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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Comissão de Educação Ambiental denuncia lobby do agronegócio para interferir em conteúdo escolar

Agronegócio contra a educação ambiental

Entidade afirma que setor pressiona por alterações em materiais didáticos para ocultar impactos ambientais e sociais

A Comissão Interinstitucional de Educação Ambiental de São Paulo (CIEA-SP) publicou no último dia 2 uma carta aberta em que manifesta "preocupação e repúdio" às pressões exercidas por grupos ligados ao lobby do agronegócio sobre o conteúdo educacional. O documento, divulgado em 2 de junho de 2026, denuncia tentativas de interferência em materiais didáticos e diretrizes curriculares para atender a interesses específicos do setor.

De acordo com a carta, 

"observa-se um crescente número de iniciativas ligadas a setores hegemônicos que buscam interferir em conteúdos e debates socioambientais nas escolas no sentido de mascarar as causas da degradação ambiental"

A CIEA-SP, que reúne instituições públicas e da sociedade civil, aponta que essas práticas "contrariam os princípios da Educação Ambiental crítica e transformadora instituídos na Política Nacional de Educação Ambiental (Lei nº 9.795/1999, atualizada pela Lei nº 14.926/2024)".

Pressão sobre editoras e Secretarias

A comissão cita nominalmente a atuação de grupos como a De Olho no Material Escolar (DONME), que, segundo o documento, "pressionam pela alteração de materiais escolares e diretrizes pedagógicas para atender a interesses específicos".

O alvo principal da crítica é o tratamento dado aos impactos ambientais do agronegócio. A carta afirma que há 

"ocultação dos malefícios dos agrotóxicos, apresentados como defensivos agrícolas e omitindo-se evidências científicas sobre intoxicação do solo, dos alimentos, dos trabalhadores rurais e o aumento de doenças crônicas nas populações expostas".

A CIEA-SP também denuncia que temas como "perda de biodiversidade, desmatamento, contaminação de mananciais e conflitos agrários que atingem povos indígenas e comunidades tradicionais" não recebem a devida atenção nos materiais didáticos sob pressão do setor.

Políticas públicas estaduais na mira

A carta aponta retrocessos em políticas públicas estaduais. "A Política Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica - PEAPO, que previa dispositivos sobre agrotóxicos e educação ambiental, sofreu vetos nestes artigos", denuncia a comissão. Já o Plano Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica, elaborado com participação da sociedade civil, "não está sendo implementado" no eixo específico sobre educação agroecológica e ambiental.

O documento afirma que 

"os resultados de pesquisas científicas que demonstram com clareza os efeitos dos agrotóxicos sobre o meio ambiente e a saúde humana são ignorados e muitas vezes contestados".

Educação ambiental como marco histórico

A manifestação ganha importância diante da inclusão, pela primeira vez, de um objetivo específico para a Educação Ambiental no Plano Nacional de Educação (PNE). O Objetivo 8 prevê 

"promover a educação ambiental e o enfrentamento das mudanças do clima em todos os estabelecimentos de ensino"

Para a CIEA-SP, 

"trata-se de um marco histórico que reconhece a Educação Ambiental como parte estruturante da política educacional brasileira".

A comissão defende que "a educação deve ser pautada na autonomia pedagógica, na ciência e na pluralidade de ideias, conforme garantido pela Constituição Federal", e classifica as interferências como tentativas de "disseminação de desinformação e enfraquecimento do pensamento crítico".

Posicionamento e encaminhamentos

A CIEA-SP reafirma seu "compromisso com uma educação comprometida com a sustentabilidade e justiça ambiental" e manifesta "solidariedade à comunidade escolar e científica". A carta será encaminhada às Secretarias Estaduais e Municipais de Meio Ambiente e de Educação, ao Ministério da Educação (MEC), ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), ao Órgão Gestor da Política Nacional de Educação Ambiental, às demais Comissões Interinstitucionais de Educação Ambiental (CIEAs), aos Conselhos de Meio Ambiente e de Educação e às entidades representativas de professores.

Esta não é a primeira vez que o lobby do agronegócio na educação é alvo de denúncias. Em 2024, reportagens da Aos Fatos e da Carta Capital já haviam revelado a atuação da DONME junto a secretarias de educação e editoras para alterar conteúdos sobre o setor . O professor da Faculdade de Educação da USP, Daniel Cara, também denunciou recentemente que editoras estão sendo pressionadas a substituir o termo "agrotóxico" por "defensivo agrícola" em livros didáticos

Leia a carta aberta na íntegra

Carta aberta da CIEA-SP em repúdio à ameaça do lobby de setores do agronegócio na educação e em defesa da educação ambiental crítica

A Comissão Interinstitucional de Educação Ambiental de São Paulo (CIEA/SP), no uso da atribuição de apresentar questões que demandam atenção de políticas de Educação Ambiental no Estado de São Paulo, vem a público reafirmar a defesa de uma Educação Ambiental crítica e emancipatória e manifestar sua preocupação e repúdio às ações e pressões exercidas por grupos ligados ao lobby de determinados setores da sociedade, dentre eles principalmente o do agronegócio, que podem acarretar na disseminação de desinformação e no enfraquecimento do pensamento crítico, incluindo aqui alterações que vêm sendo sugeridas para a atualização das Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Ambiental - DCNEA.

Essa manifestação ganha ainda mais relevância diante do fato de que, pela primeira vez, a Educação Ambiental possui um objetivo específico no Plano Nacional de Educação (PNE), o Objetivo 8: "Promover a educação ambiental e o enfrentamento das mudanças do clima em todos os estabelecimentos de ensino". Trata-se de um marco histórico que reconhece a Educação Ambiental como parte estruturante da política educacional brasileira.

A educação deve ser pautada na autonomia pedagógica, na ciência e na pluralidade de ideias, conforme garantido pela Constituição Federal. Entretanto, observa-se um crescente número de iniciativas ligadas a setores hegemônicos que buscam interferir em conteúdos e debates socioambientais nas escolas no sentido de mascarar as causas da degradação ambiental.

Um exemplo é a atuação de grupos específicos, como a De Olho no Material Didático (DONME), que pressionam pela alteração de materiais escolares e diretrizes pedagógicas para atender a interesses específicos, conforme amplamente divulgado pela mídia e pela academia¹.

Isso se expressa no tratamento dado aos impactos ambientais, sem a devida atenção para temas como perda de biodiversidade, desmatamento, contaminação de mananciais e conflitos agrários que atingem povos indígenas e comunidades tradicionais. Soma-se a isso a ocultação dos malefícios dos agrotóxicos, apresentados como defensivos agrícolas e omitindo-se evidências científicas sobre intoxicação do solo, dos alimentos, dos trabalhadores rurais e o aumento de doenças crônicas nas populações expostas.

Essas práticas contrariam os princípios da Educação Ambiental crítica e transformadora instituídos na Política Nacional de Educação Ambiental (Lei nº 9.795/1999, atualizada pela Lei nº 14.926/2024), que busca formar cidadãos capazes de questionar o modelo de desenvolvimento vigente e propor alternativas sustentáveis. Além disso, a pressão sobre editoras e Secretarias de Educação impõe uma abordagem única, censurando o trabalho de cientistas e professores e comprometendo o desenvolvimento do pensamento crítico.

Essa pressão também se manifesta na esfera das políticas públicas estaduais. A Política Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica - PEAPO, que previa dispositivos sobre agrotóxicos e educação ambiental, sofreu vetos nestes artigos. Já o Plano Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica, elaborado com participação da sociedade civil e que inclui um eixo específico sobre educação agroecológica e ambiental, não está sendo implementado neste tópico. Os resultados de pesquisas científicas que demonstram com clareza os efeitos dos agrotóxicos sobre o meio ambiente e a saúde humana são ignorados e muitas vezes contestados. Esses retrocessos demonstram como pressões externas e interesses corporativos têm dificultado a implementação de políticas que fortalecem a Educação Ambiental crítica.

Considerando o exposto, esta Comissão reafirma sua preocupação diante de todas as tentativas de interferências de conteúdo negacionista e que promovem a desinformação e o enfraquecimento da Educação Ambiental. Reitera sua solidariedade à comunidade escolar e científica e seu compromisso com uma educação comprometida com a sustentabilidade e justiça ambiental.

Desse modo, reforçamos também a importância de cumprir o previsto na Política Nacional de Educação Ambiental e nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Ambiental.

Que se dê ciência desta Carta Aberta às Secretarias Estaduais e Municipais de Meio Ambiente e de Educação, ao Ministério da Educação (MEC), ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), ao Órgão Gestor da Política Nacional de Educação Ambiental, às demais Comissões Interinstitucionais de Educação Ambiental (CIEAs), aos Conselhos de Meio Ambiente e Conselhos de Educação e às entidades representativas de professores.

São Paulo, 02 de junho de 2026.

Comissão Interinstitucional de Educação Ambiental do Estado de São Paulo (CIEA-SP)

¹ Pelland, A.; Frossard, M. O agronegócio como "má sociedade" civil na educação: análise de redes e impacto. DEBATES & POLÊMICAS • Educ. Soc. 46 • 2025 • https://doi.org/10.1590/ES.300928

Intercept Brasil. Associação ligada ao agro quer influenciar planos de educação estaduais e municipais. Matéria publicada em 22/12/2025. Disponível em: https://www.intercept.com.br/2025/12/22/associacao-ligada-ao-agro-quer-influenciar-planos-de-educacao-estaduais-e-municipais/

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