| ROUSSEAU, Henri. Surpreso! (1891) |
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O tigre capitalista não mora na floresta de Chiapas
não mora no leste de Java
ele habita a mente dos corretores da bolsa
ele habita as redações de economia:
olhos esbugalhados
dentes arreganhados sobre folhagens
o tigre impõe ao cobrador de ônibus
a vida como reflexo de seu bote
e em propagandas libertárias
afirma que subirá o seu morro
para eliminar a narcocultura
e "criar bons hábitos"
a extrema-direita olha para a tela e proclama:
o capitalismo segue a ordem natural da carne
e a violência de Estado se torna palmeira
lei da oferta e da procura
e não deixa saída:
ou você devora a garganta do vizinho de barraco,
ou o seu lombo será servido no almoço de domingo.
as folhas grossas do capital
não dividem a chuva do trópico
verniz sobre tela barata
convencem o operário exausto
de que a escala seis por um
não passa de um mandamento biológico
tão imutável quanto o trovão que corta o céu
preocupado com a classe trabalhadora
proclama o jovem neoliberal em pleno sábado
ao lado da noiva
bebendo coca-cola
no ar condicionado de sua sala de estar
enquanto assiste o streaming
na televisão smart de 65 polegadas:
"a multinacional já está automatizando tudo",
justificando a sua contrariedade
ao projeto que extingue a escala 6x1
o tigre espera a presa
porque disseram que não há outra gramática
enquanto a tempestade dobra os galhos sem mito
sem deuses
apenas fumaça e banqueiros
financiando a jaula operária
vendendo o couro do bicho
antes da caça
discurso comum do capital
a selva
a pintura
se torna encomenda pelos que lucram com o medo
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