| Cypher vende Morpheus por um filé que não existe. (Matrix -1999) |
O que define o lado, a vida não é a retórica, mas a prática: enfrentar a Matrix ou vender Morpheus por um filé.
Em agosto de 2026, publiquei no Blog O Calçadão o artigo "Eleição 2026: não pode haver dúvida entre o voto crítico em Lula ou entregar o país ao autoritarismo". Naquele texto, parti de uma constatação que sigo considerando central: desde 2018, o Brasil vive eleições excepcionais, que não são ordinárias. Discuti que a eleição não sintetiza a luta de classes, mas também não é irrelevante para ela. Apontei o paradoxo que a análise materialista nos obriga a reconhecer: Lula não romperá com o neoliberalismo, não fará reforma agrária radical, não eliminará a dependência de commodities. Mas, se o país transitar para um autoritarismo consolidado, a própria luta de classes será inviabilizada. Por isso, defendi o voto crítico em Lula, não por ilusão, mas por necessidade estratégica: manter espaço democrático, eleger bancadas de esquerda, disputar o terreno digital, fortalecer movimentos sociais e isolar a ultradireita. Esse artigo foi o norte para as comparações e aproximações que faço agora.
Esta semana, enquanto professor da rede municipal de ensino, passei o fime Matrix (1999) para os meus alunos a fim de debater o uso consciente da I.A., conceitos como pós-verdade, fake news etc... Não, não falei de eleições.
E aqui um aparte: ser professor, para mim, é a minha atividade mãe, pois foi a percepção sobre as limitações que possuo enquanto professor de interferir na vida de meus estudantes que fez com que eu (e acredito, também, Ailson Cunha, Ricardo Jimenes) fundássemos o Blog O Calçadão. E foi, pelo Blog O Calçadão que fui percebido pelo MST. Desde então, a minha vida tem sido lutas, no plural e coletiva. Nunca deixei de ser o que sempre fui: professor de escola pública. E sim, ainda me surpreendo e me emociono com os meus alunos, minhas companheiras e companheiros de profissão.
Entretanto, à medida que o filme transcorria, fui percebendo como a alegoria de Matrix explicita com precisão cirúrgica o que está em jogo, atualmente, no país, na Amércia Latina. E separo duas cenas emblemáticas para mim: a cena em que Morpheus, após Neo aceitar a pílula vermelha, realiza uma conversa extremamente difícil: a verdade sobre a simulação, por mais dolorosa que seja. Na cena, Morpheus afirma-lhe, quando questionado sobre o que poderia ser a realidade, que esta, como se saída de uma obra de platão, do mundo sensível, a sua percepção fosse "apenas sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro". Entretanto, no plano das ideias, o líder do grupo rebelde completa, dizendo-lhe que a Matrix é um mundo de sonho gerado por computador, construído para manter a humanidade sob controle. As redes sociais, o click bait, a resposta/satisfação instantânea, a projeção idealizada de si mesmo?
Na segunda conversa, Cypher faz um trato com Smith: sabe que o filé não existe, mas prefere a mentira porque ela lhe garante prazer, status e esquecimento. Ele quer ser rico, importante, e entrega Morpheus em troca de uma vida confortável dentro da Matrix. A ignorância, para Cypher, é uma bênção. Essas duas conversas definem os polos de um mesmo dilema que se repete, com outras roupagens, na política brasileira de 2026.
Neste sentido, Lula encarna o chamado à consciência crítica. Em discurso na ONU, o presidente alertou que "um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência". Em Barcelona, também disse que "Sem regras, as big techs vão instituir a era do colonialismo digital. Nossos dados são extraídos, monetizados e usados para concentrar o poder político e econômico nas mãos de um punhado de bilionários".
Lula assinou quatro projetos de lei e dois decretos voltados à proteção de mulheres no ambiente digital e à regulamentação das plataformas, determinando que as big techs removam conteúdos criminosos sem ordem judicial. A ANPD ganhou poder de polícia sobre as plataformas. Essa é a pílula vermelha: enfrentar a Matrix algorítmica, desvelar a extração de dados, regular os monopólios tecnológicos, proteger a soberania nacional.
Flávio Bolsonaro é o Cypher da política brasileira. Seu plano de governo tem uma seção chamada "Tecnologia, inovação e estado digital", mas o que ele oferece não é soberania: é abertura do mercado às big techs, compliance com IA e um datacenter "soberano" apenas no discurso. Como aponta Renata Mielli, coordenadora do CGI.br, enquanto Lula defende "enfrentar os algoritmos", Flávio parte da ideia de "abrir completamente o mercado às big techs" e seus aliados tentam ligar qualquer regulação a uma suposta "censura". Flávio processou o X pedindo CPF, e-mail e telefone de cinco perfis que o criticam. A campanha do senador acionou o TSE ao menos 24 vezes para remover conteúdos críticos publicados por opositores. A extrema-direita que sempre invocou a "liberdade de expressão absoluta" agora busca na Justiça o direito de perseguir críticos. É o "liberdade para mim, lei para você". A censura, para o bolsonarismo, é mera conveniência.
E há o trato com Smith. O PT pediu ao STF que investigue se Flávio recebeu financiamento estrangeiro da Rockbridge Network, grupo conservador dos EUA fundado por J.D. Vance e ligado a doadores de Trump, com interesse na exploração de terras raras no Brasil. A Rockbridge é uma rede de doadores republicanos criada em 2019 por Chris Buskirk e pelo hoje vice-presidente dos EUA, J.D. Vance. Documentos que levam o nome da suposta filial brasileira propõem um Conselho de Tecnologia para aproximar grandes investidores estrangeiros da campanha de Flávio Bolsonaro. A proposta inclui microconselhos temáticos e um plano para tornar o Brasil o "principal fornecedor e polo de processamento de minerais críticos alinhado ao Ocidente no Hemisfério Ocidental". Flávio faz "questão de explicitar a sua subordinação a Donald Trump", como Cypher a Smith, seguindo o exemplo do pai. O império estadunidense não é uma metáfora de Matrix: é um ator concreto que financia, orienta e lucra com a extrema-direita brasileira.
A disputa eleitoral, enquanto isso, segue acirrada e todos os números revelam um país dividido, em que a pílula azul da ignorância confortável ainda seduz amplos setores.
Mas a disputa não se resolve apenas nas urnas. Em setembro de 2026, movimentos sociais, centrais sindicais e artistas se reuniram em Plenária Nacional pela eleição de Lula, com cerca de 500 participantes. A campanha incluiu mais de 500 atividades em distintos setores sociais: movimentos juvenis, femininos, afrodescendentes, laborais e culturais. O MST reafirmou a reforma agrária popular como base da democracia e da soberania alimentar. Lula anunciou R$ 2,7 bilhões em ações de reforma agrária, com a criação de dez novos assentamentos. O diretor do MST, João Paulo Rodrigues, avaliou que faltou à esquerda ir mais às ruas neste mandato, e que um eventual próximo mandato precisaria "combinar projeto político com pressão e presença nas ruas". Essa é a política da pílula vermelha: organização coletiva, pressão popular, consciência crítica.
Agora, é preciso olhar com atenção para quem Lula governa e para quem a sua vitória, ou a sua derrota, afeta diretamente. Os povos indígenas, os quilombolas, os povos do campo e as periferias urbanas são os que mais sentem o peso da disputa. O governo Lula retomou a demarcação de terras indígenas: até março de 2026, cerca de 76 Terras Indígenas estavam prontas para homologação, aguardando apenas a assinatura do presidente, e 20 territórios já haviam sido homologados, totalizando 2 milhões de hectares. Lula também entregou títulos de domínio a oito territórios quilombolas, somando cerca de 11,6 mil hectares em seis Estados e abrangendo 1.780 famílias. O orçamento do Incra saltou de R$ 300 milhões em 2023 para R$ 1,2 bilhão em 2026, e 230 mil famílias foram incluídas no Programa Nacional de Reforma Agrária. Para as periferias, Lula prometeu "devolver o território da periferia e da cidade para o povo", com a criação de um Ministério da Segurança Pública e a retomada de áreas dominadas pelo crime organizado. E destinou R$ 702,9 milhões para urbanização de favelas no Rio de Janeiro.
O que está em jogo para essas populações é a própria sobrevivência. O plano de Flávio Bolsonaro fala em dar "autonomia" a povos indígenas e quilombolas para decidir sobre atividades produtivas em suas terras, com "indenização de eventuais restrições ao usufruto". A palavra "autonomia", no léxico bolsonarista, sempre significou liberação para a exploração econômica: garimpo, agronegócio, mineração. Flávio afirmou que os indígenas "não querem ser mais um animal de zoológico" e defendeu a "integração" à sociedade. o que, na prática, significa a destruição dos modos de vida tradicionais. O pai, Jair Bolsonaro, prometeu "não demarcar um centímetro de terra" para indígenas e quilombolas, e cumpriu a promessa. Flávio radicaliza: quer transformar os territórios indígenas e quilombolas em áreas de exploração mineral, alinhadas aos interesses das big techs e do império estadunidense.
Para as mulheres, a ameaça é igualmente concreta. O Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, um recorde histórico, e 2026 começou ainda pior: 399 mulheres foram assassinadas entre janeiro e março, média de quatro mortes por dia, o maior número para um primeiro trimestre em toda a série histórica. Em Goiás, 54 feminicídios foram registrados até outubro de 2026. O governo Lula lançou o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio e implementou, no primeiro semestre de 2026, um plano estratégico para combater a misoginia. O plano de governo de Lula defende o fim da escala 6x1, com redução da jornada para 40 horas semanais sem diminuição de renda, e o avanço na igualdade salarial entre homens e mulheres. Flávio Bolsonaro, em contrapartida, propõe a castração química de criminosos que abusam de mulheres e crianças, uma medida punitivista que não ataca a raiz da violência de gênero e serve apenas para alimentar o espetáculo penal. O programa de Flávio não contém as palavras "racismo", "igualdade racial" ou "população negra".
Para a população negra, a disputa é entre a continuidade de políticas de inclusão e a sua completa eliminação. Os governos Lula criaram marcos como a Lei Maria da Penha e a Lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira. Em 2026, o governo realizou o maior Sisu da história e o maior Prouni da história, com 594 mil bolsas, e ampliou a política de cotas raciais. O movimento negro participou da construção do programa de governo, reafirmando que "ainda há muito a ser feito pelo enfrentamento ao racismo e promoção da igualdade racial". Flávio Bolsonaro, por outro lado, repete o receituário do pai: desmonte das políticas de igualdade racial, criminalização dos movimentos sociais, exaltação da "meritocracia" como forma de negar o racismo estrutural. A bancada conservadora no Congresso, que abriga quase metade das cadeiras da Câmara, opõe-se sistematicamente desde os direitos sexuais e reprodutivos até a laicidade do Estado.
Para a comunidade LGBTQIA+, o medo é de retrocesso em direitos que já estão "por um fio". A extrema-direita compreendeu rapidamente que mobilizar medo em torno dos debates de gênero e das pautas trans produz engajamento político e radicalização social. Mulheres trans e travestis passaram a ser retratadas como "ameaça, fraude ou perigo para mulheres, crianças e famílias". Projetos de lei multiplicam-se pelo país para proibir crianças e adolescentes de participar das Paradas do Orgulho LGBT+. Michelle Bolsonaro, em evento eleitoral, destilou homofobia e acionou "uma série de apitos para grupos masculinistas e fundamentalistas". O deputado federal Zé Trovão (PL-SC) defendeu, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, a violência contra pessoas LGBT como forma de "moralizá-las". Lula, em contraste, assinou decretos de proteção à população LGBTQIA+ e manteve o Ministério dos Direitos Humanos atuante na pauta.
Para as religiões de matriz africana, a perseguição é histórica e estrutural. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, o Disque 100 registrou 2,7 mil denúncias ligadas à intolerância religiosa, com Umbanda, Candomblé e outras religiões afro-brasileiras entre as principais vítimas. A pesquisa "Respeite meu Terreiro", feita em parceria com a UniRio, revelou que 76% dos líderes de 255 terreiros ouvidos em todo o país relataram casos de racismo, e 80% tinham integrantes vítimas diretas de intolerância. O governo Lula criou a Política Nacional para Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro e de Matriz Africana, por meio do Decreto 12.278/24, e elevou o orçamento da área de R$ 2,5 milhões em 2023 para R$ 115 milhões em 2025 e 2026, distribuídos entre 11 ministérios. Em setembro de 2026, o ministro Flávio Dino determinou que a Polícia Federal investigasse uma "aparente onda de ataques" contra imagens católicas e terreiros de religiões de matriz africana, com indícios de crimes como ultraje a culto e preconceito religioso. Os ataques não são episódios isolados: são parte de uma ofensiva coordenada da extrema-direita contra a laicidade do Estado e contra as religiões que resistem ao projeto de poder bolsonarista.
O artigo de agosto já apontava para o bolsonarismo digital (redes coordenadas, algoritmos, campanha permanente, WhatsApp, Telegram, X) e para o risco de que a extrema-direita construísse máquinas de propaganda que a esquerda ainda está aprendendo a enfrentar. O que se acrescenta agora é a dimensão geopolítica e a dimensão dos direitos. Flávio não é apenas herdeiro do clã; é o elo com a Rockbridge Network, com J.D. Vance, com Trump, com o interesse em terras raras. O império estadunidense e as big techs não são apenas metáforas de Matrix: são atores concretos que financiam, orientam e lucram com a extrema-direita. Enquanto Lula fala em colonialismo digital e regulação, Flávio fala em abertura total do mercado, compliance e censura contra críticos. Enquanto Lula demarca terras indígenas, Flávio promete "autonomia" para explorá-las. Enquanto Lula amplia o orçamento para terreiros, Flávio se alinha à bancada que ataca a liberdade religiosa.
A eleição define se o espaço democrático se fecha ou permanece aberto, ainda que precário; quem controla o Senado e a Câmara Federal; se haverá mínimas condições de organização e mobilização para a esquerda construir poder popular. A eleição não define a transformação, aniquilação da estrutura capitalista, nem que o Brasil vai deixar de ser dependente de commodities e, muito menos, a luta de classes deixar de ser o motor da história. Reconhecer isso não torna a eleição irrelevante. Pelo contrário, se o Brasil transitar para um regime autoritário consolidado, e os sinais de risco são reais, a capacidade da luta de classes será drasticamente reduzida. A repressão, a censura, o fechamento do espaço democrático não são detalhes de regime, são estruturas que definem o próprio campo de possibilidades para a mobilização social. Para indígenas, quilombolas, mulheres, negros, LGBTs e povos de terreiro, a eleição define se eles terão direitos ou se serão novamente tratados como obstáculos a serem removidos. O conto da Aia?
A esquerda precisa votar em Lula em 2026. Mas não só a esquerda: as mulheres, o povo negro, a comunidade LGBT+, líderes religiosos de várias matrizes e credos, os povos do campo, da floresta; não por ilusão de que ele resolverá a contradição capitalista, mas por necessidade estratégica: impedir o fechamento democrático, manter mínimas condições de organização e mobilização, ganhar tempo para construir uma alternativa real. Mas só votar no presidente não adianta, precisamos eleger o máximo de senadores e deputados de esquerda possível; disputar o terreno digital com a mesma sofisticação que o partido digital bolsonarista; construir narrativa que também ofereça ruptura real, não apenas gestão competente; fortalecer os movimentos sociais para que pressionem Lula por reformas estruturais; e isolar a ultradireita politicamente, mostrando que autoritarismo não resolve a crise capitalista, apenas a aprofunda. O voto crítico não é adesão ao lulismo: é a defesa de um campo democrático mínimo onde a luta de classes possa continuar.
Morpheus diz a Neo: "Eu não disse que seria fácil". A liberdade nunca é fácil. Exige enfrentar a Matrix, desvelar a simulação, organizar a resistência. Cypher escolhe o caminho fácil: entrega Morpheus, aceita o filé que não existe, vive na mentira confortável. Flávio Bolsonaro é Cypher. E Lula, é Morpheus? Não sei. Mas não é Cypher. A disputa de 2026 não é apenas entre dois candidatos., mas entre dois projetos de Brasil e dois projetos de mundo. De um lado, a soberania digital, a regulação das big techs, a demarcação de terras, a proteção das mulheres, a igualdade racial, a liberdade religiosa, a organização popular, a resistência ao império, o prato de comida cheio. Do outro, a subordinação a Trump, a abertura do mercado às big techs, a censura conveniente, a exploração dos territórios, a violência de gênero, o racismo estrutural, a intolerância religiosa, a ignorância como bênção, a fome.
A linha, porém, passa por dentro de cada pessoa. Nas cenas discutidas aqui, Neo hesita e Cypher já foi rebelde. O que define o lado, a vida não é a retórica, mas a prática: enfrentar a Matrix ou vender Morpheus por um filé. Em 2026, o Brasil escolhe qual pílula tomar. O voto crítico não é utopia, mas reconhecimento de que a eleição não salva, porém abre portas. E em 2026, com as portas fechadas, em caso de derrota, não haverá luta de classes possível. Votar em Lula é, portanto, votar no direito de depois recusá-lo, votar para manter as condições mínimas de organização e mobilização, votar para não perder o direito de lutar. O que vem depois (a mobilização, a organização, a disputa de narrativas, a construção de poder popular) é o que realmente importa.
Amanhã, é Lula 13 e os representantes deste campo político!
Fontes
https://www.intercept.com.br/2026/09/29/rede-rockbridge-operacao-brasil/
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