sábado, 17 de fevereiro de 2018

Vicente Golfeto e a defesa da ditadura neoliberal!

O Chile de Pinochet
o exemplo de 'livre mercado'

"Teoria Econômica" é o título da coluna do economista, comentarista político e ex-vereador Vicente Golfeto no jornal A cidade deste sábado (17/02/2018).

Na esteira da intervenção militar promovida pelo desgoverno sem voto de Temer no Rio de Janeiro, Golfeto resolveu tratar do tema sob o ponto de vista da economia.


Começa o artigo se declarando apreciador de figuras como Mises, Hayek e Friedman, os dois últimos com larga produção acadêmica sobre economia e o primeiro, um propagandista anti-marxista.

Quem costuma apreciar tais figuras também costuma defender certos preceitos colocados na agenda mundial pelo Consenso de Washington: Estado mínimo, privatizações e cortes na política social.

Até aí, tudo bem, cada um gosta daquilo que bem desejar. Nós aqui do blog preferimos Gunnar Myrdal, o economista construtor das bases do Estado de Bem-Estar Social escandinavo e que dividiu o Nobel de economia de 1974 com o liberal Hayek.

O problema é que a continuidade do artigo é um tanto quanto perturbadora. Não que as preferências econômicas e políticas de Golfeto não sejam muito bem conhecidas desde a época em que era vereador, mas a perturbação não respeita limites cognitivos.

Escreve Golfeto que releu na obra de Friedman o seguinte trecho: "embora a liberdade econômica seja necessária para a liberdade política, o inverso não é verdadeiro...'. Aí continua, dando como exemplo a ditadura de Pinochet no Chile, que implantou, através dos Chicago Boys, uma profunda agenda desestatizante na mais cruel e violenta das ditaduras. Fala também do governo Médici no Brasil, que perdeu a chance de aprofundar a agenda liberal, segundo Golfeto, no mais repressor período dos anos de chumbo.

Golfeto ainda dá como exemplo a China que, segundo ele, implanta uma política de livre mercado enquanto mantém uma pesada ditadura comunista sobre o povo. E termina seu artigo aprofundando seus argumentos perturbadores. 

Se referindo ao período atual, de Temer e intervenção, escreve: "Afinal de contas, ao retirar privilégios antigos que são cláusulas pétreas nas constituições dos povos - o povo brasileiro inclusive - ficamos diante da comparação do senador Roberto Campos: "você já tentou tirar osso de cachorro?"".

Enfim, Golfeto afirma que a liberdade econômica pode ser boa inclusive na ausência de democracia, basta que sejam implantados os preceitos do 'livre mercado' e todos ganharão.

Todos, entenda-se, os capitalistas, pois o povo trabalhador tem tanta liberdade de empreender em um Estado neoliberal quanto um cão tem liberdade de miar.

Ora, ora, ora...

O liberalismo, já no seu período inicial, de revolução burguesa, só forneceu boa vida a uma elite privilegiada. Aos excluídos, que eram muitos, só restou a luta, que foi tanta e de tamanho peso que o liberalismo primitivo teve de ser reformado entrando em cena a intervenção do Estado na regulação econômica e social.

Já essa vertente atual, o neoliberalismo, nascido nos idos de 1980, é muito pior. Além de não defender de maneira alguma o 'livre mercado', o neoliberalismo abre mão de posições inquestionáveis por um liberal de outrora, quais sejam, as garantias individuais e a democracia!

O Chile de Pìnochet, defendido em suas bases econômicas por neoliberalistas, só foi o paraíso na Terra para os grandes capitalistas.  Para o povo e para o Chile, o período dos Chicago Boys legou a brutal desigualdade social, além da repressão.

Aliás, a desigualdade que cresce aceleradamente no mundo neoliberal é um mal que os neoliberalistas adoram relativizar. "É por falta de reformas estruturais que garantam o 'livre mercado'"argumentam, quando na verdade o livre mercado é a última coisa que um sistema monopolizador e que se alicerça na garantia de liquidez dos Estados nacionais quer.

Tirando de cena a verdade de que o sistema atual não traz melhoria alguma para a população trabalhadora, apenas retrocessos de renda e de direitos sociais, sobra essa parceria do grande capital com o autoritarismo.

Isso é o mais perturbador.

Vimos em manifestações recentes grupos sociais pedindo intervenção militar contra a "ameaça comunista". São viúvas de 1964 assustadas com o que compram como verdade da narrativa midiática. Mas agora nós temos os barões das finanças, nacionais e internacionais, também clamando por ditadura.

Contra os comunistas?

Que nada. Contra as dificuldades da democracia.

Qual o método mais fácil de se retirar a aposentadoria do povo? Dialogando democraticamente? Não, implantando uma ditadura que vai "tirar o osso do cachorro" à força.

Vivemos o período mais obscuro desde a redemocratização.

Blog O Calçadão

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