| Roda punk durante o festival Hardcore Contra o Fascismo Foto: João Sando |
Evento realizado no Centro Cultural Cerâmica São Luiz combinou punk, hardcore, formação política, Feira da Agricultura Familiar e arrecadação de alimentos para famílias atingidas por enchentes
Organizado pelo Coletivo O Hierofante, o som pesado das guitarras se encontrou com a força da palavra e a urgência da ação direta no último sábado (4), durante o evento "Hardcore Contra o Fascismo", realizado no Centro Cultural Cerâmica São Luiz (Rua Municipal, nº 32, no estacionamento do Hipermercado da Via Norte). Com entrada solidária de 1 kg de alimento não perecível, a iniciativa conectou contracultura, consciência política e solidariedade em um só espaço.
A resposta da população foi expressiva: o festival arrecadou aproximadamente 0,5 tonelada de alimentos, que serão destinados às famílias do bairro Branca Salles, duramente impactadas pelas enchentes que atingiram Ribeirão Preto no final de fevereiro e meados de março. A distribuição ficou a cargo do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), que integra a Unidade Popular, garantindo que a ajuda chegasse a quem mais precisa.
A programação musical reuniu as bandas Bastian Contra o Mundo, Largato Banza, Módulo Lunar, Estágio Zero e Gelatina de Concreto em um encontro de sonoridades que vão do punk ao hardcore e rock alternativo.
Entre os shows, o evento ofereceu um ciclo de debates com vozes atuantes nas lutas sociais, intercalando música e formação política ao longo de toda a programação.
Além disso, o público encontrou uma Feira Popular da Agricultura Familiar e Economia Solidária, com expositores independentes, fortalecendo a geração de renda de pequenos produtores e artesãos locais. Barracas de organizações políticas e sociais também marcaram presença durante todo o evento, com o PCBR, a Unidade Popular (UP) e o Comitê Permanente da Causa Humanitária Palestina dialogando com o público, distribuindo materiais e fortalecendo as redes de solidariedade e luta.
A feira, as bancas, dialogaram com as pessoas presentes
O evento foi uma realização conjunta do O Hierofante, Coletivo Fuligem, Hardcore Contra o Fascismo e a própria Feira Popular da Agricultura Familiar e Economia Solidária. A proposta central, segundo os organizadores, foi "sair do discurso e colocar a prática em movimento". "HC contra o fascismo na prática", resume a convocatória.
Para Rafael Neri, o Rafones, do coletivo Hierofante, um dos organizadores, a ideia desde o início foi construir algo que fosse mais do que entretenimento. Rafones afirmou que, quando surgiu a possibilidade de realizar essa edição inédita do Hardcore Contra o Fascismo em Ribeirão Preto, a proposta era ter um posicionamento claro.
"A gente entendeu que era fundamental conectar a luta contra o fascismo com outras frentes de resistência que estão colocadas hoje, especialmente a luta no campo", destacou Rafones, lembrando que essa edição do evento dialoga diretamente com as Jornadas de Abril do MST.
Música como ferramenta de mobilização
Para Neri, a intenção é trazer à tona "essa dimensão da luta pela terra, pela soberania dos povos e contra o avanço do agronegócio e do imperialismo".
O organizador explicou que o evento nasce "desse encontro: da música como ferramenta de mobilização, mas também como espaço de formação, debate e construção política"
e que a proposta é fortalecer redes, aproximar realidades e afirmar que a cultura também é um campo de disputa. "A gente está organizado nele."
Fátima Suleiman: "Palestina livre, do rio ao mar já"
Não existe cessar-fogo na Palestina
Entre as falas, a primeira a falar, em meio à programação musical, foi Fátima Suleiman, presidenta do Comitê Permanente da Causa Humanitária Palestina e integrante da FEPAL (Federação Árabe Palestina).
"Espero que todos aqui estejam contra o fascismo. Antifascismo na veia", iniciou. "Não existe cessar-fogo na Palestina. Nunca houve cessar-fogo", afirmou. "O que está acontecendo lá é inadmissível. Não existe alguém no mundo que goste de ver a morte de outra pessoa. São milhares de crianças órfãs, 11 mil crianças órfãs, 380 mil mortos."
Fátima apontou os responsáveis: "Quem é que faz todo esse fascismo? Quem é que está por trás disso? Israel, Estados Unidos, o imperialismo. Basta de colonialismo, basta de imperialismo, basta dessa limpeza étnica do nosso povo palestino."
Suleiman revelou sua conexão pessoal com a causa: "Eu tenho 260 familiares na Palestina. E simplesmente o que eles fazem hoje lá é o que eles já estão querendo fazer com toda a América Latina, com todos os outros países. É muito importante que nós estejamos todos alinhados nessa luta contra o imperialismo."
A ativista recitou um poema de Muhammad Shafiq, poeta afegão, que falava sobre a dor e a indiferença como forma de sobrevivência: "Não posso dizer que sou feliz ou que sou infeliz. A questão é que deixei de tentar entender o que eu sinto. [...] Acho que cheguei a um estágio elevado de indiferença, aquele sentimento que me faz sorrir o tempo todo, sem precisar estar feliz."
Ela encerrou com o grito que ecoou pelo público: "Palestina livre, do rio ao mar já. Palestina livre sempre, porque nós, palestinos, precisamos ser livres. Palestina livre! Palestina livre!
Flavia Meziara: "A Marcha da Maconha é o movimento social mais subversivo que existe"
A maconha não é legalizada por uma questão racista
Em seguida, Flavia Meziara, advogada militante e integrante da Marcha da Maconha Ribeirão Preto, trouxe para o debate a perspectiva da luta antiproibicionista. Ela começou provocando o público: "Quem aqui é maconheiro ou maconheira?" A resposta veio em aplausos e gritos. "Tá fraco, galera", provocou, repetindo a pergunta e obtendo uma resposta ainda mais forte.
"A Marcha da Maconha é o movimento social mais subversivo que existe", afirmou. "A Marcha da Maconha existe desde 2002, começou no Rio de Janeiro, e a gente sempre tomando porrada da polícia militar, prisões, gás, e alegações de que a gente estava fazendo apologia às drogas. Na verdade, o que a Marcha da Maconha faz é conscientização, é luta anticapitalista. A Marcha da Maconha é antifascista, é anti-imperialismo, é Palestina livre, é República do Congo livre, é Burkina Faso livre."
Meziara explicou que a Marcha da Maconha é contra o encarceramento em massa, lembrando que a população negra é a maioria nos presídios brasileiros. "A Marcha da Maconha é um movimento totalmente antirracista. A gente sai nas ruas todos os anos pra lutar contra o encarceramento em massa, pra lutar contra essa política fascista, racista da Polícia Militar do Estado de São Paulo, que mata, que assassina corpos negros todos os dias."
E trouxe dados impactantes: "No Brasil, são 18 jovens negros assassinados pela polícia militar todos os dias. Todos os dias nós temos mulheres, mães negras, que choram sobre os corpos dos seus filhos assassinados por essa polícia fascista. E a guerra às drogas que fomenta toda essa discriminação. A guerra às drogas é uma falácia. A guerra às drogas é o maior instrumento do capital contra o povo trabalhador."
A advogada fez uma recuperação histórica da chegada da maconha ao Brasil, trazida pelos portugueses para a produção de algodão e cânhamo, e destacou que foram os escravos negros que começaram a utilizar a cannabis. "Vocês já se perguntaram por que o álcool é legalizado? Por que o cigarro é legalizado? Porque é um grande negócio para o capital, milhares e milhões de impostos são recolhidos, gera emprego, mas gera emprego sobre opressão, sobre exploração. E por que a maconha não pode ser legalizada no Brasil? Por conta de uma questão racista. Porque foram os negros que começaram a utilizar a maconha aqui. Quem é maconheiro é vagabundo. Quem é maconheiro não tem a moral da burguesia fascista desse país. Eu tenho muito orgulho de ser maconheira."
Meziara anunciou que a Marcha da Maconha de Ribeirão Preto, que existe há 11 anos na cidade, acontecerá no dia 16 de maio, a partir das 14 horas, na Esplanada do Teatro Pedro II. "11 anos de luta e resistência", destacou. Flávia relembrou a tentativa de repressão do ano anterior: "O ex-presidente da Câmara de Vereadores da nossa cidade fez um vídeo dizendo que ia acabar com a Marcha da Maconha, que ia prender todo mundo, que a gente alicia criancinhas. Mandou ofício para o Conselho Tutelar, fez o maior estardalhaço, botou a GCM na rua. E nós falamos: pode botar a polícia aqui, porque desde 2011 o Supremo Tribunal Federal falou que a Marcha da Maconha pode existir e vai existir, porque é liberdade de manifestação."
A advogada confirmou a presença na marcha deste ano da deputada federal do PSOL, Samia Bonfim, e de Di Juan, que representa a frente medicinal da Marcha da Maconha, um menino que tinha 20 convulsões por dia e, após começar a usar o óleo de cannabis, não tem mais convulsão. "Maconheiro e maconheira que é fascista não existe. Maconheiro e maconheira é antifascista de verdade, é anticapitalista. A gente vai mostrar pra essa cidade bolsonarista do caralho que aqui tem gente que luta e que a gente não vai recuar."
Perla Müller: "Pejotização abre porta para o fascismo"
O fascismo está constantemente na espreita, está sempre aguardando
A vereadora Perla Muller (PT) subiu ao palco para abordar um tema que dialoga diretamente com o avanço do fascismo: a precarização do trabalho e o crescimento da informalidade no Brasil, com destaque para a ameaça da pejotização.
"O fascismo está constantemente na espreita. Ele está sempre aguardando a oportunidade para que ele se coloque", alertou a vereadora. "O neoliberalismo aprofunda dia a dia a exploração do trabalhador e da trabalhadora. E quando essa superexploração se traveste do aprofundamento da flexibilização da proteção do trabalhador, a gente está abrindo a porta para que regimes autoritários ganhem espaço."
Muller explicou que o Supremo Tribunal Federal está analisando a possibilidade de permitir a pejotização irrestrita; um trabalhador que, ao abrir um CNPJ, abre mão dos direitos trabalhistas da CLT para se colocar como supostamente autônomo. "A gente até pode pensar num médico PJ que, com seu conhecimento, presta trabalho para um hospital, faz seu horário, coloca seu preço. Mas a gente não pode pensar em um servente de pedreiro PJ. Como é que ele vai, com uma renda baixíssima, adquirir equipamentos de proteção individual? Como é que ele vai se capacitar para evitar acidentes de trabalho?"
A vereadora escolheu o exemplo do servente de pedreiro por uma razão específica: "A construção civil é um setor grande em Ribeirão Preto, mas é um dos setores em que trabalhadores mais se acidentam. Esses trabalhadores precisam da proteção da Previdência Social. Só que se ele é PJ, ele mesmo responde pelos seus recolhimentos. Com uma renda que mal dá pra pôr comida na mesa, vocês acham que ele vai fazer esse recolhimento periódico?"
Muller destacou o impacto da pejotização sobre as mulheres, pessoas com deficiência e jovens. "CNPJ não gesta, CNPJ não amamenta, CNPJ não tem dupla, tripla jornada. Conquistas que as mulheres, o movimento feminista, lutou tanto podem ser jogadas terra abaixo." As cotas para trabalhadores com deficiência e para aprendizes, lembrou Müller, são calculadas sobre os empregados com CLT. "Se eu acabo com a CLT, eu acabo também com a obrigatoriedade de garantia das cotas."
A vereadora também alertou para o impacto no financiamento de políticas públicas: "Hoje a CLT contribui para o Fundo de Garantia. É com o dinheiro do Fundo de Garantia que as grandes obras de infraestrutura do país são financiadas. Moradia popular hoje é financiada com Fundo de Garantia. Só em 2025 se estimou 120 bilhões. Obras de saneamento básico, moradia popular é o que a população vulnerabilizada precisa."
E convocou os presentes para a mobilização: "Os trabalhadores e trabalhadoras organizados através dos seus sindicatos têm se mobilizado. Dia 15 de abril a gente vai estar marchando em Brasília até o STF contra a pejotização. Essa é uma luta que todo o apoio é fundamental."
Muller concluiu conectando o tema ao combate ao fascismo: "Quando eu enfraqueço a proteção dos trabalhadores, quando o coletivo perde força, qualquer discurso que promete ordem e unidade, elegendo inimigos, avança. E a gente não pode deixar o avanço do fascismo no nosso país. Sei que são muitas lutas, mas essa é uma luta pela dignidade, essa é uma luta pela vida e essa é uma luta por quem move de verdade a sociedade, que são os trabalhadores e as trabalhadoras."
Vitor Gregolato: "O imperialismo vem colocando suas garras de fora"
O nosso povo é pobre porque ele é explorado pelas nações imperialistas
Victor Gregolato, militante da Unidade Popular, tratou do tema "O imperialismo e as guerras", conectando as lutas locais às lutas globais, e iniciou agradecendo as doações arrecadadas no evento, destinadas às famílias do Branca Salles que perderam móveis, eletrodomésticos e parte de suas casas nas enchentes.
Gregolato apresentou a Unidade Popular como um dos partidos mais jovens do Brasil, fundado em 2019 para fazer a luta anti-imperialista e antifascista, e destacou as frentes de massa do partido: o Movimento Luta de Classes (luta sindical), o Movimento Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (moradia digna), o Movimento de Mulheres Olga Benário (combate ao machismo e ao feminicídio) e a Frente Negra Revolucionária (luta contra o racismo).
O representante da UP também falou sobre a ocupação do Lar Santana, prédio abandonado há mais de 10 anos pela Prefeitura de Ribeirão Preto. O local foi um orfanato onde ocorreu um fato histórico pouco conhecido: "A única freira presa e torturada pela ditadura militar, violentada sexualmente, ali no DOI/CODI, em Cravinhos, depois levada para São Paulo, onde ficou presa por meses até ser libertada pela luta das forças armadas contra a ditadura." A freira, Madre Maurina, ficou 10 anos exilada no México. "Nós estamos com essa ocupação para mostrar que Ribeirão Preto foi uma das cidades onde teve maior quantidade de presos políticos proporcionalmente à sua população no Brasil. O que a prefeitura quer é que aquele prédio caia e que com ele vá a memória do que aconteceu nessa cidade."
Em relação ao imperialismo, Gregolato foi enfático: "Toda vez que você lembrar que o norte-americano é rico, que a Europa tem países ricos, é porque eles trabalham para pilhar as riquezas da Ásia, da África, da América Latina. O imperialismo vem cada vez mais colocando as suas garras de fora, fazendo guerras cada vez mais explícitas em vários locais do mundo."
E citou a guerra na Ucrânia, o genocídio do povo palestino e a escalada das tensões no Oriente Médio, incluindo os bombardeios contra o Irã. "Vamos pegar o Irã: dia após dia bombardeios contra o Irã porque ousou tentar ser livre, ousou ter uma soberania."
Gregolato alertou para o cerco que se fecha sobre a América Latina: "Você vê o cerco fechando em Cuba, o bombardeio na Venezuela para prender o presidente Maduro, na tentativa de abrir aquele país para também se explorar as riquezas naturais. Você vê as bases norte-americanas sendo colocadas na fronteira com o Paraguai, na tríplice fronteira com a Argentina. Tropas americanas podem entrar e sair sem dar justificativa. Isso para colocar bases militares na fronteira com o nosso país, em uma das principais redes hidroviárias, onde tem escoamento de mercadoria, para ficar de olho nas nossas terras."
E concluiu com uma convocação à organização: "O Brasil é um país rico, mas o nosso povo é pobre porque ele é explorado pelas nações imperialistas, por empresas norte-americanas, por empresas europeias que vêm pro nosso país pra roubar a nossa riqueza. Nós temos que mostrar para o nosso povo que nós não podemos ficar quietos, não podemos ficar parados. É só a organização dos trabalhadores que consegue barrar esse fascismo. Que esse fascismo, na verdade, é consequência do acirramento da luta de classes."
Gregolato convidou os presentes para a plenária pelo socialismo que acontecerá na quarta-feira (8), às 19h, no Lar Santana, e finalizou: "O nome dessa sociedade livre é a sociedade socialista, a sociedade onde o trabalhador possa definir o rumo da sua própria vida e que não trabalhe 12 horas por dia para enriquecer um punhado de bilionário que nunca bateu um prego numa barra de sabão.
Filipe Augusto Peres: "O golpe de 1964 foi também um golpe agrário"
O MST é herdeiro das lutas populares
Fechando o ciclo de debates, Filipe Augusto Peres, da coordenação estadual do MST, abordou o tema "Terra, soberania e resistência: o MST na luta contra o agronegócio, o imperialismo e a fome". Em sua fala, a partir do poema escrito para o evento, “A topografia do osso”, em que resgata a memória das lutas camponesas, Augusto destacou que o movimento sem terra é herdeiro das lutas populares do país, das Ligas Camponesas a Canudos.
Peres apresentou uma análise sobre o"agronazifascismo", modelo que combina a concentração de terra, o uso massivo de agrotóxicos e o poder político do agronegócio. E traçou a origem histórica da Revolução Verde, mostrando como tecnologias de guerra foram convertidas em agricultura industrial: gases tóxicos da Primeira Guerra Mundial deram origem aos agrotóxicos; o Zyklon-B, usado nos campos de extermínio nazistas, foi patenteado como pesticida; o herbicida 2,4D, base do Agente Laranja despejado sobre o Vietnã, é hoje amplamente utilizado no Brasil; e os fertilizantes químicos nasceram da síntese da amônia desenvolvida por Fritz Haber, o mesmo químico responsável pelo uso de gases tóxicos na Grande Guerra, nos campos de extermínio.
"A Revolução Verde no Brasil se consolidou a partir de 1964 em contraposição direta ao projeto de Reforma Agrária defendido por João Goulart e pelos movimentos sociais do campo", afirmou F.A. Enquanto o projeto pré-64 propunha democratizar o acesso à terra, desapropriar latifúndios improdutivos e assentar famílias camponesas, a ditadura militar impôs o modelo oposto: modernizar a agricultura sem mexer na propriedade da terra, financiar grandes proprietários com subsídios públicos e expulsar camponeses em nome da "eficiência".
"O golpe de 1964 não foi só militar e político, foi também um golpe agrário", sentenciou. "Enterrou a possibilidade de democratizar a terra e instalou o modelo que hoje chamamos de agronegócio: concentrado, predador, dependente de multinacionais e violento contra os pobres do campo."
Peres também denunciou a ofensiva recente contra os trabalhadores rurais a partir de 2016, com a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário, cortes massivos no INCRA e a paralisação de novos assentamentos. Durante o governo Bolsonaro, mais de 40 decretos de armas fortaleceram milícias rurais, aumentando a violência no campo.
E citou o exemplo do Pontal do Paranapanema, região com longa história de grilagem, onde fazendeiros ocupam terras públicas falsificando documentos. "Quando o MST ocupa, a resposta são despejos violentos, grande aparato policial e destruição de barracos", denunciou. Já a chamada "Lei da Grilagem Paulista" (2022) permite que ocupantes comprem terras públicas com até 90% de desconto, terras que poderiam ser assentamentos são entregues ao latifúndio. O integrante da coordenação estadual também destacou a luta das mulheres do MST no Pontal, que na Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra denunciaram que a grilagem continua sendo a principal forma de concentração de terra.
O coordenador estadual do MST também falou sobre a ofensiva ideológica do agronegócio no campo da educação, representada pelo movimento DONME (De Olho no Material Escolar). Criado em 2021, o grupo se apresenta como "movimento de mães do agro", mas tem por trás figuras como Letícia Zamperlini (família de fazendeiros de Barretos), Christian Lohbauer (ex-Bayer e ex-CropLife Brasil) e Roberto Rodrigues (ex-ministro da Agricultura, fundador da ABAG). O objetivo, segundo Peres, é eliminar dos livros didáticos visões críticas sobre o agronegócio como trabalho escravo, desmatamento, violência contra indígenas e contaminação por agrotóxicos, substituindo-as por uma visão "positiva" e "científica" do agro.
"No poema, o coronel ensina 'terras devolutas = terras sem dono'. No DONME, 'agronegócio é tech, pop, tudo'. É a mesma lógica: produzir consenso para naturalizar o modelo predador", alertou o militante do MST, citando também o poema "Não há Vagas", de Ferreira Gullar, para falar sobre o que cabe e o que não cabe no poema diante da realidade da fome e da exploração. "Resistir ao DONME não é só luta educacional, é luta contra o agronazifascismo. É luta para que a história não seja reescrita pelos algozes."
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