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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Eleição 2026: não pode haver dúvida entre o voto crítico em Lula ou entregar o país ao autoritarismo


É preciso aumentar bancadas que defendam os interesses populares
Imagem gerada por IA

Em 2026, parte da esquerda brasileira afirma enfrentar uma encruzilhada: votar em Lula sabendo que ele não resolverá a contradição capitalista, que não fará reforma agrária radical, que não romperá com o neoliberalismo ou se recusar a votar e entregar o país ao autoritarismo. Se a primeira opção lhes parece insuficiente, combater a segunda é necessária.

Sabemos que a eleição não sintetiza a luta de classes, mas tampouco é irrelevante para ela. Entre quem diz que tudo é regime e quem diz que regime é secundário diante da estrutura capitalista, existe uma tensão que define o próprio futuro da frágil e jovem democracia brasileira.

O paradoxo da eleição excepcional

Desde 2018, o Brasil vive eleições que não são ordinárias. Isso é um fato. Mas o que significa exatamente?

Não significa que a estrutura capitalista será transformada por uma vitória eleitoral. Lula não vai romper com o neoliberalismo, não vai implementar uma reforma agrária radical, não vai eliminar a dependência das commodities. Esse é o ponto crucial que a análise materialista nos obriga a reconhecer: a eleição escamoteia a luta de classes tanto quanto a sintetiza.

Mas aqui está o problema: reconhecer isso não torna a eleição irrelevante. Pelo contrário, se o Brasil transitar para um regime autoritário consolidado, e os sinais de risco são reais, a capacidade da luta de classes será drasticamente reduzida. A repressão, a censura, o fechamento do espaço democrático não são detalhes de regime, são estruturas que definem o próprio campo de possibilidades para a mobilização social.

O bolsonarismo não é apenas um movimento político tradicional, mas uma nova forma de organização que substitui estruturas burocráticas por redes digitais. Isso tem implicações que a esquerda ainda está processando.

Diferentemente do pemedebismo, que funciona pela despolitização e pelos acordos privados, o partido digital bolsonarista opera em campanha permanente. Politiza o debate público segundo sua narrativa, mobiliza suas bases de forma coordenada nas redes, e isso o torna mais resiliente do que os partidos tradicionais de direita.

Nos grupos de WhatsApp, a narrativa é construída em tempo real, sem mediação de jornais ou TV. Nas eleições , campanhas contra ministros ou pautas específicas são coordenadas simultaneamente em múltiplas plataformas, alcançando milhões em horas.

A questão materialista aqui é fundamental: quem controla as redes? Quem define os algoritmos? A desinformação coordenada não é um acidente, é uma característica do sistema. E isso afeta diretamente a capacidade de mobilização da classe trabalhadora, pois a luta de classes não acontece apenas nas ruas ou nas fábricas em 2026, acontece, também, no terreno digital, onde a extrema-direita já construiu máquinas de propaganda que a esquerda ainda está aprendendo a enfrentar.

A ilusão do vencedor governa e a realidade da transição

É importante atentarmos para a realidade concreta: se Lula vencer, e a margem será pequena, ele não governará em uma democracia estável, talvez nem termine o mandato, governará em uma zona cinzenta institucional, em que cada decisão será contestada, onde o Centrão controlará o orçamento, onde a extrema-direita continuará mobilizada nas ruas e nas redes.

Pior: sem maioria legislativa, enfraquecido por um Senado mais para a extrema-direita, ou uma Câmara Federal ainda mais enfraquecida, Lula será forçado a manter relações conciliadoras com o Congresso a um preço mais alto. 

Isso significa que as pautas de transformação estrutural como reforma agrária, reestruturação da propriedade, ruptura com o modelo extrativista, ou simplesmente pautas ligadas aos Direitos Humanos como o impedimento da redução da maioridade penal, uma maior criminilização do aborto ou de acirramento de criminalização das lutas populares continuarão subordinadas ou serão agudizadas em nome da manutenção da governabilidade. Precisamos eleger deputados e senadores comprometidos com as lutas do campo popular

A eleição não resolverá a contradição entre capital e trabalho, apenas a adiará. Na melhor das hipóteses, a vitória lulista normalizará a contradição entre capital e trabalho sob a forma de gestão competente da crise capitalista.

O que está em jogo

Importante perdermos a ilusão sobre o que a eleição define e o que ela não define.

O que a eleição define:
Se o espaço democrático se fecha ou permanece aberto (ainda que precário). 
Quem controla o Senado e a Câmara Federal (define a governabilidade real e os limites do possível para qualquer governo).
Se haverá mínimas condições de organização e mobilização para a esquerda construir poder popular.

O que a eleição não define:
A estrutura capitalista ser transformada.
O Brasil deixar de ser dependente de commodities.
A desigualdade ser efetivamente reduzida (ao invés de apenas gerenciada).
A luta de classes deixar de ser o motor da história.

Uma estratégia concreta para a esquerda

A esquerda precisa votar em Lula em 2026. Não por ilusão de que ele resolverá a contradição capitalista, mas por necessidade estratégica: impedir o fechamento democrático, manter mínimas condições de organização e mobilização, ganhar tempo para construir uma alternativa real.

Se a esquerda governista atual, apenas oferece gestão competente e melhorismo social (muito, inclusive, pela própria estrutura burguesa), a extrema-direita oferece ruptura, ainda que uma ruptura para trás (autoritarismo). Para uma classe trabalhadora empobrecida pelo neoliberalismo, a promessa de mudança radical, mesmo que reacionária, pode ser mais atrativa que a promessa de ajustes dentro do sistema. 

Mas isso não pode significar subordinação ao lulismo. Significa:
Eleger o máximo de senadores e deputados de esquerda possível, entender que cada cadeira conquistada é uma trincheira de resistência.
Disputar o terreno digital com a mesma sofisticação que o partido digital. Não é opcional. A luta de classes em 2026 acontece também nas redes.
Construir narrativa que também ofereça ruptura real, não apenas gestão competente. Enquanto isso não acontecer, a extrema-direita continuará oferecendo a resposta mais atrativa para os desesperados.
Fortalecer os movimentos sociais para que estes pressionem Lula por reformas estruturais. Não apenas apoiar, mas para pressionar. Isso é voto crítico na prática.
Isolar a ultradireita politicamente, mostrando que autoritarismo não resolve a crise capitalista, apenas a aprofunda.

O voto crítico não é ilusão, mas reconhecimento

A eleição de 2026 não resolverá a luta de classes brasileira, mas pode abrir ou fechar as portas para que essa luta continue, pode permitir ou impedir que a esquerda construa uma alternativa real ao capitalismo.

O voto crítico não é utopia, mas reconhecimento de que a eleição não salva, porém abre portas. E em 2026, com as portas fechadas, em caso de derrota, não haverá luta de classes possível. Votar em Lula é, portanto, votar no direito de depois recusá-lo, votar para manter as condições mínimas de organização e mobilização,  votar para não perder o direito de lutar.

Claro que não é suficiente. O que vem depois, a mobilização, a organização, a disputa de narrativas, a construção de poder popular é o que realmente importa.

Em 2026, a esquerda brasileira vota para não perder o direito de lutar. E depois, sem ilusões, segue lutando dentro do campo democrático (mesmo que burguês) até construir uma revolução socialista que, de fato, supere o capitalismo.


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