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sexta-feira, 22 de maio de 2026

O ataque e a menina que não foi notícia

 


quem conta os mortos quando a bomba tem nome de deus?

1

o presidente disse que uma civilização inteira morreria esta noite
mas esqueceu de especificar qual

será a deles? a nossa?
a que ainda não aprendeu a contar
os zeros do orçamento militar?

2

às meninas da escola primária Shajarah Tayyebeh
em Minab, província de Hormozgan,
que foram mortas pela guerra ilegal israelense-estadunidense:
este poema não lhes devolve o futuro
mas ao menos escreve seus nomes
em meio à avalanche de títulos públicos
e comunicados de imprensa
Shajarah Tayyebeh
diz o nome em árabe: árvore pura
pura árvore cortada antes da primavera

3

o Irã tem armas nucleares, dizem
o Irã não tem armas nucleares, dizem os iranianos
o aiatolá Khamenei emitiu uma fatwa em 2003
proibindo armas de destruição em massa
ah, mas fatwa é coisa de religioso, não se pode confiar
e os 5.000 soldados iranianos
gaseados com mostarda fornecida pelos EUA
e pela Alemanha Ocidental
isso é coisa de civilizado?

4
nunca teremos uma arma nuclear, juraram
nunca, repetem desde 2003
nunca, ecoa a fatwa
ecoa a mostarda
nunca, mas quem ouve?
o ouvido do império está cheio de petróleo

5

Trump disse em 2004
o Iraque foi um erro terrível
Ah, me poupe!
e depois bombardeou o Irã duas vezes
duas vezes
porque errar é humano
persistir no erro é política externa

6

"mas por que atacam o Irã?"
pergunta o leitor desavisado na fila do pão
"petróleo", responde a história em voz baixa
"dólar", completa o economista mordendo o lápis
"orgulho ferido", corrige o poeta do fundo da cela

"camarada, passa a garrafa"
"não tenho garrafa, tenho este mapa"
"mapa de quê?"
"mapa do estreito: 54 quilômetros entre o Irã e a fúria"

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