1
a pólvora do agro na semente do golpe
e o latifúndio escancaram o ventre do país...
o veneno que escorre liturgia
nazista pelo pulmão do campo
o dólar não conhece pátria
mas a bandeira vira trapo
no fuzil do fazendeiro, sua reza
pelo preço da soja em Chicago
a boiada fogo devorando
o santuário da floresta
no congresso os bois vestem gravata
seu mugido uníssono aprova a monocultura
que engole o deus indígena
enquanto a fome senta à mesa
do banquete neoliberal
2
a ferida de 1964 não cicatriza
o fantasma da reforma agrária vaga pela casa grande
o discurso de Jango ecoa na Esplanada
abafado
pelo militar de terno
que trocou a farda
apenas a farda
não a mão de ferro e intolerância
o fascismo eterno de Eco:
espelho sem rosto
ação que atira
a morte como troféu
a criação de mitos
o herói que nunca existiu
3
O coldre falo de aço do patriotário
vestido de soldado de plástico
a novilíngua repete "Tá ok" na boca do ditador
a escola, quando pátio de silêncio,
o caderno perde todas as cores
quando o psicólogo desaparece na gaveta do prefeito
a merenda migalha o amigo do rei
e a diversidade se torna crime de afeto
"a diretora que acolheu uma menina trans
recebe sentença da Câmara", diz a manchete do jornal
4
o agrotóxico, herança da IG Farben...
a Bayer vende o mesmo veneno com outro nome
a terra devoluta nas mãos do Estado capitalista
serve ao latifúndio de terno e gravata
sem sujar-lhes as mãos
(porque nunca estiveram lá)
enquanto o sem-terra com o pé na cerca
fixa o olho no horizonte
os revolucionários não cabem no diagnóstico
sua mão arranca o capim da fome:
a ocupação da terra
único título de posse
no asfalto se abre canteiro
para as sementes da revolução
carta sem remetente
a poesia clandestina
o combate
única rima possível contra a fome
este poema que não se cala
contra a morte no fim de cada verso
faz a esperança-vida se multiplicar

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