segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Na lógica reacionária, os grandes sonegadores seriam marginais ou 'pessoas de bem'?

Nesses tempos onde o discurso 'reaça' está na moda e onde até mesmo deputados e 'autoridades' não se furtam a postarem nas redes comentários comemorando chacinas, a pergunta é bem pertinente: os grandes sonegadores, geralmente pessoas de fino trato, moradores de bairros/condomínios de alto padrão, frequentadores dos melhores salões, são marginais ou 'pessoas de bem' (para usar um conhecido jargão 'reaça')?


Num vídeo que ficou famoso nas redes, um policial diz que o termo 'marginal' serve àqueles que decidem viver à margem da sociedade, não pagam impostos e escolhem o mundo do crime. Então, seguindo essa lógica, o policial arremata: "tá na hora de deixarmos de nos preocupar com marginais, que se matem nas cadeias, vamos nos preocupar com os 'cidadãos de bem'".

Esse argumento rodou por toda a rede e saiu da boca de muitas pessoas, defensoras dos ditos "cidadãos de bem que pagam seus impostos" e contrários à qualquer política de direitos humanos, chamada por eles de "direito dos manos".

Da para perceber que o padrão de marginal que figura na cabeça dessas pessoas é o bandido pobre e negro, marginalizado e que lota os presídios brasileiros. É o padrão do 'marginal' martelado pela mídia, principalmente pelos programas policialescos.

Bem, mas e se mudarmos o foco? E se focarmos em figuras que usam terno e gravata e frequentam apenas ambientes VIP? Como fica o argumento?

Dados mostram que a sonegação fiscal no Brasil retira dos orçamentos públicos a bagatela de 500 bilhões anuais, ou seja, 5 vezes o orçamento da Saúde!! e o dinheiro desviado não vai para nenhuma instituição de caridade, vai para contas particulares em paraísos fiscais.

Enquanto isso, qualquer trabalhador tem imposto descontado na folha ou no supermercado, pois é o pobre que mais paga imposto proporcional no país, comprando comida, inclusive as mães e esposas dos presos, que gastam seu dinheiro vindo do auxílio na venda da esquina.

Quem é mais 'marginal', o bandido preso, o assaltante solto ou o sonegador comendo um creme brulee num restaurante chique? Quem?

E tem mais, grande parte dos mega sonegadores são os pilares de sustentação dos financiamentos de campanhas políticas, a verdadeira raiz da corrupção no Brasil. Ou seja, além de desviarem 5 orçamentos da Saúde do país ainda contribuem para eleger os corruptos que vão pessimamente administrar e desviar o que resta.

Vamos pegar um exemplo recente: Ronaldo Cezar Coelho, apontado como operador do caixa-dois da campanha de Serra em 2010 e que teria depositado 23 milhões de reais numa conta na Suíça, foi indiciado em 2004 por sonegação fiscal e evasão de divisas. A bagatela de 500 milhões de reais via conta CC5.

Vejam reportagem do DCM

Grandes sonegadores, grandes financiadores e lucradores do tráfico de drogas não moram na periferia e não perfazem o perfil da dita 'malandragem'. Não, criminosos do colarinho branco não estão nas listas das chacinas, estão na lista de financiadores de políticos, os mesmos que comemoram as mortes de pretos e pobres nas cadeias e nos territórios do tráfico e que pedem direitos humanos apenas para 'cidadãos de bem'.

E quando um governo ou algum grupo político ou social busca discutir a estrutura tributária brasileira, altamente regressiva e que taxa os mais pobres enquanto alivia a renda dos mais ricos, os sonegadores e seus fiéis bajuladores são os primeiros a saírem às ruas gritando contra o 'aumento de impostos' e a 'corrupção'.

Blog O Calçadão

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