sábado, 10 de março de 2018

Os assentados da antiga fazenda da Barra são um exemplo para Ribeirão Preto! Por quê?

Agrofloresta

Todos nós que vivemos em Ribeirão Preto sabemos e sentimos morar em uma cidade excludente onde os acessos só estão abertos para aqueles que têm dinheiro.

Mobilidade urbana, serviços de saúde, lazer, cultura, segurança, educação, emprego e renda, moradia, influência e participação nos rumos políticos, econômicos, urbanísticos, ambientais e sociais do município.

Pense você em cada questão acima e responda com honestidade: o povo, a população trabalhadora da cidade, tem acesso, proximidade, influência em algum deles?


Muito pouco.

Nós aqui deste blog sempre defendemos que Ribeirão Preto precisa passar por uma profunda democratização, coisa que só será possível com a mudança de alguns paradigmas vigentes há décadas nessa cidade.

O maior dos paradigmas: o total predomínio da influência do poder econômico sobre os rumos da cidade. 

Executivo e Legislativo são constantemente pautados pelo poder econômico e suas demandas.

Principalmente o poder da especulação imobiliária e do agronegócio.

E junto a esses dois poderes do campo econômico se estrutura um conjunto de outros empreendimentos menores voltados para uma Ribeirão Preto dos grandes eventos, uma Ribeirão Preto construída para a alta sociedade e seus penduricalhos de classe média alta.

Todo um sistema que se concentra em uma pequena porção da cidade, a zona sul, o corredor Vargas-Bonfim, e que se desenvolve dentro de uma lógica mercantilista, patrimonialista, individualista e excludente.

Enquanto isso, cerca de 80% da população se espalha por bairros populares das zonas norte, oeste e leste. Cada vez mais longe de agências bancárias, consultórios médicos e hospitais, de toda a rede de serviços e eventos só acessíveis aos endinheirados e em contato direto com os problemas de mobilidade urbana, segurança, infraestrutura e emprego, por exemplo.

São nos bairros populares que estão os graves problemas de falta de moradia e de regularização fundiária urbana, que faz com que Ribeirão Preto já conte com mais de 100 núcleos de ocupação urbana: comunidades ou favelas.

Mas, dentro dessa ótica, onde os assentados da fazenda da Barra entram nessa história?

Entram na tal mudança de paradigma!

A maioria da população desconhece ou se conhece certamente o faz a partir de informações distorcidas pela mídia hegemônica, parceira dos grandes grupos financeiros que predominam nas decisões da cidade.

Mas é preciso um esforço para que a informação correta seja colocada para o povo.

Se não fosse a luta dos movimentos para fazer da antiga fazenda da Barra um assentamento da reforma agrária, há mais de 10 anos, toda aquela região, que antes era uma terra destinada à monocultura da cana, que destrói a terra e o meio ambiente, estaria hoje debaixo de asfalto e construção civil, pois com a saturação da zona sul, as regiões ainda não ocupadas da zona leste são hoje o filão da especulação imobiliária.

Portanto, os assentamentos da fazenda da Barra são a pedra no sapato dos dois grandes poderes de Ribeirão Preto: o agronegócio e a especulação imobiliária.

Tanto que o debate sobre o Plano Diretor, que deverá ser votado ainda este semestre, emperra em um dos artigos que busca proteger ambientalmente a zona leste.

A fazenda da Barra, com seus assentamentos, é um coração social e ambiental que pulsa dentro de uma cidade que, sob o domínio do dinheiro, caminha na direção contrária.

Hoje, naquela região, além da questão social, com assentamentos de trabalhadores e trabalhadoras, que antes não tinham nem moradia e nem renda, na terra, há também o grande avanço da produção de alimentos pela técnica da agrofloresta.

Por esta técnica, levada à frente nacionalmente pelo MST e localmente no assentamento Mário Lago, na Barra, a produção de alimentos (frutas, legumes e hortaliças) se dá no mesmo espaço do reflorestamento, dispensando o uso de agrotóxicos e recuperando a terra e o meio ambiente da região, principalmente trazendo de volta a água.



Trazer de volta a água para a região da Barra significa garantir a recarga do Aquífero Guarani, que se localiza exatamente ali naquela grande região, e a preservação do rio Pardo, que corre ali também.

Os alimentos saudáveis, que já podem ser consumidos pela população (cestas agroflorestais), mas lógico que ainda de uma forma pequena, pois a falta de apoio dificulta o aumento da produção, representam um dos muitos resultados práticos e benéficos vindos da fazenda da Barra hoje.

Houvesse apoio para o aumento da produção, os primeiros beneficiados seriam os bairros próximos aos assentamentos, não só através das parcerias de feiras livres mas também com projetos de economia solidária a serem desenvolvidos ali.

obs) Os bairros do Ribeirão Verde já buscam desenvolver projetos de economia solidária e tem uma boa relação com os assentamentos (entrevista em breve aqui no blog).

Ou seja, Ribeirão Preto precisa de um choque de democratização! 

Ribeirão Preto precisa criar espaços de participação política efetiva para a população, seja ela organizada em movimentos sociais ou não.

O desenvolvimento da cidade precisa ser para todos, precisa atingir todos os bairros e precisa se dar por uma lógica mais social, humana e participativa.

E o que ocorre hoje na antiga fazenda da Barra, principalmente no assentamento Mário Lago, é um dos muitos exemplos bons que apontam que uma Ribeirão Preto diferente é, sim, possível.

Ricardo Jimenez

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