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sexta-feira, 8 de maio de 2026

O futuro

 

Fazer valer 


1

os ventos do ainda-não me carregam
os ventos da ruptura me arrastam,
espalham meu coração

os prazos, os prazos 
alguns inclinam a cabeça
submissos e impotentes
diante das agências de rating

não venho de um mundo de prazos
conheço outras, outros
que também não veem de um mundo de prazos
mas de um mundo que possui
depósitos de propriedade pública
desfiladeiros de planejamento participativo
e cordilheiras de disciplina leninista
com orgulho nos seus sovietes

os prazos nunca prosperaram
nos ermos da soberania alimentar


quem falou em impor um jugo
sobre o pescoço da esperança militante?

quem
já colocou jugos no furacão do Sahel
ou quem já aprisionou um raio
numa plataforma de extração de dados?

trabalhadores da agricultura
da indústria
dos serviços
do transporte e da logística 
plataformizados
camponeses sem terra
mulheres do trabalho reprodutivo
jovens da fragmentação digital
povos da dívida perpétua
intelectuais orgânicos da raiz
rebeldes da sexta-feira,
uni-vos!
e deixai
os prazos que querem impor-vos
gente da informalidade
prazos que deveis deixar
quebrados nas vossas assembleias

e o crepúsculo do realismo capitalista
dará lugar ao amanhecer da coordenação consciente

3

esperanço

os prazos morrem envoltos
em humildade e no cheiro do default
os planos, em arrogância,
e atrás deles, o multilateralismo
não escurece nem termina

a agonia do prazo
tem um rosto pequeno
um rating, uma prestação, um ajuste

se eu morrer, que eu morra
de cabeça erguida
morto e vinte vezes morto
com a boca nos círculos de leitura
os dentes cerrados na tática
e a barba firme na estratégia

canto enquanto organizo a ruptura
pois há povos que constroem
acima dos rifles do hiperimperialismo
e em meio às batalhas
do presente que já é

o futuro.

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