meu poema nasce do rumor de uma porta mal fechada
do lençol sacudido pela ventania
da colher esquecida sobre a mesa
e do relâmpago que apodrece na memória
nasce do pó agarrado às cortinas
à garganta
do suor das palavras perseguidas
das sílabas que dormem sob o musgo
e da unha escura do tempo riscando a cal dos muros
há em meu poema ferragens de sonho
ferrugens
um sal de lágrimas
uma caixa de mariposas queimadas
e um resto de tarde preso na engrenagem do peito
escrevo
como quem se inclina sobre esse poço de ferrugem e astros
e escuto no fundo
não a água
mas o baque de um rosto perdido
a respiração de uma infância perdida
o ruído de um país desmoronando dentro de uma vogal
Oh estes trabalhos da poesia
separo a cinza do clarão
arranco do limo uma faísca
dou ao silêncio uma dentadura de ouro sombria
e ao grito visto uma névoa
para que atravesse minha noite sem ser degolado
minha palavra não vem pura
monstro amoroso e metamorfo
vem coberta de pólen e ferrugem
de saliva
de jornais mortos
de retratos quebrados
de passos ouvidos atrás da parede
de barcos afundados no leite da madrugada
sou poeta e trabalho com sobras
minhas sobras:
fio de minha voz que resta no travesseiro
mancha de café em torno de um nome
frio de uma cadeira vazia
rumor de facas dentro do armário do mundo
dentro de meu murmúrio
a lenta combustão do que não pôde ser dito
e cada verso meu
antes de ser asa
foi pedra
antes de ser música
foi ferida mastigada em segredo
antes de ser clarão no papel
foi bicho cego procurando saída entre costelas
desço aos depósitos do espanto
aos porões onde apodrecem minhas metáforas prematuras
às caves do idioma
onde as palavras dormem juntas
como animais doentes
ou como ferramentas cobertas por meus panos de sangue
ali
entre pronomes mutilados
verbos com cheiro de mofo
substantivos atravessados por agulhas de chuva
escolho
não o ornamento
mas a brasa
não a flor intacta
mas a flor já tocada pela fuligem
não o espelho
mas o caco
onde a face do mundo ainda vacila
para mim escrever é isso
lavo um osso com a língua
acendo uma lâmpada dentro de um pântano
peço a uma sombra que permaneça
e a um clarão que não minta
(mas mente - e dói)
faço do ar
matéria suportável
do caos
uma arquitetura de ecos
do sofrimento
não consolo
mas forma
para que meu horror tenha contorno
para que a beleza externa não se perca
para que minha morte não reine sozinha
nos armários do idioma
Oh labor escuro!
movo com as mãos nuas
essas roldanas de febre
esses trilhos de seiva e ferrugem
essas colmeias subterrâneas
onde o sentido fabrica seu mel envenenado
quantas vezes meu verso falha
quantas vezes me despedaço
e vejo as pessoas partirem
e eu, copo na pia da madrugada,
empobreço mais
quantas vezes meu poema é apenas
uma escada encostada no nada
ou um pássaro batendo inutilmente
contra a vidraça de meu próprio nome
mas às vezes
por entre destroços de sintaxe
por entre sedas rasgadas de lembrança
por entre móveis cobertos do abandono
surge em mim uma linha viva
uma linha apenas
e nela tremem:
o mar
o pão
o desejo
a ferrugem dos portões
a cadeira do morto
o riso de quem partiu
minha mão que escreve
e a outra mão invisível
que me guia ou me condena
então
meu poema respira
respira como um animal saído da lama
respira como uma janela aberta dentro do incêndio
como uma ave de carvão e neve
erguendo-se do papel
com seus olhos de água escura
e já não me pertence
já não é meu
pertence ao ar
ao povo
à ferrugem
ao ouvido alheio
ao susto de uma mulher na varanda
ao susto da mulher que não me quer mais
ao companheiro que caminha entre ruínas
à criança que recolhe do chão
um vocábulo ainda quente
escrevo
e perco a posse do clarão
e dou à língua
aquilo que a língua pediu em segredo
e deixo sobre a mesa
não uma resposta
mas um objeto ardendo
objeto feito de sombra e cal
de mel e faca
de chama e músculo
de esquecimento e regresso
trabalho a poesia
com seus andaimes de névoa
suas enxadas de música
seus martelos de pranto
suas agulhas de incêndio
seus espelhos rachados por minha respiração dos séculos
trabalho sobre o nada
como se o nada fosse madeira
trabalho sobre a perda
como se a perda pudesse cantar
trabalho sobre a matéria instável
de lama sonora de meu desejo
e do fundo da página
surge
não a paz
mas uma centelha
não a verdade inteira
mas um animal luminoso
não a eternidade
mas este instante
salvo da queda
por uma palavra
que me salva da queda
por uma palavra
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