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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Poema de arquivos queimados

a bandeira vira trapo no fuzil do fazendeiro

1

a pólvora do agro na semente do golpe
e o latifúndio escancaram o ventre do país...

o arado do agrobusiness navalha na cara da terra
o veneno que escorre liturgia
nazista pelo pulmão do campo
o dólar não conhece pátria
mas a bandeira vira trapo
no fuzil do fazendeiro, sua reza
pelo preço da soja em Chicago
a boiada fogo devorando
o santuário da floresta

no congresso os bois vestem gravata
seu mugido uníssono aprova a monocultura
que engole o deus indígena
enquanto a fome senta à mesa
do banquete neoliberal

2

a ferida de 1964 não cicatriza
o fantasma da reforma agrária vaga pela casa grande
o discurso de Jango ecoa na Esplanada 
abafado 
pelo militar de terno
que trocou a farda
apenas a farda
não a mão de ferro e intolerância

o fascismo eterno de Eco: 
espelho sem rosto
ação que atira 
a morte como troféu 
a criação de mitos
o herói que nunca existiu

3

O coldre falo de aço do patriotário
vestido de soldado de plástico
a novilíngua repete "Tá ok" na boca do ditador 
a escola, quando pátio de silêncio,
o caderno perde todas as cores

quando o psicólogo desaparece na gaveta do prefeito
a merenda migalha o amigo do rei
e a diversidade se torna crime de afeto

"a diretora que acolheu uma menina trans
recebe sentença da Câmara", diz a manchete do jornal

4

o agrotóxico, herança da IG Farben...

a Bayer vende o mesmo veneno com outro nome 
a terra devoluta nas mãos do Estado capitalista
serve ao latifúndio de terno e gravata
sem sujar-lhes as mãos
(porque nunca estiveram lá)
enquanto o sem-terra com o pé na cerca
fixa o olho no horizonte

os revolucionários não cabem no diagnóstico
sua mão arranca o capim da fome:
a ocupação da terra 
único título de posse
no asfalto se abre canteiro
para as sementes da revolução

carta sem remetente
a poesia clandestina
o combate 
única rima possível contra a fome 
este poema que não se cala
contra a morte no fim de cada verso
faz a esperança-vida se multiplicar


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