| a colônia me mastiga, me disfarça |
1
a colônia respira e eu sou célula
a colônia decide e eu sou rastro
a colônia pulsa, trêmula
a colônia me mastiga, me disfarça,
me enterra vivo
feromônios dançam
não no ar, mas no algoritmo
vestem minha cara
nascem do escândalo
correm mais rápido que qualquer pensamento
ah, os feromônios
ninguém os para
curtir, compartilhar, odiar bem rápido
curtir, compartilhar,
esquecer no próximo segundo
curtir, compartilhar
o enxame não se cansa
curtir
e a solidão vem de mansinho
senta ao meu lado
me chama de amigo
2
o algoritmo aprendeu meu medo
o algoritmo plantou meu ressentimento
o algoritmo me fez soldado cego
linha de montagem da indignação perpétua
o algoritmo me dissolveu no vento
e eu achei lindo
quem controla o feromônio da fúria?
quem controla o feromônio do perdão?
quem controla o feromônio da injúria?
quem controla a colônia quando a rainha cambaleia?
quem controla o que sobra de mim depois do like?
não há rainha morta, apenas espasmo
não há debate, apenas saneamento
não há plural, mas corpo na vala simbólica
não há indivíduo
existe só enxame
repito: só enxame
3
ainda sangro, penso, hesito, grito baixo
ainda pergunto: quem sou eu sem o laço?
mas a plataforma já tem a resposta
ela roda, noturna, impessoal, exata
e me diz:
você é o que late
grita!
você é o que compartilha
você é o que abraça sem saber o que abraça
4
colmeia de fósforo aceso na escuridão
colmeia de espelho que só reflete o mesmo
colmeia de grito que nunca vira conversa
colmeia onde o homem se transforma em pó
onde eu me transformo em pó
pó, pó, pó sem cinza
pó sem poeira
pó sem vestígio
sequer de morte
e o pensamento
tão lento, tão antigo, tão frágil
morre ali
sem vestígio de vida
antes de dizer seu primeiro nome
antes de dizer meu primeiro nome
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