Presidente retornou ao Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, palco das greves de 1979, para oficializar candidatura à reeleição
Em discurso de cerca de 30 minutos, o petista de 80 anos resgatou episódios de sua trajetória sindical, criticou adversários e anunciou propostas para um eventual quarto mandato. A fala foi marcada por referências à sua origem humilde e à identificação com a classe trabalhadora.
Memória das greves e lição política
Lula dedicou parte significativa do discurso a relembrar as greves de 1979 e 1980. Afirmou que a emoção de retornar ao estádio é "muito mais forte" do que a sentida em 1979, quando não havia palanque, microfone ou megafone. Relatou que, na ocasião, cada pessoa repetia sua fala até o fim da multidão.
O presidente descreveu a negociação da greve de 1979, quando considerou boa uma proposta patronal de 15% em três parcelas, pagamento dos dias parados e manutenção do FGTS. Diante da resistência dos trabalhadores, em vez de colocar a proposta em votação, pediu um voto de confiança para retornar ao trabalho e continuar negociando. Segundo Lula, todos levantaram a mão, mas saíram do estádio insatisfeitos, e a confiança só foi recuperada ao longo de um ano.
"Quando eu cheguei, todo mundo falava: 'Lula, a peada não vai aceitar o acordo. A peada tá radicalizada, não vai aceitar o acordo porque a gente preparou os trabalhadores para uma guerra'. Aí nós chegamos aqui, cada um que ia falar era vaiado. Quando eu fui falar, tinha mais gente do que tem hoje aqui, porque eu não tinha esse parque aqui, tava tudo lotado de gente. Eu fiquei pensando: se eu colocar o acordo em votação, eu vou perder. E eu não posso perder, porque um líder não pode perder uma votação, ele tem que ter capacidade de persuasão. Então, ao invés de colocar o acordo em votação, eu propus um voto de confiança em mim."
| Lula durante discurso |
Em 1980, durante a greve de 41 dias, Lula foi preso em 17 de abril e permaneceu 31 dias na cadeia. O movimento resultou em mais de 15 mil demissões na categoria, e o ex-líder sindical afirmou ter saído do episódio como "herói".
"Em 79, fui tratado como covarde. Em 80, virei herói. Sabe por quê? Porque os trabalhadores descobriram que eu tava certo em 1979 e que eles estavam errados."
Prisão, ditadura e democracia
O presidente comparou dois períodos em que esteve detido. Em 1980, durante a ditadura militar, o delegado da Polícia Federal Romeu Tuma permitiu que ele saísse da cadeia para o enterro de sua mãe, dona Lindu. Em 2019, já no regime democrático, o ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, indicado por ele, não autorizou sua saída para o enterro do irmão Vavá.
"Toda semana ele me liberava. Depois das 10:30 da noite, eu vinha na Pauliceia em São Bernardo, visitar a minha mãe e voltava pra cadeia. E quando ela morreu, ele permitiu que eu viesse no enterro da minha mãe. Você veja a diferença. No tempo da ditadura militar, um delegado de polícia permitiu que eu saísse da cadeia para vir no enterro da minha mãe. Agora, no regime democrático, um juiz, um ministro que eu indiquei, não permitiu que eu saísse da cadeia para vir no enterro do meu irmão Vavá", afirmou.
"Numa demonstração de que os homens não são medidos por épocas, os homens são medidos pelo caráter, pela dignidade, pela criação que ele teve de berço", completou.
Lula dedicou sua participação no evento à mãe, que definiu como "responsável por tudo que eu sou na vida". Relatou que dona Lindu nasceu e morreu analfabeta, chegou a Santos vinda de Pernambuco e, ao descobrir que o marido estava com outra, criou sozinha oito filhos.
"Uma mulher que veio de Pernambuco para encontrar com o marido em Santos. Quando chegou em Santos, o marido estava casado com outra. Ela não teve dúvida, largou dele e foi cuidar de oito filhos pequenos."
Críticas à condução da pandemia
Lula dirigiu críticas contundentes à oposição, especialmente à condução da política de saúde durante a crise da Covid-19. O presidente afirmou que a direita
"ficava dando risada das crianças que estavam morrendo por falta de remédio" e que foi "responsável pela morte de 400 mil pessoas da Covid por irresponsabilidade de não comprar a vacina".
"Enquanto for vivo, não vou permitir parar de lutar e deixar com que a direita, uma direita que ficava dando risada das crianças que estavam morrendo por falta de remédio, de uma direita que é responsável pela morte de 400 mil pessoas da Covid por irresponsabilidade de não comprar a vacina. Que futuro essas pessoas pensam pro povo brasileiro se você rir de um velhinho que tá morrendo afixiado por falta de ar? Que futuro você quer pro povo brasileiro se você não investir em educação? Que futuro que você quer pro povo brasileiro se você não investir na saúde? Que futuro que você quer pro povo brasileiro, se você não investir em casa? Que futuro que você quer se você não investir no emprego?", questionou.
A fala de Lula ecoa o embate político em torno da política de enfrentamento à pandemia, que resultou em mais de 700 mil mortes no país. O governo anterior adotou posição contrária à compra de vacinas e incentivou o uso de medicamentos sem eficácia comprovada, segundo relatórios da CPI da Covid, instalada no Senado Federal em 2021.
O presidente também destacou a importância do programa Farmácia Popular, que garante medicamentos gratuitos para a população em todo o país.
"A importância do Farmácia Popular para a saúde dos brasileiros e dos mais pobres, que precisam de remédios na boca, remédios para pressão, remédios para diabetes", afirmou em outro trecho, defendendo a continuidade e ampliação da política de acesso a medicamentos.
Dados comparativos: emprego e economia
Lula apresentou uma série de números para contrapor sua gestão ao governo anterior. Segundo o presidente, enquanto o mandato do adversário gerou 2 milhões de empregos, seu governo criou
"10 milhões e 100 mil empregos formais nesses últimos três anos e meio".
A taxa de desemprego, de acordo com os dados citados, ficou em 8% no mandato anterior contra 5,4% no atual. A inflação do período anterior foi de 6,2% contra 4,5% na gestão do petista, enquanto o crescimento econômico foi de 1,4% na gestão anterior e de 3% na atual. O presidente também mencionou a situação fiscal, afirmando que o governo anterior registrou déficit de 2,8% enquanto o seu chegou a 0,5%.
"Enquanto eles criaram no mandato dele 2 milhões de empregos, nós criamos 10 milhões e 100 mil empregos formais nesses últimos três anos e meio. A inflação deles foi 6.2, a nossa 4.5. A taxa de desemprego deles foi 8%, a nossa 5.4. O crescimento econômico deles foi 1.4, o nosso foi 3%. A situação fiscal eles tiveram um déficit fiscal de 2.8% e nós chegamos a 0.5%", declarou.
"Isso é pensar no futuro", afirmou.
O presidente também afirmou que o novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) investiu R$ 700 milhões e que a indústria brasileira cresceu 3,4% após anos sem expansão. "Fazia anos que a indústria brasileira não crescia e nós crescemos 3,4%", declarou, referindo-se à retomada do setor industrial.
Investimentos em infraestrutura
Lula citou obras estruturantes que marcaram seus mandatos como exemplos de "pensar no futuro". Mencionou o programa Luz para Todos, que levou energia elétrica a 17 milhões de pessoas que viviam "no século XIX na escuridão, nas trevas", e a transposição do Rio São Francisco, projeto que, segundo o presidente, era um sonho do imperador Dom Pedro I em 1846.
"Quando eu resolvi fazer o programa Luz para Todos, eu tava pensando no futuro do povo brasileiro. Porque quem vive à luz de vela ou de candieiro, como eu vivi, sabe que o futuro é levar a energia da casa da pessoa. Nós levamos para o futuro 17 milhões de pessoas que viviam no século XIX na escuridão, nas trevas. E nós levamos luz elétrica para a casa das pessoas, para as crianças aprenderem a comer, enxergando a casa dos seus irmãos, enxergando o que estava mastigando."
Sobre a transposição, destacou sua origem nordestina:
"É um pernambucano de Caetés que vai fazer a obra que o imperador não conseguiu fazer. É um filho do Nordeste que sabe o que é pegar água no açude, que sabe o que é pegar água misturada com fezes de animal, com caramujo, com cocô de cabra, de vaca, com urina de animal para levar para casa para beber."
"Se Deus quiser, dado agora este ano eu vou inaugurar, na verdade, a última gota d'água que nós vamos levar pra cidade de Fortaleza para nunca mais o Nordeste chorar atrás de um pingo d'água", completou.
Educação e universidades
O presidente também comparou os investimentos em educação entre seu governo e as gestões anteriores. Segundo Lula, em 500 anos de história foram criadas 136 ou 170 universidades no país, enquanto ele e a ex-presidente Dilma Rousseff criaram 200 em apenas 16 anos.
"O Brasil tem 300 e poucas faculdades espalhadas pelo Brasil inteiro. 500 anos. Eles fizeram 136 ou 170. Eu e a Dilma, em apenas 16 anos, fizemos 200. Em 16 anos, nós fizemos mais do que eles fizeram em 500 anos de universidade nesse país", afirmou.
Em relação aos institutos federais, o presidente afirmou que o primeiro foi criado em 1909 pelo presidente Nilo Peçanha, no Rio de Janeiro, e que em 100 anos foram construídos 140 unidades. Segundo Lula, ele e Dilma criaram 606 institutos em 16 anos e o governo pretende chegar a 800 até o fim do mandato.
"Em 100 anos, eles fizeram 140. Eu e a Dilma fizemos 606 em apenas 16 anos. E vamos terminar o mandato com 800 institutos para dizer para vocês que isso é pensar no futuro. O futuro significa investir em educação. O futuro significa formar o nosso jovem", declarou.
O presidente também comparou os custos entre investir em educação e em encarceramento: "Sabe quanto custa um preso na cadeia aqui em São Paulo? R$ 35.000, e o menino na universidade custa 20. Qual é a lição que eu posso dar para esses que não pensaram no futuro, seus ignorantes? É que investir em educação é muito mais barato do que investir na cadeia para prender essas pessoas."
Programa Pé-de-Meia
Lula mencionou o programa Pé-de-Meia, voltado a estudantes do ensino médio para evitar evasão escolar. O presidente afirmou que "7 milhões e 200 mil meninos do ensino médio estão estudando porque nós não permitimos que ele sair da escola", referindo-se às bolsas concedidas para permanência dos alunos na rede pública.
O programa, lançado em 2024, prevê o pagamento de incentivos financeiros a estudantes de baixa renda matriculados no ensino médio público, com o objetivo de reduzir o abandono escolar.
"Vocês sabem quantos estudantes que estavam desistindo da escola do ensino médio, nós demos uma bolsa para eles não sair da escola. 7 milhões e 200 mil meninos do ensino médio estão estudando porque nós não permitimos que ele sair da escola", afirmou.
Soberania nacional e exploração mineral
O presidente abordou a exploração de terras raras e minerais críticos, mencionando a disputa entre China e Estados Unidos por esses recursos. Afirmou que o Brasil não precisa optar por nenhum dos dois países:
"O que nós queremos é colocar nossas meninas e os nossos meninos para estudarem como é que a gente vai explorar esse minério, como é que a gente vai transformá-lo, como é que a gente vai produzir os celulares, os chips, as baterias elétricas."
"Porque eu não quero nem com os Estados Unidos, nem com a Rússia, nem com a China, nem com a França, nem com a Inglaterra. Ninguém vai explorar os nossos minerais críticos. Nós é que vamos explorar, em benefício do povo brasileiro", afirmou.
Lula defendeu que o país deve extrair, transformar, industrializar e produzir os produtos derivados desses minerais no Brasil, gerando emprego e riqueza internamente. "A gente não quer exportar o mineral bruto para depois comprar as coisas prontas dele. Nós queremos extrair aqui, transformar aqui, industrializar aqui, produzir aqui, gerar emprego aqui e gerar riqueza."
Segurança pública
Lula também abordou o tema da segurança pública, destacando ações de seu governo no combate ao crime organizado. O presidente mencionou que, durante a gestão de Márcio Thomaz Bastos como ministro da Justiça, foram recolhidas mais de 500 mil armas da população.
Sobre o governo anterior, Lula afirmou que ele distribuiu e vendeu "mais de 1 milhão de armas e vendeu 1 bilhão de balas". Questionou: "Quem é que ficou com esse 1 bilhão de balas? Foi o dono de casa ou é o crime organizado que, travestido de boa vontade, foi comprar revólver, pistola, fuzil para continuar matando gente e fortalecendo o crime organizado?"
O presidente comparou os valores apreendidos:
"Enquanto eles pegaram, no mandato deles, 1 bilhão de reais do crime organizado, nós pegamos até agora 35 bilhões de reais do crime organizado, porque é pegando o dinheiro deles que a gente vai acabar com a indústria do crime sofisticada."
Lula anunciou que pretende criar o Ministério da Segurança Pública, condicionada à aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição em tramitação no Congresso. Segundo o presidente, a medida dividirá responsabilidades com estados e municípios para
"libertar o povo das vilas mais pobres em que tem quadrilha que manda na vila".
"Vamos trabalhar duro. Se for aprovada a PEC da segurança pública, eu vou criar o Ministério da Segurança Pública para dividir responsabilidade com estados e municípios pra gente libertar o povo das vilas mais pobres em que tem quadrilha que manda na vila, tem quadrilha que aporrinha a vida do povo e nós vamos libertar o povo prendendo todo mundo. Todo mundo que acha que é dono de uma favela ou de um bairro pobre."
Acenos a grupos sociais
O presidente dirigiu-se às mulheres do país, afirmando que
"não baixem a cabeça nunca, porque nós, homens, precisamos aprender a respeitar vocês como companheiras, não como serviçais, não como escravas, não como cidadãos de segunda categoria".
"Levante a cabeça porque Deus fez a gente igual. Não é possível que a gente não termine com essa violência", afirmou.
Lula também mencionou a luta pela igualdade de gênero e o combate à violência contra a mulher, destacando a importância de educar crianças desde cedo:
"Ele tem que começar a aprender desde criança que o homem não é melhor do que mulher. Ele tem que aprender que nós somos iguais."
Convocação à militância
O presidente convocou a militância a utilizar os dados comparativos no debate eleitoral, afirmando que os apoiadores devem "andar com a comparação entre o que nós fizemos e o que os outros fizeram".
"Quero que vocês tenham um número para comparar. Quem assentou mais terras indígenas? Quem assentou mais trabalhador rural? Quem gerou mais emprego? Quem deu mais aumento de salário para que a gente possa dizer para eles: 'Criem vergonha na cara, parem de mentir, porque o povo brasileiro não vai aceitar que a mentira vença a verdade'", declarou.
Convocação eleitoral
O presidente encerrou o discurso convocando os apoiadores a votar em Haddad para governador de São Paulo, em Marina Silva e Simone Tebet para o Senado, e em candidatos a deputados federais do campo progressista. Afirmou ser necessário eleger maioria no Congresso Nacional "para que a gente possa fazer tudo o que a gente tem que fazer nesse país".
"Não se esqueçam de votar no Haddad para governador. Não se esqueça que nós temos dois votos pro Senado. Quem votar em Marina vota na Simone. Quem votar na Simone vota na Marina. Quem votar na Simone, na Marina e no Haddad, vota no Lula para presidente da República. E quem votar no Haddad, no Lula, na Simone, na Marina, vota nos deputados federais e nas deputadas federais do nosso time, porque a gente precisa ganhar as eleições, eleger maioria no Congresso Nacional para que a gente possa fazer tudo o que a gente tem que fazer nesse país."
"Um abraço no coração de cada um de vocês. Que Deus abençoe cada um de vocês. E até a vitória no dia 4 de outubro, se Deus quiser", concluiu.
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