Páginas

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Grito dos Excluídos em Ribeirão Preto reforça luta popular, memória histórica e solidariedade internacional

 

Arcebispo Dom Moacir Silva celebra missa no Lar Santana 
Fotos: @filipeaugustoperes

Neste domingo (7), centenas de pessoas estiveram participaram do Grito dos Excluídos, em Ribeirão Preto. Com o lema nacional “Vida em primeiro lugar! Cuidar da Casa Comum e da democracia é luta de todo dia”, a celebração reuniu fé, memória popular e compromisso social.


A concentração aconteceu na praça Coração de Maria, onde aconteceram falas de diversas pessoas, diversas entidades, partidos políticos e representantes da sociedade civil. Em seguida, os militantes realizaram uma marcha até o Lar Santana , lugar em que a população luta pela implementação do Memorial da Resistência Madre Maurina Borges. No local, o arcebispo de Ribeirão Preto, Dom Moacir Silva celebrou a missa do 31º Grito dos Excluídos.


Fátima Suleiman, presidenta do Comitê Permanente para a Causa Humanitária Palestina 

Neste ano, as pautas que mobilizaram os milhares de trabalhadores e trabalhadoras foram: Brasil Soberano, contra o tarifaço norteamericano; redução da jornada de trabalho; isenção do imposto de renda para quem recebe até R$5 mil mensais; entre outras.


Memória e resistência no Lar Santana


Um dos pontos centrais das falas foi a ocupação do Lar Santana, realizada em agosto. O advogado Vanderlei Caixe, da Associação Memorial da Resistência Madre Maurina Borges, afirmou que o ato simboliza a construção do poder popular e a retomada da memória histórica da cidade, lembrando que o espaço foi o local da prisão e tortura da Madre durante a ditadura.


Lar Santana durante a missa

O ambientalista Paulo, da Associação Pau Brasil, reforçou o caráter popular da ocupação, alertando contra tentativas de esvaziar seu significado. Para ele, devolver o Lar Santana ao povo é garantir que a história de resistência não seja apagada.


Vozes da Igreja e da juventude


A dimensão religiosa também esteve presente. O padre Flávio Livotto leu a mensagem oficial do Grito dos Excluídos, baseada na encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, denunciando a crise ambiental e a precarização social. Já o jovem Carlos, da Pastoral da Juventude, destacou o compromisso das novas gerações com a defesa da vida, da democracia e da “casa comum”, criticando a mercantilização da vida e a criminalização da juventude.


Socialismo, trabalho e justiça social


Diversos militantes de partidos de esquerda destacaram a necessidade de mobilização popular e de ruptura com o capitalismo.


Caio Cristiano, presidente do PSOL, criticou a ausência de um chamado nacional pelo governo Lula neste 7 de setembro e defendeu a centralidade da classe trabalhadora.


Gustavo, do PCB, ressaltou a luta de classes e a necessidade de solidariedade internacionalista, especialmente com a Palestina.


Estevan Martins de Campos, do MES/PSOL, defendeu a unidade contra a extrema direita e contra a anistia aos golpistas.


Representantes do MST também marcaram presença. Joaquim Lauro Sando, da direção estadual, defendeu a reforma agrária, a preservação ambiental e a justiça tributária como caminhos para a soberania.


Padre Flávio Livotto

No campo institucional, as vereadoras Perla Müller e Duda Hidalgo (PT) denunciaram a precarização da vida e defenderam justiça social, redução da jornada de trabalho, políticas públicas contra a desigualdade e resistência ao fascismo.


Moradia e luta concreta


A questão da moradia esteve no centro da fala de Matheus, da Unidade Popular (UP). Ele anunciou que o MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas) realizou 18 ocupações em 15 estadosneste 7 de setembro, conectando a luta pela habitação digna à soberania popular.


Solidariedade à Palestina


A dimensão internacional ganhou força nos discursos. Fátima Suleiman, do Comitê Permanente da Causa Humanitária Palestina, fez um denunciou o genocídio e a limpeza étnica promovidos por Israel contra o povo palestino. Convocou ainda a militância para o ato internacional do próximo dia 13 em solidariedade à Palestina.


Na mesma linha, a militante Sônia, do TLS, relacionou a luta palestina à resistência brasileira e convocou mobilização massiva contra a reforma administrativa em tramitação no Congresso.


Um chamado coletivo à mobilização


Encerrando o ato, João Brás, presidente do Memorial Madre Maurina, fez duras críticas a setores conservadores locais e reforçou o papel da memória histórica e da luta sindical na defesa da democracia. Ele destacou que a soberania popular e a solidariedade internacional são os pilares de uma sociedade justa.


Dom Moacir Silva 


Dom Moacir pediu pediu que os presentes traduzam sua fé em ações concretas de solidariedade e justiça no cotidiano


Após a marcha, já no Lar Santana, em homilia, Dom Moacir Silva dirigiu-se aos presentes com uma reflexão de caráter espiritual e social, baseada no Evangelho e nos ensinamentos da Igreja e destacou que a vida é um caminho marcado por desafios e escolhas, mas que deve ser orientado pela sabedoria de Deus e pela prioridade do amor.


“A nossa vida é um caminho nem sempre linear, nem sempre fácil, que nos leva até a meta final da nossa existência, a vida verdadeira, a vida eterna”, 


afirmou o arcebispo, destacando que apenas pela abertura ao Espírito Santo é possível encontrar a direção correta .


O Evangelho e o discipulado


Inspirado nas leituras bíblicas, Dom Moacir destacou que seguir Jesus exige compromisso radical e renúncia ao egoísmo. 


“Quem embarca na aventura do Reino de Deus deve fazê-lo sem reticências, sem transigências, com total empenho e compromisso”


disse, lembrando que o discipulado implica tomar a cruz do amor, do serviço e da doação .


O Arcebispo questionou ainda se os cristãos de hoje têm colocado os valores do Reino acima de seus próprios interesses, desafiando os presentes a refletirem sobre suas prioridades diante das exigências de Jesus.


Amor como fundamento da vida social


O arcebispo frisou que o amor deve estar no centro da experiência cristã e da construção social. 


“É o amor que nos permite descobrir a igualdade de todos os homens, filhos do mesmo Pai e irmãos em Cristo”, declarou .


Para Dom Moacir, a exploração, a guerra e a injustiça não podem ser superadas por métodos violentos. Ele chamou atenção para o fato de que apenas a conversão dos corações ao amor poderá inaugurar uma nova ordem social: 


“A construção de um mundo mais feliz e fraterno só acontecerá com a conversão ao amor. Quando nascer a civilização do amor, teremos finalmente um mundo humano, justo, pacífico e fraterno” .


Cuidado da casa comum e desafios atuais


Em sua reflexão, Dom Moacir também lembrou que o compromisso cristão passa pelo cuidado da criação. Alertou contra o desmatamento, a degradação ambiental e a lógica econômica que coloca o lucro acima da vida, reforçando que 


“cuidar da casa comum é parte essencial da missão do discípulo” .


Encerramento


Ao final, pediu que os presentes traduzissem sua fé em ações concretas de solidariedade e justiça no cotidiano. 


“Peçamos ao Senhor a graça de nos deixarmos envolver profundamente pelos apelos dessa palavra e traduzir esse envolvimento em gestos concretos do nosso dia a dia”, concluiu 


Roteiro da missa defende a “civilização do amor” e chama à conversão pelo cuidado da casa comum no Encontro dos Excluídos


Tom profético e comunitário


Após a homilia, logo na abertura, os cânticos ressaltaram solidariedade e serviço: 


“Eu vivo pra amar e pra servir” e “Sou profeta da verdade, canto a justiça e a liberdade”. O Ato Penitencial trouxe a denúncia das injustiças sociais: 


“O pecado arrancou a alegria do sertão… o lucro tem lugar, sertanejo não tem”.


Partilha no centro da mensagem


Inspirada nos Atos dos Apóstolos, a liturgia destacou a partilha como fundamento da vida cristã: 


Os cristãos tinham tudo em comum”


O ofertório reforçou que a criação é destinada a todos e que a fé deve se traduzir em solidariedade concreta.


Eucaristia como esperança


Na consagração, a Eucaristia foi apresentada como “ato supremo de amor e esperança”, capaz de transformar a dor em vida e fortalecer a caminhada dos que lutam por justiça e dignidade. Cânticos populares, como o “Santo Olelê”, aproximaram a celebração da cultura popular e da espiritualidade do povo.


Fé e luta lado a lado


Em sua celebração Dom Moacir, entendeu o Grito dos Excluídos como um chamado permanente à ação transformadora. 


“A vida precisa estar em primeiro lugar, acima do lucro e da exclusão. A democracia e a Casa Comum só se sustentam quando há partilha, solidariedade e respeito à dignidade humana”, afirmou o arcebispo.


Ao término da missa, o arcebispo plantou uma árvore no local em memória de Madre Maurina Borges, onde também abençoou com o gesto de direcionar a água sobre a árvore da freira franciscana.


Água benta


Após o ato de plantar, Dom Moacir, acompanhado por Vanderlei Caixe, caminhou pelo prédio do Lar Santana, onde pode visualizar o abandono realizado pelo poder público com a memória e a vida de luta e fé de Madre Maurina Borges.


Advogado Vanderlei Caixe e Dom Moacir durante visita ao Lar Santana


O que Memorial da Resistência Madre Maurina Borges


Para os organizadores, transformar o Lar Santana em Memorial da Resistência Madre Maurina Borges é um ato de reparação histórica e de preservação da memória coletiva de Ribeirão Preto. O espaço, que já foi orfanato dirigido por Madre Maurina, resgata a trajetória da religiosa injustamente acusada e torturada pela ditadura militar, simbolizando a luta contra o esquecimento. 


Os militantes afirmam que mais do que um museu, o memorial se propõe a ser um espaço vivo de educação e reflexão, com oficinas, debates e atividades culturais, garantindo que a democracia e os direitos humanos sejam valores sempre lembrados e reafirmados pelo compromisso coletivo do “Nunca Mais!”


MST realiza ação solidária 


Após a celebração da missa, por meio da Cooperativa Orgânica Agroflorestal Comuna da Terra, o MST realizou ação solidária e entregou 1 tonelada de alimentos saudáveis, livres de agrotóxicos às pessoas presentes no ato e à população dos arredores.



Mais fotos


























































Nenhum comentário:

Câmara derruba veto e promulga lei que afasta servidores investigados por violência contra crianças

  Projeto de autoria da vereadora Duda Hidalgo (PT) foi aprovado após rejeição do veto do prefeito Ricardo Silva (PSD) por 12 votos; texto a...