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terça-feira, 27 de outubro de 2026

2026: a geração que reencontrou a democracia

 


A história ensina que grandes acontecimentos forjam gerações. Não se trata apenas de compartilhar uma época, mas de construir valores, identidades e projetos coletivos a partir das experiências vividas. No Brasil, foi assim com o tenentismo, a geração de 1930, a campanha “O Petróleo é Nosso” e, mais recentemente, as gerações da Anistia, das Diretas Já e da Constituinte.

Esta última foi forjada na luta contra a ditadura e na reconstrução da democracia. Hoje, seus integrantes têm, em sua maioria, entre 65 e 80 anos. São homens e mulheres cuja trajetória carrega experiências democráticas e humanistas fundamentais para a história brasileira. Aprenderam, muitas vezes sob o custo da repressão, que democracia, direitos e liberdade não são concessões, mas conquistas que exigem vigilância permanente.

Nas décadas seguintes, duas novas gerações se formaram. A primeira, entre os anos 1990 e a primeira década dos anos 2000, foi marcada pela transição do modelo privatista de Fernando Henrique Cardoso para o desenvolvimentismo social dos governos Lula. Foi a geração que testemunhou a ampliação de direitos, o acesso à universidade, a conquista da casa própria, a valorização dos salários, o crescimento econômico e a expansão das oportunidades. Foi também a geração que elegeu Lula em 2002 e viveu a chamada era de ouro lulista, entre 2003 e 2010.

Essa geração compartilhou com a anterior o apreço pela democracia, pelos direitos sociais e pelo humanismo. Mais do que isso, reconheceu o papel do Estado na transformação concreta da vida das pessoas.

A geração seguinte, formada no contexto da crise do capitalismo global pós-2008 e das manifestações de junho de 2013, percorreu outro caminho. A insatisfação com os serviços públicos e com a representação política abriu espaço para uma crítica generalizada ao Estado e à própria política. Em parcelas expressivas dessa geração, o combate à corrupção tornou-se a principal bandeira, frequentemente associado à deslegitimação dos partidos, das políticas sociais e das instituições.

Foi a geração que transformou a camisa da Seleção em símbolo político, celebrou a Operação Lava Jato e alimentou movimentos de direita que contribuíram para a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018. Nesse processo, democracia, direitos sociais e humanismo perderam centralidade no debate público. Abriu-se, assim, uma fratura entre os herdeiros da redemocratização, a geração lulista e os setores mobilizados pela onda política de 2013.

Nem a campanha Lula Livre nem a vitória eleitoral de 2022, em um Brasil ainda marcado pela pandemia, foram suficientes para superar essa divisão e produzir uma identidade coletiva capaz de reconectar essas gerações.

Até que chegou 2026. Mais precisamente, o segundo turno.

Quando o país parecia caminhar para um novo período sombrio, impulsionado pelo bolsonarismo e pelo antipetismo, uma nova juventude se levantou contra a ameaça de uma guinada neoliberal autoritária. Foi às ruas e, nesse movimento, reuniu antigos lulistas, setores democráticos da direita e, sobretudo, os decanos das Diretas e da Constituinte, os baluartes da redemocratização.

A experiência dos mais velhos encontrou a energia dos mais jovens. Memória e renovação voltaram a caminhar juntas. As manifestações do campo democrático no segundo turno, ao reivindicarem democracia, soberania nacional e preservação dos direitos sociais, recolocaram no centro da disputa valores que haviam perdido espaço desde 2013.

Ainda não temos distância histórica nem condições objetivas para dimensionar plenamente o significado desse acontecimento. Mas talvez estejamos diante de algo maior do que uma mobilização eleitoral: o nascimento de uma nova geração política, capaz de estabelecer pontes com os lutadores da redemocratização e com aqueles que viveram a expansão social dos anos 2000.

O futuro dirá se essa convergência resistirá às urnas e às circunstâncias. Gerações não se consolidam em um único ato; constroem-se na continuidade da luta, na organização e na capacidade de transformar valores em projetos duradouros.

Por ora, porém, fica a gratidão. Gratidão à juventude que se levantou, aos que não desistiram da democracia e aos que, mesmo depois de tantas batalhas, voltaram às ruas para defender o futuro do país.

Se 2026 realmente forjou uma nova geração, seus frutos poderão acompanhar o Brasil pelas próximas duas décadas. E talvez sua maior conquista tenha sido esta: mostrar que a história não está condenada a repetir suas rupturas e que, mesmo quando tudo parece perdido, a democracia ainda é capaz de reunir gerações e renovar a esperança.


Ricardo Jimenez - Professor e Editor do Blog O Calçadão

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