saúde?
- Se o Estado já financia quase toda a operação, por que não assumir diretamente a gestão, com servidores concursados e controle social?
- Se a filantropia é escassez, por que sobra dinheiro para aplicar no mercado financeiro?
Enquanto essas perguntas não forem respondidas, a população continuará pagando duas vezes: uma pelos impostos que financiam o sistema, outra pela saúde que não chega. E o debate sobre o papel do Estado, do mercado e do terceiro setor na garantia do direito à saúde continuará sendo evitado para o benefício de poucos e o prejuízo de muitos.
Fonte:
Seção: Demonstrações Contábeis da Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto (páginas 45 a 56).
• Nota Explicativa nº 5 – Aplicações Financeiras (pág. 50)
• Nota Explicativa nº 14 – Empréstimos Consignados (pág. 52)
• Nota Explicativa nº 22 – Patrimônio Social (pág. 46)
• Nota Explicativa nº 25 – Despesas com Pessoal (pág. 53)
• Nota Explicativa nº 28 – Isenções Fiscais (pág. 54)
• Nota Explicativa nº 29.1 – Atendimento ao SUS (pág. 54)
• Nota Explicativa nº 3.1 – Repasses públicos (págs. 48-49)
Disponível em: https://www.ribeiraopreto.sp.gov.br/portal/diario-oficial/visualizar/12392
Acesso em: 06 de maio de 2026.
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