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| Celebra! Vencemos! |
Segunda parte de "Teimosia dos Cansados"
1
perguntaram-me se ainda estou cansado
claro que estou
mas o cansaço agora é outro:
peso do corpo que dançou a noite inteira
voz rouca de tanto cantar coletivamente
de quem sente o gosto do suor e da justiça pelo povo
não é mais a prova de que luto
pois não lutei sozinho
dois dias após
o desânimo desaparecera naquela terça
fora enterrado na praça
debaixo dos nossos pés cansados
onde não havia mais tempo para silenciar
ao ver tanta injustiça
e, ontem, toda esta violência repetida
2
ainda não acabou, sabemos
lúcidos, precisamos estar atentos
para saber onde golpear a mentira
mas ontem, uma estrutura da mentira caiu
a ferida aberta ainda não cicatrizou
encontramos o inferno na noite daquela segunda
e nossa frustração virou raiva
onde cresceu o ódio-amor que nos salva
e deu a muitos uma esperança mínima
desde então fomos a maioria nas ruas
triste? não mais
um dia após o 5 de outubro
lembramos
nossa herança é amar
e quando o povo sangrou
de mãos dadas, não nos rendemos
entendemos
ainda não chegara a era do luto necessário
lutamos pela alegria verdadeira
e as mobilizações se avolumaram
e as mobilizações transbordaram
nesse meio tempo
e em transbordamento
alguns de nós se apaixonaram
ou reforçaram o amor ao próximo
bravo? demais
a injustiça não acabou
e o fascismo segue batendo à porta
rio caudaloso, nossa raiva correu
e como chama
serviu aos que dormiam na intempérie
iluminou a noite escura da opressão
sim, hoje o sol nasceu
hoje
não, não acabou
e deixamos um recado claro:
desistir? jamais
nem quando a noite parecia eterna
nem quando o medo sussurrava no ouvido
respondemos que se morte, que valesse a pena
que nos encontrasse de pé
não abdicamos do nosso direito à existência
o amor, fazer sorrir, o gesto simples nos torna vivos
os encontros improváveis nos lembra que não controlamos tudo
e nem precisamos
o que sabemos do futuro?
vitoriosos
temos o corpo pleno de desejos
tesão
e estamos bem com isso
celebremos nossos corpos
nossos corres
nossas cores
com o punho erguido
e o coração cheio de esperança
construímos a memória coletiva
3
nosso amor
o que sentimos
nos levantou da cama
mesmo quando tudo doeu
e todas as palavras que nos foram negadas
foram voz que ecoou além dos microfones do poder
aqueles que cantavam vitória antes de nós
ainda desejam enterrar nosso corpo em valas
nos enviar ave-bala sem numeração com tiro de fuzil se preciso
não entenderam, ainda,
que mesmo que nos enterrem mil vezes
nosso desejo
na terra
como semente de nossas transformações coletivas
farão mil outros desejosos e desejosas brotarem
eles ainda não entenderam
que já não cabemos mais no chão
nem em cova rasa
4
a luta social
a matéria
tudo o que nos movimenta
amor
não calamos o grito
a mão pequena de uma criança
a juventude se beijando em praça pública
o sol insistindo em cantar
hoje se realiza sem medo,
a mata ciliar preservada,
a surpresa dos amantes
o beijo lúdico na barriga de uma cadela golden
o cachorro a mais
a força revolucionária
o porvir
além do fetiche da mercadoria
a vida
a luta socialista
levantou um capítulo importante na história deste país
ontem, vencemos
não podemos parar
a sombra do facismo nos espreita
mas, ontem,
a noite eterna não veio
e os discursivos que tentaram nos impor
as conversas alegres de quem nos odeia e quer nos matar
ontem, pelo menos ontem, tiveram de nos engolir à seco
rio sem margem
oceano de abismos
ontem, construímos uma ponte
o silêncio
a comida silenciosa
o pós-jantar silencioso da família de bem
não veio
a solidão que queriam nos impor
foi quebrada pela nossa solidariedade
a polícia secreta terá de esperar mais um pouco
para impor a ausência do mundo:
a delação da esposa pelo esposo
do filho pelo pai
do irmão contra o irmão
aquele deserto de espelhos quebrados
em que a mentira se torna a lógica
a estética da barbárie
do absurdo
se torna a ordem
a massa, com medo do abismo da verdade,
preferindo a consistência do pesadelo
não veio
nos levantamos
nos levantamos porque amamos
nos levantamos porque gostamos de amar
nos levantamos porque precisamos nos amar
nos levantamos por sabíamos que nada estava perdido
mentiram pra você
a infância nunca esteve perdida
lúdicos, ainda festejamos
mentiram pra você
a mocidade não estava perdida
ela brota e também deseja a revolução
está mais viva do que nunca
não, camaradas, a vida não se perdeu
nós a encontramos uns nos outros
e o poder, que ainda não nos pertence, a juventude o tomará
se o primeiro amor passou
se o segundo amor passou
temos direito a um terceiro amor
temos direito a amar quantas vezes quisermos
nosso coração continua
e estamos à sombra de um mundo novo
e nos sabemos imperfeitos
mas quem exigia uma perfeição discursiva
eram eles
equânimes, nos aceitamos em nossas incoerências,
nossas inconsistências
e nos governamos com elas
5
nossos inimigos sentiram
nosso protesto não foi tímido
somados, de mãos dadas
entre afetos
os precipitamos nas águas
ontem, ficamos nus na areia, no vento…
e eles não puderam fazer nada a respeito disso
o que dizer?
em meio a todo este processo de luta
fruto de um desejo coletivo
da necessidade de encontro
primavera apareceu
sim, nos demos bem
e, ontem, vencemos
sim, celebra
vencemos!

Um comentário:
Vencemos!!
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