| Dom Moacir durante celebração da missa Fotos: @filipeaugustoperes |
Manifestação na paróquia Nossa Senhora dos Anjos reúne movimentos sociais, pastorais e trabalhadores em protesto que reivindica justiça social, fim da escala 6x1 e proteção às mulheres
Na segundo-feira (7), Ribeirão Preto se transformou em espaço de resistência e esperança. Na Paróquia Nossa Senhora dos Anjos e Santa Edwiges, no bairro Heitor Rigon, a 32ª edição do Grito dos Excluídos e Excluídas reuniu em torno de uma centena de pessoas em torno de demandas que tocam o cotidiano de milhões de brasileiros: moradia digna, fim da exploração trabalhista, defesa das mulheres e soberania nacional. O ato, que começou às 8h30 com acolhida e prosseguiu com missa presidida por Dom Moacir Silva às 10h, ecoou um grito que há 32 anos não cessa de denunciar as injustiças estruturais do país.
Um grito que não cessa
O Grito dos Excluídos nasceu em 1995 como um contraponto popular aos desfiles cívico-militares oficiais do Dia da Independência. Desde então, a iniciativa mantém seu tema permanente: "Vida em Primeiro Lugar!". Mas a cada ano, as pautas se renovam, refletindo as feridas mais agudas do Brasil. Em 2026, o lema escolhido "Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, Erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!" conecta três eixos que atravessam a realidade brasileira com urgência.
A escolha não é aleatória. Enquanto o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU em 2025, a crise habitacional permanece aguda: 26 milhões de famílias vivem em situação inadequada, em áreas de risco, sem infraestrutura suficiente. Em Ribeirão Preto, a realidade também é crítica. O município enfrenta um déficit habitacional de 30.423 moradias, equivalente a 30% de toda a demanda habitacional local. Dessas, 20.302 precisam de uma casa nova (déficit quantitativo) e 10.121 precisam de reformas urgentes porque as casas estão em situações de precariedade (déficit qualitativo).
Nos 87 assentamentos urbanos da cidade, distribuídos em 39% pequenos (0-50 domicílios), 56% médios (51-500 domicílios) e 5% grandes (acima de 500), vivem 9.734 famílias, aproximadamente 30 mil pessoas. O dado mais alarmante: 84% desses assentamentos estão em terreno público municipal, o que significa que a Prefeitura tem poder de agir. Mas não age. Outros 31% estão em Áreas de Proteção Permanente (APP), 14% correm risco de inundação e 38% estão expostos a outros riscos, proximidade ao Aeroporto, faixas de alta tensão, contaminação do solo. Quase 3 em cada 4 famílias vivem em algum tipo de risco. "Muita casa sem gente e muita gente sem casa", resume a realidade que levou à paróquia homens, mulheres, jovens e crianças.
| Integrantes do MST participaram da cerimônia |
Vozes que ecoam a luta
A programação do ato em Ribeirão Preto refletiu a amplitude da mobilização. Começando com a acolhida às 8h30, a Partilha das Pastorais e Movimentos às 9h marcou presença de organizações que historicamente lutam pelos direitos dos excluídos: Pastoral Operária, Serviço Pastoral dos Migrantes, Pastoral Carcerária, Comissão Pastoral da Terra, Pastoral da Juventude, Cáritas Brasileira, Pastoral Afro-Brasileira, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e tantas outras que compõem a rede de resistência popular.
Diácono Fabrizio, responsável pela organização do ato em Ribeirão Preto, ressaltou a importância da mobilização conjunta. Começou diagnosticando o momento com precisão:
"A grande preocupação ainda é a terra, a paz e a moradia. Moradia é essa que foi muito trabalhada na campanha da fraternidade desse ano. E sempre eu falo que a demanda da humanidade, ela tem que sempre ecoar nos outros anos, não morrer naquele ano. Porque ainda temos o problema da fome, ainda temos o problema da água".
| Diácono Fabrizio |
Mas Fabrizio não parou no diagnóstico. Voltou-se para o momento eleitoral com exigência política cristalina:
"Que essas pessoas que estarão lá à nossa frente, nos representando, façam o bem como lhe pede, promovam a paz, promovam a soberania, vejam o bem comum de nós todos, não que tenham proventos próprios, mas que trabalhem em prol do povo brasileiro".
Para o diácono, as eleições de 2026 não são apenas uma escolha entre candidatos, mas um julgamento sobre quem de fato está comprometido com os excluídos.
Filipe Augusto Peres, da Coordenação Estadual do MST, trouxe a voz do campo para o centro da mobilização. Citando São Bento, afirmou: "Busca a paz e segue-a". Mas complementou com urgência:
"Não há paz sem casa. Não há paz com mulheres sofrendo diversas formas de violência, no plural, em suas próprias residências. Paz não é um conceito abstrato, é ter um teto, é ter segurança, é ter dignidade".
Os números que ecoavam nas ruas de Ribeirão Preto davam corpo à sua fala: 87 assentamentos urbanos onde 30 mil pessoas não têm moradia adequada; 376 violações contra mulheres registradas apenas no primeiro semestre de 2026, uma a cada 4 horas; 87% dos casos de violência doméstica que permanecem invisíveis, sem denúncia.
"A paz que o Grito proclama não é a paz do conformismo. É a paz da justiça", concluiu Peres.
A missa
A missa presidida por Dom Moacir Silva às 10h não foi apenas um ato religioso. Foi um momento de reflexão coletiva sobre responsabilidade cristã. Segundo a mensagem oficial da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora da CNBB, "envolver-se na política é uma obrigação para o cristão. Nós cristãos não podemos nos fazer de Pilatos e lavar as mãos".
Dom Moacir, Arcebispo de Ribeirão Preto, conectou em sua pregação a fé com a ação política, lembrando que Jesus "veio para que todos tenham vida, e tenham vida em abundância". Para o Arcebispo, a verdadeira missão da Igreja é "trazer a justiça ao mundo", garantindo que
"todos tenham vida, e não qualquer vida, mas a vida plena. Que é o projeto de Deus... da sua organização humana, afetiva, da sua organização, da satisfação de todas as suas necessidades para poder viver bem".
Dom Moacir alertou ainda sobre a urgência do momento eleitoral:
"É um momento, às vezes, de rever, da gente ter bastante consciência para aqueles que irão nos representar. Porque muitas coisas nós conseguimos, às vezes, mudar, ficar melhor, é nesse momento de eleição".
E reforçou a importância de votar conscientemente:
"Que tenhamos consciência plena, que essas pessoas que estarão lá à nossa frente, nos representamos, faça o bem como lhe pede, promova a paz, promova a soberania, veja o bem comum de nós todos, não que tenha proventos próprios, mas que trabalhem em porra do povo brasileiro".
A espiritualidade dos excluídos, segundo o Arcebispo, não é contemplativa, mas combativa. É a fé que move para as ruas.
Mulheres vivas: o grito mais urgente
| Movimentos, lideranças ligadas à igreja falaram durante o ato |
Se a moradia é a porta de entrada para todos os direitos, a violência contra as mulheres é a porta de saída. Em 2025, foram registrados 1.568 feminicídios no Brasil , um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. A cada seis horas, uma mulher é assassinada por sua condição de gênero.
Em Ribeirão Preto, a violência contra mulheres atinge grandes proporções: foram registradas 376 violações contra mulheres no primeiro semestre de 2026, um salto de 58% em comparação com as 238 registradas no mesmo período de 2025. Mulheres de 20 a 29 anos lideram as estatísticas de violência. Ainda mais grave: 73% dos crimes ocorrem em residências, caracterizando violência doméstica que vitimiza em média 13 mulheres por dia na região. E há um dado que expõe o tamanho real da tragédia: 87% das vítimas de violência de gênero permanecem fora dos registros oficiais, segundo estimativas, ou seja, se 100% dos casos fosse notificados, Ribeirão Preto poderia ter em torno de 2892 violações, ou 16 casos por dia.
Esses números não são abstratos para as mulheres em Ribeirão Preto. Muitas delas estão à frente de lares, 51% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, enfrentando simultaneamente a falta de moradia digna, a precariedade do trabalho e a violência doméstica.
A gentrificação que expulsa pobres dos centros urbanos afeta desproporcionalmente as mulheres, que além de enfrentarem a falta de teto, sofrem com expulsão do domicílio e, quando não, para não sofrerem o despejo, muitas vezes acompanhadas de julgamento moral, suportam a violência patrimonial praticada por companheiros.
Quando 71% das violações formalizadas envolvem mulheres, quando 87% das vítimas permanecem invisíveis nos registros, quando a violência doméstica prospera no silêncio das periferias, das casas, o grito não é apenas de protesto, mas de reafirmação urgente: mulheres vivas, mulheres soberanas, mulheres livres de violência. É o grito de quem se recusa a ser estatística.
O Brasil que se escolhe nas urnas
O contexto eleitoral de 2026 pesava sobre cada palavra dita em Ribeirão Preto. A manifestação ocorria não apenas como denúncia, mas como convocação: o Brasil que queremos depende das escolhas que faremos nas urnas. A CNBB, em sua mensagem oficial, foi clara:
"Nossa tarefa é defender as liberdades democráticas contra o autoritarismo, sem cair na ilusão da 'democracia dos ricos'. Precisamos escancarar os limites desta democracia burguesa, que se tornou estreita demais para as demandas populares."
Neste momento, quando o imperialismo norte-americano intensifica pressões sobre países da América Latina, quando Venezuela e Cuba resistem a bloqueios econômicos, quando a soberania brasileira está em jogo, o Grito ressoa como alerta: não se vota em quem quer por em risco a soberania do país, não se vota em quem transforma o bem público em objeto de lucro, não se vota em quem quer impor regimes autoritários, não se vota em quem comete violência contra a mulher.
O fio condutor da esperança
E assim, como Diácono Fabrizio afirmou em sua fala, São Bento nos convida:
"Que nenhum homem siga o que considera útil para si mesmo, mas antes o que é útil para o outro",
O Grito dos Excluídos ecoa, a cada 7 de setembro, nas ruas de Ribeirão Preto e do Brasil.
Há 32 anos esse grito não cessa. Há 32 anos, a cada 7 de setembro, enquanto o Brasil celebra a independência oficial, os excluídos e excluídas proclamam uma independência verdadeira: a liberdade de ter um teto, um trabalho digno, terra para plantar, paz sem guerras, mulheres vivas. Em Ribeirão Preto, como em tantas cidades do Brasil, esse grito continua, porque a vida, de fato, precisa estar em primeiro lugar. E enquanto não estiver, o grito há de ecoar.
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Fontes
IBGE - Censo 2022 (dados habitacionais de Ribeirão Preto)Plano Local de Habitação de Interesse Social (PLHIS) - Prefeitura de Ribeirão Preto
G1 Ribeirão Preto - Dados sobre violência contra mulheres (2026)
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